segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Leva Eu

Essa vai em homenagem ao Ariel, meu mais novo seguidor. Eu lhe contava, pelo Skype, que agora tenho o cartão de integração de ônibus local. O Bilhete Único daqui se chama Leva Eu e só faz integração de um ônibus (não há outro meio de transporte coletivo além dele aqui) para outro. Na verdade, lá no fundo, quando você for examinar direito, assim, nos detalhes, a integração é só do UNIR CAMPUS com qualquer outro ônibus. Pra mim basta, mas talvez não seja justo.

Ariel perguntou se esse nome não feria a gramática. Respondi que vai contra a gramática normativa. De momento, consigo pensar em pelo menos 3 gramáticas:
  • a normativa, que dita regras e está intimamente ligada à linguagem escrita e distante da língua falada. Pelo fato dos falantes não conhecerem esta gramática, acham que não sabem o português e gastam seu dinheiro com manuais de redação e adoram o Pasquale.
  • a histórica, que registra as transformações de sons/ formas de uma língua (em outra língua, tipo latim> português) ao longo do tempo.
  • a descritiva, que registra e analisa o funcionamento da língua. Enquanto linguista, é essa que eu pratico.
Lado A

A ordem canônica das palavras em português é sujeito - verbo - objeto (SVO). O que vem antes do verbo é interpretado como sujeito e o que vem depois é interpretado como objeto:

Maria enganou João > Maria é sujeito
João enganou Maria > João é o cara
No caso dos pronomes, podemos marcá-los, pra que saibamos que mesmo quando vierem antes do verbo, continuam exercendo a função de objeto:
Maria me enganou > eu fui objeto de má fé.

Leva eu, ao invés de Me Leva ou Leve-me indica que o objeto (me, no acusativo) passou a ter forma de sujeito (eu, no nominativo), mas mantém sua posição de objeto (continua sendo Leva eu, não passa a Eu leva).
Acho que não sei explicar por que o pronome está no caso nominativo ao invés de acusativo. Pode ter a ver com o desprezo desenfreado que tivemos uns 10 anos atrás contra os pronomes oblíquos antepostos ao verbo (me dá, te senta etc. eram considerados como pecados). Nessa linha, Me Leva pode ter evocado imagens do Pasquale vestido de diabinho; e portanto foi evitado.
Leve-me
soa muito mais arcaico que um cartão de integração de ônibus deveria. Perceba que o imperativo (leva? leve?) é vacilante, mas isso é totalmente periférico. O que importa é que Leve-me não é mais uma opção e Me Leva não é um bom candidato. Talvez estejamos diante de um caso de mudança linguística.

Lado B

Tá, dei conta do nome do cartão. Mas ainda falta o verso.
Parece que os acentos de básico e intransferível foram comidos. A fome não é sistemática e regular, afeta apenas algumas palavras. Algumas vírgulas foram engolidas junto, pra ajudar a descer. O imperativo oscila entre o infinitivo (procurar), adjetivo (obrigatório) e sua forma tradicional (não amasse ou dobre, nem deixe). A concordância nominal em número obedece à regular (na fala de uma camada economicamente menos privilegiada da população) marcação do primeiro item e não-marcação dos demais (temperaturas elevada), como podemos observar em os cara veio tudo de uma vez.

Analisando as coisas assim, não tem certo ou errado. Tem regularidade ou não. Funciona.

2 comentários:

caculinha disse...

Mas: no caso deste cartao, a grmatica mais lógica seria a normativa, pois se trata de um "documento" oficial, né nao? Esse negócio de temperaturas elevada pra mim nao rola, se em tempos de escola eu escrevesse algo assim, isso seria visto como erro de gramática. Língua falada e escrita sao duas coisas distintas, mas esse cartao nao fala!

La(ss)acu.

iglou disse...

Sim, você tem razão. Seria esperado que qualquer escrita do poder público para o público seguisse a norma culta.
Mas veja, agora os meus leitores sabem que não existe só a gramática que a gente sofre na escola. E sabem também que aqui o poder público escreve quase como fala.