quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Depois que a água baixou

O rio virou um chocolate, arrastando o que encontrava pela frente.
A ponte pênsil teve sua estrutura de cá arrancada. Reparem nas coisas brancas aí na foto. Lixo.

O caminho que leva à ponte. Tudo que é arame farpado, mangue, poste, cerca, agregou o que a correnteza trazia. Esse moço achou esses peixes no campo da Escola Agrícola.

Quando a água baixou, o Yuri abrigou 8 pessoas num apartamento em Balneário. O apê é da prima da esposa dele, estava vazio e ele tinha a chave.

Sair de Camboriú era um passo a mais na nossa evolução. Estar em Balneário Camboriú era quase um avanço tecnológico. De repente estávamos os 8 vendo noticiário sobre a tragédia dos desabrigados, escutando pelo rádio onde caíam as barreiras e os barrancos na BR 101 e estudando rotas alternativas no mapa. O sol espantou as nuvens e fui pedalar no Interpraias, que era um dos passeios que estava no programa e não foi feito. Subindo pra Laranjeiras, vi esse barranco tomando meia pista, o carro parado com o motorista fotografando a cena pelo celular. O que ele não podia ver (nem você, porque na foto tá pequeno) é a placa que dizia: Respeite a Natureza.

Muitos galhos na praia. Tinha um caminhão recolhendo os detritos na praia.

Calamidade pública


Saíamos da pizzaria alegres, contando piada e dando risada e entrávamos na recepção do Hotel. Uma famíla descalça e ensopada, carregando apenas o bebê embrulhado nos braços entrou chorando. Nos dispusemos a juntar uns colchões, cobertores e toalhas no salão em que estavam acontecendo as palestras. Foi o milagre da multiplicação das camas, porque o meu quarto, por exemplo, que eu ocupava sozinha, tinha 3 camas americanas (o colchão em cima de um estrado que parece um colchão ortopédico, ou seja, cada cama era 2), o que dava 6 camas potenciais. Alguns de nós disponibilizaram seus banheiros, para que as pessoas, que iam chegando, pudessem tomar banho quente.
No dia seguinte, domingo, os supermercados ficaram abertos e os primeiros artigos a escassear foram água (sem gás) e pão. Havia muita gente estocando mantimentos, chorando e conversando sobre suas perdas.
***
Ontem o noticiário local mostrou que em Itajaí quase todas as ruas estão alagadas, não há luz nem água potável em mais da metade da cidade. As imagens mostravam pessoas andando em fila indiana no meio da água (provavelmente em cima do meio-fio das ruas alagadas), carregando coisas nos ombros. Alguns supermercados tinham sido saqueados. imediatamente nos lembramos do Ensaio sobre a Cegueira, do Saramago. Perdemos a nossa civilidade muito rápido.

Encontro de Cicloturismo em Camboriú

Mais ou menos 120 pessoas vieram pro 7° Encontro Nacional de Cicloturismo e Aventura, que aconteceu em Camboriú entre os dias 20 e 23 de novembro. Os participantes podiam ser divididos em três grandes grupos: o povo que veio de São Paulo, a galera da região de Santa Catarina e os que pingaram de outros lugares (Rio, Brasília, Campinas, Bauru etc.)

Passeio a Itapema com sol, volta com chuva, subidas absurdas e descidas lentas.
Vista do Hotel em Camboriú para os prédios na praia de Balneário Camboriú.

Na programação havia passeios ciclísticos por estradas de terra, palestras e confraternizações. No primeiro dia fizemos um passeio que começou com sol e terminou com chuva e alegrou todo mundo. No segundo dia eu não me juntei ao grupo de trinta aventureiros que pedalaram na chuva. No terceiro dia estávamos ilhados. As palestras foram bem boas e aprendemos mais sobre a bicicleta em si (geometria, ergonomia, tempo de vida das peças), navegação e mapeamento através de GPS, rotas cicláveis e ouvimos depoimentos de cicloturistas que fizeram cicloviagens longas. Conforme a água ia delimitando o nosso espaço, passamos mais tempo vendo filmes de cicloviagens feitas pelos participantes.


Amarilda virou modelo, olha só.

