segunda-feira, 28 de abril de 2008

Meia hora na padaria

Era domingo. Um dos ponteiros do relógio apontava para cima e o outro bem pra direita. O sol esplendorava lá no alto do céu e o mundo todo vibrava em cores claras e quentes. Meus pés me levaram até a padaria mais longe da minha casa. Eu antecipara uma multidão, escassez de mesas e funcionários cansados e estressados, mas fui completamente frustrada nas minhas expectativas. Eu era a única cliente. Cada um dos funcionários ocupava um posto muito bem definido e cumpria uma tarefa repetitiva: o moço à minha frente tirava sachês de açúcar de uma caixa e os armazenava em cestinhas, o outro moço lavava copos na pia, a outra moça trabalhava atrás da máquina de café expresso. Uma das atendentes veio conversar com o moço que lavava louça. Fizeram uma aposta. Se o time dela ganhasse, ele pagaria uma Coca-Cola pra ela. A moça da máquina de café pediu um copo. Um padeiro apareceu na porta da cozinha e pediu um gole do copo da outra. A moça do balcão gritou de lá de trás que também queria um copo de coca. A moça que estava fazendo a aposta percebeu que precisava gerenciar melhor os seus agregados, senão não sobraria nada pra ela. Confiante, apostou uma garrafa grande, apertaram as mãos e o padeiro sacramentou a aposta.

Foi assim que eu fiquei sabendo que era dia de jogo. E fiquei me perguntando se um copo de Coca-Cola era uma coisa pouco corriqueira pra esse pessoal.

Pedi o meu lanche e logo depois um outro padeiro abriu a porta da cozinha, exigindo a faca de cabo preto. Vamo, Isabela, eu sou dependente daquela faca, sem ela não posso cortar nada. Moça, seu lanche já vai sair, mas antes a gente tem que caçar aquela faca de cabo preto. Tá com você aí, Isabela? Ôh, home, não vê que eu tô mexendo com o pó de café, a tua faca num tá aqui! Só um instantinho, moça. Eita, hoje o povo tá afiado!

Me dirigi ao caixa, paguei, recebi o troco e me despedi. A caixa, sorridente, atendeu o cliente seguinte, que queria um maço de cigarros. Oi, tudo bem com o senhor? Não, tudo ruim. Por que? Porque o meu time vai perder. O senhor torce pro Palmeiras? Não.

No fim do jogo, saquei que o cara era um profeta. A Ponte Preta perdeu do Palmeiras. Só não sei quem ganhou a garrafa de Coca-Cola e quem teve direito a quantos copos e goles do líqüido escuro.

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