quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Com a televisão

Uma das minhas músicas preferidas da Vanessa da Mata conta uma estória inusitada. O narrador é o homem, que conta que seu amor fugiu com a novela das oito. De início, simpatizamos com ele, por ter perdido seu amor para uma ilusão de vida. No fim, entendemos que a novela das oito é uma opção melhor que a vida com ele.

Quando fomos morar juntos ela me adorava
Cozinhava, passava, me alisava
Eu contava piada ela gargalhava
Metia a mão nela e ela perdoava

A vida era boa ela não reclamava
Agora vive longe, não sei mais nada
Fugiu da nossa casa com a televisão
Vanessa da Mata: Fugiu com a televisão

O ônibus parou na estação de Vacaria: só para embarque. Enquanto a mulher de caminhoneiro - que depois sentaria do meu lado - embarcava, eu observava um índio encostado na parede da rodoviária. Era um homem que aparentava ter 50 anos, e talvez contasse apenas 38. Cabelos curtos, maçãs do rosto altas e queimadas de sol, olhos cansados, pés enraizados ali, a 20 cm da parede. Ao seu lado, seus pertences: duas malas, três sacolas plásticas abertas e dispostas ao seu redor e, acomodada sobre as duas malas, uma televisão. Não era moderna, mas também não era daquelas antigas, preto e branco que mudavam de canal num botão giratório. Duas malas, três sacolas plásticas e a televisão.

Fiquei me perguntando se aquilo era tudo que aquele índio possuía e se aquele homem pretendia começar uma vida nova em outra cidade com essas coisas que carregava consigo.

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