Este definitivamente foi um encontro atípico: pedalamos menos e nos conhecemos mais.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Reprovada

Saiu o resultado de Londrina. Fui reprovada. Ainda bem que estou na praia, pedalando com um monte de gente legal. As minhas notas de prova didática e argüição não foram boas (6 e 6,5) e a nota do meu currículo me arrastou para o subsolo (3,1).

Como a nota de currículo é baseada numa tabela, ela não vai mudar muito no próximo concurso que eu prestar. Vou ter que me esforçar mais nas provas e publicar mais coisa.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Energia boa

A acupunturista me espetou umas agulhas, saiu e me deixou "relaxando". Não consigo esvaziar a cabeça assim, deitada numa sala com teto de madeira, cheio de desenhos a serem descobertos, som de passarinho lá fora e várias agulhas no corpo. Pra eu esvaziar a mente, preciso de movimento. Uma caminhada de um dia ou uma cicloviagem fazem com que eu chegue sem saber quem sou, onde estou, por que saí.
Meu pensamento foi pra todos os lugares importantes da minha memória, Dr. Silvana voltou depois de 40 minutos, tirou as agulhas e disse que eu tinha uma energia boa, que era pra eu voltar só em caso de dor. Não tenho dor no pé. Fui dispensada. Talvez a acupuntura não seja o melhor tratamento pro meu sistema linfático lento...

domingo, 16 de novembro de 2008

Voltando de Rio Claro

Quase voltei nas mesmas 4 horas (desta vez, cheguei 10 minutos antes que na ida). Não tive pneu furado, racionamento de água ou qualquer outro imprevisto relacionado à bicicleta. O que me pegou de surpresa foi o céu:
Nunca tinha isto um arco-íris horizontal, em plena luz do dia, sem sombra de possibilidade de precipitação (chuva).

Essa última foi tirada no portão de casa, com algumas folhas da nossa sibipiruna decorando a imagem. Fascinante. Boa surpresa!

Em Rio Claro

Conheci praticamente toda a família que o Renato tem em Rio Claro, caminhamos bastante pela cidade quadrada e fizemos beringela recheada (com canela, à moda turca), cogumelos e arroz cozido na água dos cogumelos. Pra fechar, aprendi a jogar truco.
Não precisei ser apresentada na casa de parente nenhum, todos já sabiam que eu tinha vindo de Campinas de bicicleta.

Caminhoneiros

Já aprendi que nem todas as estradas têm acostamento. As que têm, não o têm continuamente. Duas coisas fazem com que não haja acostamento: faixa adicional e ponte. A faixa adicional aparece no lugar do acostamento e quando há ponte a via se estreita e o ciclista precisa seguir pela faixa mesmo. Quando fui na Decathlon pra comprar alforje da frente, fui de Caloi 10 pela D. Pedro. Antes do Carrefour tem uma putz ponte mó comprida, o que tem como conseqüência a não-existência de acostamento. Subi na via e ouvi um caminhão buzinando e freiando atrás de mim. Quando a ponte acabou, ele começou a acelerar. Fui pro acostamento, empurrada pelo caminhoneiro que lentamente ia invadindo o acostamento, me forçando pra direita. Fiquei muito brava com essa "lição de moral" que o caminhoneiro quis me dar mas lhe dou crédito por ter usado o freio, essa coisa que muitos motoristas não lembram que têm à disposição.

Minhas outras experiências com caminhoneiros são de outra ordem. Eles sempre buzinam pra mim quando pedalo na estrada. Alguns buzinam de longe, amigavelmente, outros buzinam em cima de mim, histericamente, fazendo com que todo o meu corpo se contraia. Detesto que buzinem pra mim.

