segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Poluição luminosa

Em São Paulo não dá pra se observar estrelas, porque elas não se deixam ver. Não que elas sejam tímidas ou fiquem acanhadas com tanta gente olhando pra elas, nada disso. Não é possível discernir a Via Láctea com os pés na metrópole porque a cidade é muito iluminada.

Além dos postes de iluminação que clareiam as ruas, as casas estão praticamente todas iluminadas de noite (sendo que muitas das luzes ligadas não estão contribuindo para que a pessoa se oriente, leia, costure etc., mas são meros sinais de que a casa está ocupada), os outdoors luminosos piscam, as vitrines das lojas fechadas continuam emitindo e desperdiçando luz, os automóveis iluminam ainda mais o seu caminho. Confesso que depois de ficar uns anos fora de São Paulo e voltar depois da lei do Kassab proibindo a poluição visual, tive dificuldades para me orientar de noite. Os outdoors luminosos que me indicavam que eu estava na metade do caminho para casa haviam sumido. Mas essa restrição da poluição visual ainda não resolve o problema da poluição luminosa.

Achei que tivesse mais sucesso na aventura de observar as constelações celestes em Porto Velho, que não é tão grande e iluminada como São Paulo. Esperava finalmente poder aplicar o meu guia de astrononomia e mapear as constelações no céu noturno. Pro meu espanto, reconheci apenas as mesmas estrelas que eu já conhecia do céu paulista: as que compõem o Cruzeiro do Sul, Orion e o planeta Vênus. A Via Láctea não se faz visível por se destacar como uma mancha clara no céu escuro, porque o céu não é escuro.

Guilherme de Almeida escreveu um trabalho interessante e ilustrado sobre poluição luminosa. O desperdício de luz, que ilumina partículas de poeira/ fumaça suspensas e também ilumina as nuvens
  • nos impede de apreciar as estrelas;
  • nos custa dinheiro (pagamos a taxa de iluminação pública);
  • contribui para o aquecimento global (a energia gerada vem de usinas de grande impacto ambiental);
  • desequilibra ecossistemas noturnos;
  • não nos deixa dormir tranquilos.
E eu, que achava que ia me meter no meio do mato, estou rodeada de poluição luminosa, do ar (as queimadas do lixão atrás da Unir cobrem o mundo com uma névoa grossa), das águas (estão construindo a Usina Hidrelétrica no Rio Madeira e todo mundo chama isso de progresso) e sonora (principalmente no fim de semana o vizinho de trás me perturba o dia inteiro com o som de funk carioca da pesada e forró: as bandas se chamam Calypso, Calcinha Preta, Desejo de Menina e por aí vai).

2 comentários:

Constance disse...

Um amigo comentou que leu o seu post e mais o meu no mesmo dia. E ambos se referiam às estrelas sobretudo. No meu caso-contrário, pasmei vendo um céu bastante estrelado porque, justamente, estava fora da poluição luminosa, num local no meio da floresta da mata no meio da estrada!
Parabéns ;-)

http://quandoeuparar.blogspot.com/2009/10/naturaleza.html

iglou disse...

Viu?

A observação de estrelas, que talvez tenha sido uma obviedade em qualquer ponto do planeta 50 anos atrás, só é possível hoje quando se foge das grandes cidades.