terça-feira, 20 de outubro de 2009

Se non è vera, è ben trovata

Recorto aqui trechos de um texto de Fernando de Barros e Silva intitulado Nós, o gorila e a máquina budista, publicado na Folha de S. Paulo em 13/02/2000 e parte integrante do livro Prática de Texto, de Faraco & Tezza (2008: 166, 167) que os meus alunos de Inglês e Espanhol adotaram para o curso de Produção de Textos e Revisão Gramatical.

História que me foi contada por um amigo durante as férias: um zoológico norte-americano queria fazer cruzar um casal de gorilas, tarefa, como se sabe, complicada para muitos animais postos em cativeiro.

Depois de várias tentativas frustradas, surgiu a idéia de driblar a ausência de libido do casal de primatas colocando na jaula uma grande TV, que exibiria um documentário com gorilas copulando na selva, em seu hábitat natural. Seria uma maneira de, quem sabe, estimular o apetite sexual dos semelhantes.

Coisa típica de americano, o vídeo pornô dos gorilas não surtiu o efeito desejado. Macho e fêmea não se entusiasmaram diante da engenhoca. A TV, no entanto, provocou alteração inesperada no comportamento do gorila macho. Desligado o documentário pornô, o aparelho de TV permaneceu na jaula durante mais algum tempo. E, diante dele, o gorila, sentado e prostrado, olhando fixamente para a tela vazia, absorvido horas a fio pelas profundezas do nada.

[...]

Não havia jornais, mas numa das pousadas onde costumávamos comer, debaixo de um grande quiosque redondo feito de palha, ela estava lá: uma imensa TV, que permanecia o dia inteiro ligada. Na Globo, obviamente.

[...]

(...) A TV funcionava com antena parabólica e, durante os intervalos comerciais, a tela permanecia a maior parte do tempo negra, sem sinal, idêntica à que cativou o nosso gorila. (...) Quase sem exceção, ficávamos às vezes 20 ou 30 pessoas com o olhar fixo diante da TV, como que hipnotizados, à espera da volta do sinal, das imagens, quando a hipnose recomeçaria seu novo ciclo. (...)

Com a história do gorila e as cenas da Bahia na cabeça, já de volta a São Paulo, fui reler um artigo de Hans Magnus Enzensberger, crítico, ensaísta e poeta alemão (...).

[...]

(...) [O texto conclui] que o espectador sabe que ela, a TV, "não é um meio de comunicação, mas um meio para a recusa da comunicação", um "método bem definido de agradável lavagem cerebral", que funciona como "higiene pessoal" e "automedicação" - a "única forma universal e amplamente distribuída de psicoterapia". O televisor, diz Enzensberger, "é uma máquina budista", diante da qual a extrema concentração do espectador se confunde e se torna indiferenciável da mais elevada dispersão, ambas reunidas numa espécie de "absorção hipnótica".

Não há dúvida de que a conclusão de Enzensberger é radical, tipicamente alemã - "exagerar é a minha profissão", dizia Max Weber. Mas dá muito o que pensar quando observamos a família em estado de nirvana involuntário diante da novela, ou a fúria do adolesccente zapeando com o controle remoto na mão. O que, afinal, eles estão vendo?

O gorila tinha algo a nos ensinar quando, em sua catatonia, parecia embevecido pelo nada da TV.

Um comentário:

Leonardo disse...

globo com parabólica no intervalo me lembra algo pior... aqueles comerciais de coletâneas em cd... Ô coisa horrorosa :(

hoje não assisto mais tv :D