Na cicloviagem pra Rio Claro aconteceu uma coisa curiosa, que eu ainda não entendi direito. Parei num posto pra usar o banheiro. Quando eu estava de volta na bicicleta, bebendo água, passou um caminhão com um caminhoneiro me olhando fixamente. Não era feio. Estacionou, saiu de sua máquina e passou por mim. Olhei pro outro lado, montei na bicicleta e fui embora. Uma descida nervosa depois, reparei num barulhinho na roda da frente. O sol iluminava algo prateado na roda. Parei e tirei um arame do pneu da frente. Subi a subidona enquanto o pneu esvaziava devagarzinho. Lá em cima, na sombra, me pus a trocar a câmara. Eu estava voltada para os carros que vinham, concentrada na procura do furo da câmara. Pelo som, notei que um caminhão parou atrás de mim, a poucos metros. Era mesmo um caminhão. Teria sido aquele mesmo caminhoneiro? Quereria ele me prestar socorro? Não olhei mais pro caminhão nem fui lá pedir ajuda. O caminhão se foi. Tenho cá pra mim que era ele, sim, e que se fez presente pro caso de eu precisar de ajuda. Como não pedi ajuda, seguiu viagem. Se estiver certa, agradeço pela solidariedade.

Cicloviagem a Rio Claro

Renato me prometeu umas comidas esquisitas em Rio Claro, eu peguei a minha Caloi 10 e fui pedalando pra lá. Foram 84 km em 4 horas com um pneu furado no meio do caminho.
Saindo de casa, peguei a D. Pedro (trânsito complicadinho numa sexta de manhã, com muitas entradas à direita e algumas partes sem acostamento), depois a Anhangüera, que eu já tinha percorrido com o Luizão até Limeira, depois peguei a Washington Luis, novidade pra mim. O asfalto do acostamento é mais poroso que o da Anhangüera, o que faz com que haja um acúmulo maior de sujeira e que a velocidade da bicicleta diminua.
Quase choveu, mas as nuvens só se apresentaram pra me dar sombra, nada mais.



quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Acupuntura

Sou uma pessoa que tem medo de agulhas. Vejo muitos filmes por entre os dedos da minha mão, que deveriam servir pra me poupar das cenas com agulhas e sangue. Ainda não consegui doar sangue porque tenho ferro de menos no sangue e porque tenho medo de desmaiar no Hemocentro.

Essa introdução serve pra convencer o leitor de que a última coisa que eu faria voluntariamente é acupuntura, coisa que tradicionalmente envolve agulhas. Pois bem, tenho um pé inchado por causa de uma fratura + cirurgia de mais de ano. O meu sistema linfático, que é lento mesmo, não conseguiu se ajustar ainda. O volume do pé não me incomoda, o que me incomoda é que o pé direito ainda não voltou ao normal, ainda não está parecido com o esquerdo. Mas então por que reclamar agora? Porque tem outra coisa: um médico me disse que o que eu sempre interpretei como sendo TPM nada mais é retenção de líquido. Por isso a pressão na cabeça, os vômitos e a incapacidade de ingerir qualquer coisa. Não é todo mês, nem tem regularidade capturável, mas mês passado foi 3 vezes. Se o meu corpo está retendo água, quem não está funcionando? O sistema linfático.

Toca pedalar até a acupuntura que o Junior indicou. Dra. Silvana não é oriental. Mas pratica medicina oriental, portanto precisava seguir o protocolo. Quis saber a história da minha vida, anotou tudo, me perguntou duas vezes se não tenho namorado, quis saber dos meus humores. Não sofreu nunca de depressão? Não se classificaria como uma pessoa melancólica?

Examinou o me pé e decidiu que as outras técnicas (massagem, laser e eventuais outras) demorariam muito tempo, demandariam muito esforço e que as agulhas, que estavam ali, em cima da mesa, seriam a melhor opção. Quis me mostrar as agulhas, insisti que não o fizesse. Me espetou em vários lugares. Senti que o corpo pesava cada vez mais. Conversou comigo e deixou as agulhas fazerem seu efeito por 20 minutos.

Sentada na mesa dela, quis saber como funciona a cura pelas agulhas. Mostrou um boneco com centenas de pontos, que são chamados de meridianos e logo o seu discurso se tornou evasivo. Mas tudo isso é muito mais profundo, se você quiser, a gente conversa mais sobre isso em momento oportuno, a ciência já validou a acupuntura, mas ainda não sabemos qual é o princípio por trás de tudo etc.

Esse mais profundo é o mesmo que eu ouvia do Junior quando fazia aula de Tai Chi com ele. O que querem dizer com isso? Que não acreditam que eu, não-iniciada, seja capaz de entender o que forem dizer? Ou que não se sentem autorizados a explicar algo que não faz parte de sua cultura, mas que foi adquirido, aprendido com resistências e talvez ainda não foi completamente assimilado por estes porta-vozes da medicina/cultura/filosofia oriental?

