segunda-feira, 26 de julho de 2010

Monkey-man

 
Todas as imagens foram roubadas daqui

Depois de meia hora esperando no ponto de ônibus lotado, entramos todos no ônibus lotado. As pessoas até pedem licença, mas não conseguem evitar o contato físico. Sinto que meu corpo não me pertence mais, é de domínio público. É domingo, São Paulo, são 18:30 e eu penso que existe a possibilidade de eu chegar atrasada. Enquanto o ônibus anda e eu sou esprimida, um refrão não me sai da cabeça: I'm over it, feeling remarkably fine.
O indivíduo é uma abstração teórica.
Espero na frente do Teatro de Arena. Enquanto espero, um homem bêbado fixa o olhar em mim e atende o telefone. Enquanto conversa com a pessoa do outro lado da linha, pára na minha frente:
- Eu não sei onde que eu tô. Como chama essa rua aqui?
(Ele está virado pra mim, esperando uma resposta. Respondo que não sei.) Ele termina a conversa telefônica enquanto caminha. Volta e me informa que nunca entrou num teatro, que o irmão fazia teatro, mas que ele tinha morrido aos 38 anos de idade - dormindo. Infarto. Na Inglaterra. 
Pressiono os lábios e arqueio as sobrancelhas. Ele muda de assunto. Me informa que é filho de árabe e que mora na Chácara Flora, Santo Amaro. Eu digo que sei onde é, ele me pergunta se eu tenho namorado. Sem pestanejar, aceno com a cabeça.
- Eu quero saber se você tem namoraDO.
Ao saber que (1) não estou livre e que (2) não jogo no mesmo time, avisa que vai embora.
Como eu não qualificava enquanto parceira, não teve dança do acasalamento.
Dentre o público que espera, reparo num moço que me lembra muito um grande amor da minha vida. Fico esperando as reações do corpo que sinalizam o reconhecimento, mas elas não se manifestam. Palpitação normal, temperatura normal, respiração tranquila. Minha razão analisa as feições do rapaz e me diz por que não se trata dele. A altura está muito alta, o nariz não é aquilino, os ombros eram mais largos, ele não envelheceu os quinze anos que eu envelheci.
A razão prevalece.
Meus pensamentos se perdem em outros lugares. Um susto me permite sentir um vento no braço direito. De relance, vejo uma garrafa pet de Fanta de 2 litros caindo do céu. Alguém do prédio em frente jogou uma garrafa vazia pela janela. Podia ter me acertado na cabeça! O vendedor de pipoca comenta sobre uma garrafa com água que tinha caído em cima de um carro, quebrado tudo e dado o maior prejuízo. Até chamaram a polícia, mas não deu em nada.
Diversão a partir do sofrimento alheio.

A porta se abre e eu escolho um lugar privilegiado na plateia. A peça se chama Primus. Alexandre me reconhece, já fico feliz. A peça é muito boa. Além de misturar teatro com outros gêneros artísticos (fotografia, dança, canto, step dancing, djembes), equilibra bem suor e leveza, crítica e empolgação, gesto e voz.
Darwin explica.
Espero, como os alunos de um dos atores, que os atores voltem do camarim. Dou um abraço no Alexandre e volto pelo mesmo caminho que havia me trazido ao teatro. Na TV do ônibus passa Malhação. É domingo, passa das 22:00 e tem rede Globo na TV do ônibus. Pra coroar a programação, Ana Maria Braga ensina a fazer petit gateau de abóbora.
Mais uma forma de estupidificação das massas.

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