segunda-feira, 21 de abril de 2008

Subida ao Pico da Bandeira

A princípio, a idéia era subir até o Terreirão de noite mesmo, com lanterna, dormir no rancho que tem lá, levantar às 3 da madrugada e subir ao Pico da Bandeira pra ver o sol nascer de lá, do topo do mundo. Estávamos levando saco de dormir, colchonete isolante e roupas de frio. Para a subida noturna precisaríamos de guia, e foi assim que fomos apresentadas ao Josias. Josias nos convenceu a não dormir no rancho, porque o teto estava furado, porque o tempo estava instável e podia chover. Melhor e mais barato seria subir de manhãzinha, passar o dia e ver o pôr do sol da Tronqueira. Tronqueira é o ponto até onde carro chega. Depois é trilha punk rock.

At first, the idea was to go up until Terreirão at night, with flashlights, sleep in a rifugio, get up at 3 in the morning and reach the Pico da Bandeira before sunrise. We were equiped with sleeping bags, 'isolating matress' (?) and clothes for cold winds. For the night walk we would need a guide, and that is how we got to know Josias. He convinced us not to sleep in the rifugio, because the roof needed fixing, the weather was unstable and it could rain. Better and cheaper was the option to go to the top in the morning, spend the day on the mountain and see the sunset at Tronqueira. This is the point were cars have to turn, because after this spot there is only a walking path. Walking, climbing, stopping, breathing.

Até a Tronqueira o Valdir leva de jipe. E pelos mesmos 15 reais por pessoa, ele busca de volta, se combinar horário. Achamos que era muita mordomia subir e descer metade do caminho de jipe, e aceitamos subir os 9km até a Tronqueira com o Valdir. Pra descer, todo santo ajuda.

Valdir would take us to Tronqueira by jeep. For the same 15 reais per person he would bring us back, but we didn´t want such a comfortable excursion. So we accepted the 9km ride in a jeep to go up, but would walk them down.Alto Caparaó vista de cima.

Alto Caparaó top - down.

Meus companheiros de escalaminhada. Josias subiu como um cabrito, parando somente para fumar um cigarrinho. Stephanie foi na bota dele, sem demonstrar sinais de cansaço. Eu, coitada de mim, tive que aprender a respirar de maneira eficiente.

My companions. Josias went up like a goat, stopping only from time to time to smoke a cigarrette. Stephanie followed his footsteps without showing any signs of tiredness. Me, poor me, I had to learn how to breathe efficiently.
O melhor retrato que Josias tirou. A cada mirante, me dava ordens: tira um retrato daqui, menina, dá aqui a máquina, que eu faço um retrato de vocês duas, isso, agora bate outra foto daqui pra lá...

Josias' best picture. At every viewpoint he gave me orders: take a picture of this, girl, give me the camera and I'll take a picture of you both, yes, now take another picture from here down there.



Para chegar em Alto Caparaó

Depois de muitas curvas altamente inclinadas e improvavelmente projetadas para automóveis, Stephanie e eu descemos do carro da Olga na rodoviária de Taubaté e fomos ao guichê da Itapemirim. Queríamos comprar passagens para Manhuaçu, mas pretendíamos saltar em Alto Jequitibá e caminhar os 12km até Alto Caparaó. Pedimos à Olga que esperasse no carro, separamos nossas carteiras e nos pusemos na fila. Pois não. Duas pra Manhuaçu. Só tem uma.

After many twists and turns with an amazing inclination angle, probably not projected for automobiles, Stephanie and I went out of Olgas car at the station in Taubaté and went to the the ticket office. We wanted tickets for Manhuaçu, but would step out in Alto Jequitibá and walk the 12 km until Alto Caparaó. We asked Olga to wait for us, prepared our portemonnaies and joined the cue. What can I do for you? Two to Manhuaçu. There is only one.
Voltamos com a Olga pra São Paulo e pegamos o ônibus pra Manhuaçu no Tietê no dia seguinte. Na manhã que se seguiu, acordamos em Minas Gerais. Às 15 pras 8 iniciamos a nossa caminhada a Alto Caparaó. A região é cafeeira. Stephanie não gostou muito do café in natura.

We returned to São Paulo with Olga and took the bus to Manhuaçu from Tietê the following day. The next day we woke up in Minas Gerais. At a quarter to 8 we began our hike to Alto Caparaó. The region produces coffee. Stephanie did not appreciate coffee in natura.

Conforme o sol ia subindo, o calor ia aumentando e Alto Caparaó ficava mais no alto.

As the sun rose, the heat incresed and Alto Caparaó got higher.

As nuvens iam se acumulando e o meu pé avisava que aquela junção resultaria numa experiência bastante molhada.

The clouds slowly gathered and my foot warned me that that joint venture would end up in a wet experience.

Pórtico de Alto Caparaó. Chegamos à entrada da cidade, mas precisávamos achar a Pousada Serra Azul, no fim da única rua da cidade, lá no alto.