Quando alguém me pergunta o que eu estudo, tento explicar o objeto das minhas atenções acadêmicas de maneira simples, de modo que eu possa verificar se a pessoa me acompanha no raciocínio. Nunca assumo que o que eu estudo é tão maior que a capacidade de compreensão da pessoa. Acho que é por isso que o mais profundo, depois a gente pode conversar mais sobre isso, me irrita tanto: assumo que a pessoa duvida da minha inteligência.

Mesmo assim voltarei na acupuntura semana que vem, pra permitir que eu seja espetada pelas agulhas da Dra. Silvana. Porque, afinal, quero que a técnica funcione, não que a pessoa que me aplica as agulhas seja oriental, zen e imersa nessa cultura que desconheço.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Estudando editais

Como o resultado do concurso que prestei em Londrina ainda não saiu (está com previsão de ser divulgado num dia qualquer da semana que vem) e eu não tenho a sensação de que a vaga na UEL é minha, estou estudando editais de outras universidades. Algumas coisas me chamam atenção.

O salário oferecido pelas universidades estaduais pro cargo de professor adjunto (com título de doutor, dedicação exclusiva, 40 horas semanais) é metade do salário oferecido pelas federais pro mesmo cargo.

Depois das eleições, todos os editais pedem que, no ato da inscrição, o cadidato apresente cópia do Título de Eleitor e comprovante de votação na última eleição.

O edital da federal de Sergipe deixa claro que as inscrições não podem ser feitas via postal, ou seja, é preciso viajar até lá para fazer a inscrição. Sinto muito, mas isso é muito sacrifício.

O edital da UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco) pede que, no ato da inscrição, o candidato apresente uma carta de recomendação de dois Professores Universitários (sim, com letra maiúscula). Além desse disparate (pôxa, é um concurso, e o que conta é o desempenho do candidato nas provas, não a indicação de professores), tem mais outro: pedem documento oficial que comprove que o candidato não possui antecedentes criminais. Sinto muito, mas não quero trabalhar num lugar que precisa assegurar sua qualidade acadêmica através destes meios.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

No meu varal

Festa de criança

O aniversário do Francisco é no Natal. Faz 7 anos que ele divide as atenções com Papai Noel e Jesus Cristo. Por ser filho de pastores, aprendeu a dividir irmanamente a sua data com essas outras entidades. Neste ano sua mãe estará engajada em vários cultos de Natal, portanto não poderão passar o seu aniversário+Natal em Gramado. Resolveram antecipar a festa de aniversário e comemorar com os filhos das 'meninas da Casa', as mais antigas funcionárias da Casa da Juventude.
Descobri que tenho profunda alegria em observar crianças de 3 e 4 anos. Estes dois, sentadinhos nas cadeiras altas demais, comiam 'negrinhos' = brigadeiro, 'branquinhos' = beijinho e pastel. Bastante autônomos, conversavam um com o outro como conversam com suas mães: eu tô comendo, olha, tá vendo? Tô comendo direitinho.
Não lembro os nomes de Superman e Batman+Spiderman, mas acho que estes são bons apelidos pra esses dois pequenos heróis.

Gramado na minha memória

Peguei um rabo de conversa do meu primo com os amigos dele.
- Gramado tem duas estações: tem o inverno e a estação rodoviária.
Tem certa semelhança com a imagem que eu tenho de Gramado.

Gramado é frio, úmido e muito verde na minha memória. Gramado é identificação com os meus avós maternos, com a família Kleine. Gramado é ligado à Casa da Juventude e os cheiros de fogão a lenha e pinheiros. Gramado é sinônimo de espaço a ser explorado com a curiosidade de uma criança.
Gramado acumula diversas gerações e a tentativa mútua de compreender a geração mais distante. Imagino que a Oma não tenha grandes problemas pra entender como funcionam seus filhos, mas a coisa muda de figura quando isso se aplica aos netos. Os bisnetos, então, não são nenhum pouco transparentes.

