sábado, 31 de outubro de 2009

Die Welle

Quem já viu o filme sabe que não se trata de uma nova onda de nazismo. Quem já leu a respeito sabe que o filme tem um predecessor americano de '81 chamado The Wave, que é baseado num livro, que relata os fatos acontecidos num experimento em '67 na Califórnia. Em Palo Alto, um professor vivenciou um experimento chamado The Third Wave com os seus alunos.

A pergunta central do filme Die Welle é se ainda hoje regimes autocráticos (facistas) são possíveis. A humanidade já passou pelo III Reich, Mussolini, Franco, Stalin, Mao, Getúlio e tantos outros ditadores. No entanto, a idéia de um grupo disciplinado tomando o poder parece atraente.

E é aí que Die Welle fica interessante. O grupo de alunos que integra Die Welle se veste de maneira igual (camisa branca e calça jeans), tem um logo (a onda), comunga um cumprimento (símbolo da onda feito com o braço direito), segue uma disciplina (pedir a palavra, levantar-se quando fala) e um líder (o professor). Esse grupo de alunos tem apenas Die Welle. Eles não têm uma ideologia, uma agenda, um programa de ação. Não pretendem exterminar, salvar ou revolucionar nada. Quando os alunos escrevem sobre a Welle, relatam que finalmente fazem parte de um grupo, que não são mais vistos como 'o turco', o 'ossi' (alemão oriental), 'o riquinho que não tem amigos', 'a mocinha insegura na sombra da amiga', 'o nerd que tenta ser amigo mas não é cool'. Todos são iguais agora e fazem parte desse coletivo que é facilmente identificável.

Não sou socióloga para saber em que momento da história os cidadãos passaram a indivíduos. Não tenho dados sobre o número de pessoas jovens que vivem sozinhas (eu sou uma delas, mas não sei do resto, só sei de mim). Não sei até que ponto a individualidade precisa chegar para se transformar em egoísmo e depois solidão. Fazemos parte de uma sociedade de consumo, não admitimos mais dividir/reutilizar/reciclar coisas. Compramos, cada um por si, produtos novos que descartamos depois de um tempo. Estamos gradualmente perdendo o contato com a Natureza e o Coletivo.

Lembro de uma propaganda para a tecnologia wireless que me impressionou muito. A câmera mostra o sol na linha do horizonte. O horizonte é desenhado pelo contorno de uma montanha em cima da qual se estende uma corrente de pessoas que se dão as mãos. Como a fonte de luz está atrás das pessoas, apenas vemos vultos pretos. A câmera se aproxima lentamente e - de uma vez - as pessoas soltam as mãos. A música entra, triunfante, e um sorriso beatificado enfeita o rosto de cada um. Uma voz de fundo anuncia: wireless.

A propaganda glorifica a independência (do cabo) e autonomia/ mobilidade (da pessoa). Não lance raízes, não se prenda, seja móvel e independente.

Pois é, somos seres sociais. Nos sentimos acolhidos num grupo. Não vejo Die Welle como um filme que apenas mostra um experimento que fugiu do controle e te força a pensar sobre regimes autoritários e a fragilidade da democracia. Vejo o coletivo como ímã para os indivíduos e motor que dá força para ações estúpidas que os indivíduos não conseguem justificar depois.

2 comentários:

Leonardo disse...

um exemplo disso é a religião...

motor que dá força para ações estúpidas (não sempre claro mas...)

bill disse...

Filme forte.

Também acho que as questões levantadas pelo filme são várias, e pra algumas não existem respostas.

E o fascismo continua fascinante como sempre.