The gate of Alto Caparaó. We had reached the entrance, but needed to find a specific hostel at the end of the only street, high up there.


Choveu às 15:00 com direito a ventania, raios e trovões. Se tivéssemos vindo no dia anterior, teríamos pegado essa chuva na montanha. Na terceira montanha mais alta do Brasil.

It rained at 15:00 and there were strong winds, thunder and lightning. If we had gotten here the day before, we would have caught this storm on the mountain. The third highest mountain in Brasil.

Árvores em Ubatuba

Stephanie entre as raízes de uma seringueira.

Stephanie between the roots of a ... does German help? Gummibaum.
Olga sentadinha entre dois chapéus de praia.

Olga sitting between two typical beach trees.

domingo, 20 de abril de 2008

Pra cima de Paraty

Subimos uns quilômetros até o marco da Estrada Real. Olga está planejando fazer a outra metade da Estrada Real e queria se informar sobre possibilidade de pernoite entre Paraty e Cunha.

We drove some kilometers to the starting (ending?) point of Estrada Real. Olga is planning to do the other half of the Estrada Real and wanted to find out about some place to sleep between Paraty and Cunha.


Olga e Stephanie.Subimos mais alguns quilômetros até um mirante e pudemos ver Paraty e as ilhas de cima.

We went up some more kilometres and could see Paraty and te islands from there.


Paraty de barco

O albergue oferece passeios de barco mais baratos para hóspedes. Consideramos que já que são mais de 60 ilhas, vale a pena ver algumas mais de perto. Quando Maicon (não sei como se escreve o nome do nosso capitão) lançou âncora pela primeira vez, nos deu snorkel e pudemos admirar a vida marinha submersa. Para atrair os peixes, pedaços de pão já não funcionavam mais. Bolo de laranja era a solução.

The hostel offers cheaper boat trips for guests. We reckoned it was worth taking a closer look at some of the more than 60 islands there are. When Maicon (I am not sure about the ortogragraphy of our captains name) anchored the boat for the first time, we were given snorkels and could admire the sea life below the water surface. In order to atract fish, pieces of bread do not do the trick anymore. But pieces of orange cake do.
Erika, a namorada do capitão, nos mostrou uma estrela do mar.

Erika, the captains girlfriend, showed us a sea star.

Ouriço.

No idea how this is called in English. Ignorus completamentis. Sorry.

Maicon trouxe uma estrela do mar maior.

Maicon brought a bigger sea star.

30 anos nas costas

Pra minha festa de aniversário, convidei muita gente e anunciei que haveria hot dog e sessão de fotos. Eu ainda não tinha mostrado as minhas fotos de Holanda e viagens a partir de lá pra ninguém... Por causa da chuva veio metade do povo que eu tinha convidado. Preciso incluir a chuva nos meus convites futuros, pois desde que moro em Campinas, sempre chove no dia 6 de abril.

For my birthday party I invited a lot of people and announced there would be hot dogs and a picture session. I hadn´t shown my picyures of the Netherlands and trips from there to no one... Because of the rain, only half of my guests came. I will have to include the rain in my future invitations, because it rains every april 6th since I moved to Campinas.
Fiz uma sessão de fotos 'de cima para baixo' dos meus convidados, mas não vou publicar tantas fotos preto e branco dos meus amigos. Fica aqui a foto que fizeram da minha pessoa.

I made a photo session 'top down' of my guests, but I am not going to publish so many black and white pictures of my friends. Here is a picture someone made of me.

Depois que todo mundo foi embora, cantamos até altas horas. E vestimos as fantasias de festa infantil que por algum motivo inescrutável estão armazenadas na sala.

After everybody had left, we sang until late hours. And put on some costumes that were for some inscrutable reason stored in the living room.

Visita internacional

Stephanie, minha amiga francesa que eu conheci na Holanda, veio do México pra me visitar. Consegui duas semanas de folga da Unicamp e fui a São Paulo, buscá-la no aeroporto. Curtimos uma garoa na Av. Paulista, almoçamos na Liberdade e caminhamos no Parque Ibirapuera. No segundo dia de Brasil, fomos a um lugar alto para admirar esta cidade imensa: o Pico do Jaraguá.


Stephanie, my french friend I met in the Netherlands came from Mexico to visit me. I got two weeks off from university and went to São Paulo to pick her up at the airport. We strolled on Paulista Avenue under the usual drizzle, had japanese lunch in the correspondent neighbourhood and hiked in Ibirapuera Park. On her second day in Brasil, we went to a high spot to admire this huge city: Jaraguá Peak.
Olga localizando pontos da cidade.

Olga determining the location of parts of São Paulo.



Stephanie enquadrando a cidade monstruosa.

Stephanie framing this monstruous city.

Mariposas no caminho.