Oma não entende por que as/os netas/os casados ainda não tiveram filhos e não vê com bons olhos os netos (homens) que dependem financeiramente de suas esposas. Esta não é a 'ordem natural das coisas', segundo sua concepção de papel da mulher, do marido, de família.

Oma fica abismada com a quantidade de brinquedos de plástico (que piscam, andam, fazem barulhos, quebram e são abandonados pelos cantos) que seus bisnetos possuem. Fica ultrajada com a violência banalizada no discurso do menino (filho de pastores) que quer explodir tudo com 30 bombas atômicas. Esse menino não sobreviveu à Segunda Guerra Mundial e não tem noção da violência com que está brincando.

Os contrastes que Gramado envolve me fascinam.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Com a televisão

Uma das minhas músicas preferidas da Vanessa da Mata conta uma estória inusitada. O narrador é o homem, que conta que seu amor fugiu com a novela das oito. De início, simpatizamos com ele, por ter perdido seu amor para uma ilusão de vida. No fim, entendemos que a novela das oito é uma opção melhor que a vida com ele.

Quando fomos morar juntos ela me adorava
Cozinhava, passava, me alisava
Eu contava piada ela gargalhava
Metia a mão nela e ela perdoava

A vida era boa ela não reclamava
Agora vive longe, não sei mais nada
Fugiu da nossa casa com a televisão
Vanessa da Mata: Fugiu com a televisão

O ônibus parou na estação de Vacaria: só para embarque. Enquanto a mulher de caminhoneiro - que depois sentaria do meu lado - embarcava, eu observava um índio encostado na parede da rodoviária. Era um homem que aparentava ter 50 anos, e talvez contasse apenas 38. Cabelos curtos, maçãs do rosto altas e queimadas de sol, olhos cansados, pés enraizados ali, a 20 cm da parede. Ao seu lado, seus pertences: duas malas, três sacolas plásticas abertas e dispostas ao seu redor e, acomodada sobre as duas malas, uma televisão. Não era moderna, mas também não era daquelas antigas, preto e branco que mudavam de canal num botão giratório. Duas malas, três sacolas plásticas e a televisão.

Fiquei me perguntando se aquilo era tudo que aquele índio possuía e se aquele homem pretendia começar uma vida nova em outra cidade com essas coisas que carregava consigo.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Finados

Fomos ao cemitério numa delegação de três gerações, ver a sepultura do meu avô. As rosas vermelhas estavam bem, sem marcas de formigas, a lápide estava limpa, as plantas nos vasos não estavam se afogando.

Minha vó (que conheceu muita gente nesses 89 anos de vida) e meu tio (que tem algumas árvores genealógicas na cabeça e se interessa por histórias de famílias) quiseram visitar túmulos de velhos conhecidos, então caminhamos os três pelos corredores de sepulturas. Olha só, os Schlieper estão aqui. Que Schlieper são esses? Veja, os Ziegler estão aqui. Aqueles Ziegler que ... Ah, que pena, ninguém cuida aqui dos Weber...
Lou, tu te lembras do Juksch?

Tivemos um passeio animado (no sentido de dar vida às memórias esquecidas) pelo cemitério. Notei que havia, naquele setor, um Silva e um Santos. Ambos casados com alemãs. Me dobrei de rir com sobrenomes como Pfützenreiter, Schaumlöffel e Kohlrausch. Achei simpáticos os sobrenomes Knaak, Witzel e Kühl (que em inglês seria Cool e em português seria Fresquinho).

domingo, 2 de novembro de 2008

Neblina

Me posicionei no meio da rua e fiquei esperando qualquer coisa acontecer. Ouvi o som de um carro vindo em minha direção. Vinha de baixo para cima, pelo som dava até pra estimar a distância do veículo da minha pessoa parada no meio da rua. Dois faróis acesos cortaram a cortina leitosa de neblina que se deitava sobre o mundo. Saí da rua e fui pro jardim, fotografar coisas molhadas.
Quando mostrei as fotos pra minha vó, ela tomou conhecimento do grau de amadurecimento das framboesas. Engraçado ver o jardim a partir da cadeira de balanço na sala...

Vista (não se vê muito longe, é certo) do jardim dos vizinhos que não vieram pra Gramado neste fim de semana.

Com a neblina vem uma chuvinha fina e muita umidade.

De 33 a 16ºC

Tenho 3 regatas, 2 shorts e um par de Havianas na minha mochila. Quando fiz a mochila, tava em Campinas, sofrendo 33ºC na cabeça. Quando vim a Gramado, dei graças aos céus por ter colocado também, no fundo da mochila, dois moletons e meias de frio.

Tu vai de quê?

Vamos brincar de identificar meios de transporte na figura? Vejo navio, trem, ônibus e carro. Um cenário assim só em Porto Alegre.

Não andei de trem, ônibus ou navio em Porto Alegre, mas andei de táxi algumas vezes. Um taxista me marcou: o homem era todo tatuado, tinha uns piercings e anéis de prata e era cabeludo. Falava de Laguna, da vida mansa e das ondas que pegava lá. Mencionou que o filho dele tava surfando muito bem também. O menino tem 17 anos e tava mandando bem, surfando melhor que ele, mas de repente resolveu parar. O garoto só quer estudar, vê se pode!!!

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Tempo lento

O livro que estou lendo agora carrega o seguinte título: Mais rápido que a velocidade da luz. É de um físico que acredita que a única certeza de Einstein, de que a velocidade da luz é constante no vácuo, é uma falácia. João Magueijo tenta convencer o leitor de que a luz teve velocidade variável no momento de big-bang: muito superior aos 300.000km/seg. observados hoje.

O livro que o Renato me trouxe chama-se Slow Man. Depois dessa velocidade estonteante da luz, talvez seja meu próximo livro. Trata de um homem que perdeu uma perna num acidente e se recusa a usar uma prótese. A vida desse homem desacelera abruptamente.

O resultado do concurso de Londrina deveria ter saído na sexta passada. Esperei que saísse depois do feriado, na quarta. Apesar de ter melhores razões pra acreditar que a vaga pra professor de Língua Portuguesa e Lingüística Geral não é minha, estou muito agoniada com a passagem lenta do tempo, que protela a divulgação do resultado.

Depois de um dia de GTs

'GT' está para Grupo de Trabalho. A idéia deste congresso (CELSUL) foi de agrupar as apresentações em grupos coesos de pessoas que pesquisam coisas semelhantes. Para que haja interlocutores, pra que as pessoas tenham a sensação de que 'falam a mesma língua', foram criados uns 15 GTs. Era esperado dos participantes de um certo GT que assistissem às apresentações de todos os seus colegas de GT, que se apresentariam ao longo dos 3 dias de congresso. Muito bem. Eu estava no GT chamado Produção Textual em virtude da progressão temporal que Renato e eu analisamos no experimento. Mas, em princípio questões de discurso, gêneros discursivos, redações de vestibular e essas coisas me interessam apenas marginalmente. Por isso fui no GT do Renato pra ver a apresentação dele com a Roberta sobre os intensificadores chulos (olha só que categoria foda) 'puta' e 'pra caralho'. Mas o GT era de semântica formal, que eu não domino. Visitei um GT sobre cognição, mas logo saquei que os caras falavam de 'relevância', seja lá o que isso for.

De noite fomos todos comer picanha, porque afinal de contas estamos na capital gaúcha. 'Todos' significa gente dos mais variados GTs. Adivinha do que conversamos na mesa (além, é claro, de coisas pragmáticas como por exemplo 'me passa a polenta', 'quantos copos de cerveja devo pedir?', 'o que significa ao ponto aqui no Rio Grande do Sul?').

O Menuzzi insistia que o 'puta' do Renato tinha estatuto de adjetivo que pode até mesmo virar advérbio, tipo 'esse cara corre putamente bem'. Renato replicava com o argumento de que o 'puta' não se liga a outro pedicado através de cópula, como acontece por exemplo em 'a coisa grande' e 'a coisa é grande'. Não é possível derivar de 'puta filme' a construção 'filme é puta'. Além do mais, a ordem do 'puta' é fixa: 'puta jogador', não 'jogador puta', o que não acontece com os adjetivos: 'bom jogador', 'jogador bom'.

Mudamos de assunto, e falamos sobre preposições. Consegui convencer a todos que nem toda troca de preposição implica em alteração de significado: 'ficar em pé' significa a mesma coisa que 'ficar de pé'. Essa é uma exceção, porque nas outras trocas o sentido é alterado: 'cheguei de Recife/ cheguei por Recife/cheguei em Recife.'

Cansados de problemas cabeludos, conversamos sobre o 'pode' da Roberta e Ana. 'Pode lavar a louça!' é um imperativo e não tem jeito de escapar à ordem imposta. Esse 'pode' é muito diferente do 'pode' que a minha vó usa comigo depois do almoço, quando ela quer sentar na cadeira de balanço: 'Agora você pode lavar a louça'. O 'pode' da minha vó é mais um pedido que uma ordem, apesar dos dois terem o mesmo efeito: não tem como não obedecer. Roberta me perguntou como seria em alemão e eu respondi que não tem como colocar um modal no imperativo.

Viu só! As soluções que não achamos durante a dissertação de mestrado ou durante os GTs de ontem e hoje são postos na mesa de churrasco e são mais facilmente digeridos que a carne.


Parque da Redenção

Fui dar uma volta no Parque da Redenção (ou Farroupilha) no intervalo de dois GTs. Tem um mini-zoo lá dentro. Numa jaula tem macacos-prego, na outra tem araras, na outra tem um pavão, na outra tem mais macacos-prego e na outra tem grandes aves de rapina. Saí do mini-zoo e vi uma gaiola com uns vinte gatos. Pareciam ser de rua, a julgar pelo pêlo estropiado. Caminhei mais um pouquinho e vi uma árvore cheia de pombos. Cheia mesmo, assustador. Cheguei ao lago e vi várias tartarugas pescoçando por aí.

Essa parasita tem história: matou seu suporte e cresceu pro lado.

Me rendo. Não consegui identificar que animal não se pode alimentar no parque. Tem bico de pássaro, mas cabeça de peixe. Vejo que identificamos o desenho como referindo a um animal porque identificamos a bola branca com um ponto preto no meio como um olho.
Lembro que uma vez um aluno meu, o Boris, respondeu, numa discussão sobre vegetarianismo, que não comia nada que tivesse olhos. Pelo visto somos proibidos aqui de dar comida a seres que têm olhos.

O novo vizinho do velho

Talvez alguém se lembre de ter participado de um experimento chamado "Era uma vez", em que eu pedia que a pessoa contasse uma estória a partir de umas fotos que eu ia mostrando. Bom, esse experimento gerou uns dados que foram analisados sob o critério da progressão temporal, o que virou apresentação de congresso. Esse congresso está acontecendo em Porto Alegre.

Andando pelo centro, me espanto com a convivência do antigo com o novo. Esse elevado lembra o Minhocão, mas o trânsito não é comparável ao de São Paulo. A UFRGS é meio antiga, meio anos 60. Modernos só são os prédios que eles identificam como "Anexo".
Andando pelo Parque Farroupilha, que fica ao lado da UFRGS, pensei na idade daquelas árvores e dos prédios que faziam a skyline. Quem será que tem mais anos nas costas?

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Diversão na Bienal

Instalaram um tobogã no prédio da Bienal, que fez o mó sucesso. Não sei se é arte, mas é interação e está de acordo com a proposta deste ano: contato.


28. Bienal

Esta Bienal só tem arte no terceiro andar. Restrições financeiras. As obras expostas são de 3 tipos: vídeos, palavras e madeira. Vídeos eu não fotografei. Madeira tá aqui:


A palavra tá aqui:





sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Lar, doce cheiro de maracujá


Pra sua segurança

Seis da manhã e o ônibus para em Sorocaba. Antes que os sete passageiros previstos para desembarcar na cidade pudessem descer do ônibus, um policial de uniforme cinza subiu. Avisou que aquele ônibus estava sendo monitorado e que eles fariam uma revista. Ordenou que descêssemos todos. Lá fora ainda havia estrelas no céu e fazia frio. Vários homens fardados nos enfileiraram ao longo da parede. Olhares autoritários, peitos estufados, andares de cowboy. Os homens foram manejados para a esquerda, as quatro mulheres ficaram na direita. Dois cães labradores subiram no ônibus, acompanhados de seus senhores. Obediência treinada, nada de afobação. Os homens foram instruídos a apoiar as mãos na parede e afastar as pernas. Mãos calejadas percorrendo corpos cansados. As mulheres tiveram suas bolsas examinadas pela única mulher fardada, tingida de loira. A oxigenada de uniforme cinza deu uma olhada de relance no interior da minha bolsa e tomou o tempo que quis com as mãos na minha virilha e bunda. Os homens foram ordenados a ter o documento de identidade na mão. RGs esticados, idas e vindas ao carro das luzes piscantes. Um homem fotografava a cena. Uma mulher, segurando um bloquinho de anotações, entrevistou duas senhoras do meu lado. Elas eram domésticas e tinham seus 40 anos de idade. Apoiavam entusiasticamente esse tipo de intervenção. Hoje em dia nunca se sabe, o mundo tá tão violento. Raiva por me sentir violada transbordava dos meus olhos. Um dos homens foi entrevistado e espero que ele tenha expressado a minha opinião. Um celular tocou e o homem recebeu autorização pra atender. Já cheguei, amor, só que tem uma blitz aqui na rodoviária e já já tô indo aí. As malas no bagageiro não foram examinadas e toda a operação durou uns 20 minutos. Quando todos estavam de volta aos seus assentos, um homem de cinza subiu, agradeceu a cooperação e informou que faziam a revista pra nossa segurança.

Diálogos dispersos

O moço que tinha sentado do meu lado no ônibus pra Londrina quis ouvir a música que eu estava ouvindo e quis conversar. Conversamos bastante enquanto ele ouvia a minha música. Insistiu que eu anotasse o telefone dele. Anotei na pele do braço com uma caneta emprestada de outro passageiro. Qualquer coisa que você precisar, cê liga pra mim. Tá. Independente de você precisar ou não, liga pra mim. Pode deixar.

O taxista que me levou da rodoviária à Pousada Universitária disse que tinha morado 8 anos no Rio Grande do Sul e que admirava o povo gaúcho. Não só eu, toda dupla sertaneja que se preze tem uma música elogiando o povo gaúcho. Enumerou umas 6 duplas sertanejas e concluiu que as duplas sertanejas que não fazem homenagem ao gaúcho não tão com nada. Sei.

Antes das 22:00, toquei a campainha e me anunciei: Meu nome é Lou, eu tenho reserva pra hoje à noite. Tá, eu vou abrir, mas a dona não tá. Vamo fazê assim: cê entra e depois a gente vê. OK. Entrei e coloquei as minhas coisas do lado da única poltrona vazia naquela sala. Quatro meninos vendo TV ocupavam os outros assentos. A gente mora aqui. Senta aí que a dona deu uma saída e já volta. Cês moram aqui? É.

A dona da pousada chegou muito depois das 23:00 e não sabia da minha existência. Não tem problema, tenho um quarto pra você. Espera só um pouquinho, que eu já te atendo. Hm, hm. Muito tempo depois, ela me conduziu ao quarto, saiu e voltou com roupa de cama que depositou em minhas mãos. Hoje eu tô muito cansaaaada, então amanhã eu não vou fazer café da manhã, tá, bem?

Seis da manhã de domingo e acordo com um estardalhaço na cozinha. Em meio a barulho de louça, ouço cânticos gravemente desafinados de louvor e aleluia. Empolgada, uma das irmãs (apenas um muro separava o meu quarto da Toca de Assis) exclama: Viva Jesuis! Que inferno.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Literatura

Foi só em Londrina que eu voltei a ler textos não-acadêmicos. Fazia um mês, mais ou menos, que eu acordava e ia dormir com textos sobre coisas que poderiam cair no concurso. Peguei o "A arte de produzir efeito sem causa", do Lourenço Mutarelli e só larguei quando comecei a ficar verde, com dor de barriga e enxaqueca. Pra fugir do tom pesado e trágico que arrasta o personagem principal do romance pra loucura, decidi apelar pros quadrinhos.

Nunca tinha ouvido falar, tava no plástico e não podia abrir na livraria do shopping (até onde eu caminhei em uma hora). Resolvi comprar mesmo assim.
Com o espírito mais leve, consegui encarar o trágico fim do romance. Salman Rushdie agora, nem pensar. Acho que vou voltar a ler sobre o Universo. É mais seguro e produtivo.