Moth on the way.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Tráfego compartilhado

O maior problema do ciclista que escolhe a ciclovia de Barão (refiro-me ao trecho da Av. Atílio Martini, não à parte de ciclofaixa que sai da moradia ou o trecho que entra na Unicamp e acaba abruptamente numa rotatória) são os incontáveis pedestres. Os motoristas que cruzam a ciclovia sem olhar para possíveis ciclistas estão ficando mais espertos e às vezes se sentem constrangidos pela atitude imponente dos ciclistas ou os olhares furiosos que uma certa ciclista lhes atira. Mas os pedestres passeiam com cachorro, fazem cooper, caminham em bandos, atravessam sem olhar para os lados, transportam coisas enormes, tipo caixas de papelão vazias etc. etc. etc.
Foi discutido que a rotatória em frente à entrada da Unicamp deve ser tanto para pedestres como para ciclistas, porque atravessá-la é o jeito mais eficaz de se chegar à Unicamp em menos tempo. Botaram uma placa antes da rotatória.
Não entendo essa placa de trânsito na ciclovia de Barão. Indica que o tráfego deve ser compartilhado. Normalmente, os ícones devem indicar quem compartilha a via com quem. Se a bicicleta compartilha a via com os pedestres, então há ícones que representam uma bicicleta e uma pessoa. Na Alemanha, estas placas são azuis e as pessoas são uma mulher e uma criança. Quando o carro compartilha o espaço com a bicicleta, a placa apresenta uma bicicleta e um carro. Nos EUA, a placa costuma ser amarela e vem acompanhada das palavras 'share the road'.
Agora dois pedestres compartilhando a ciclovia me parece bizarro.

A localização da placa também é estranha, porque é justamente no fim de um segmento. Se fosse colocada na rotatória, ficaria claro que a parte em que o tráfego é compartilhado (entre pedestres e mais pedestres) é a rotatória.

Por que os especialstas em sinalização não sabem o que fazem?

Spieglein, Spieglein an der Wand

Edson e Antonio foram num carro, Rogério, Pablares, Renato e eu em outro e nos encontramos na frente no restaurante árabe. Olhamos pra ciclovia de Barão Geraldo e ouvimos um moço vociferando. O moço claramente era da espécie dos engenheiros: carro rebaixado, braço pra fora da janela, e um monte de engenheiros iguais a ele no carro. O engenheiro virou a cabeça para fora de sua lata poluidora e gritou:

CARA DE MACACO!

Não conseguimos identificar pra quem ele tinha gritado esse enunciado insólito. Pra tirar a dúvida, resolvemos entrar no restaurante, procurar o banheiro e examinar nossas caras no espelho.

Marcia Nozawa

Renato, Pablares, Antonio, Célio, Laudino e Edson temos um amigo em comum: o Rogério, que foi funcionário do IEL e agora passou pro IFCH e foi demitido junto com uma pá de gente. Nossos encontros sempre foram de ordem gastronômica: nos juntávamos na casa de um ou de outro (nunca na Oca, mas tudo bem. Acho que é porque eu não tenho forno de pizza ou coragem de botar canela no frango) pra fazer comida, conversar e comer.

Rogério tem uma esposa, chamada Marcia, professora na Faculdade de Medicina na Unicamp. Na sexta, dia 14 de março, a Marcia sofreu um rompimento de aneurisma na aorta. Duas cirurgias depois, seu estado ficou estável. Marcia é japonesa, e seus parentes fizeram este tsuru, na esperança de que ela não morra. Não sabemos se foi consciente ou não, mas o fato é que a Marcia arrancou os tubos que a mantinham viva, de modo que ficou um tempo considerável sem oxigênio. Continuamos olhando pra foto do tsuru que nos foi enviada pelo Rogério.


Temos feito visitas constantes ao Rogério e sua filha, Maria Luiza. Sempre avisamos na portaria que não vamos ver um paciente, porque a professora Marcia ainda está na UTI, sedada (senão ela arranca tudo de novo) e inconsciente. Queremos ver o marido da paciente, que está na Sala da Família. Hoje ganhamos fitinhas que nos identificavam como visitantes. Nos outros dias, nos deixavam passar direto.
Com o Rogério, falamos pouco sobre a Marcia. Não fazemos perguntas, porque sabemos que ela está estável por enquanto. Nos preocupamos com o estado em que ela vai sair dessa, mas não falamos sobre isso. Tiramos o Rogério do hospital, e isso já é uma distração pra ele.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Pedivela Alivio

Quando eu passava a marcha do câmbio dianteiro da maior pra do meio, a corrente enroscava no quadro. Nem sempre, mas sempre com maior freqüência. (Nicht immer, aber immer öfter.) Durante a viagem de Santos a Ubatuba, a corrente raspava no braço do câmbio dianteiro e fazia rék, rék, rék, em intervalos regulares, quando eu tava nas marchas mais pesadas. Mexemos no câmbio de tal forma, que a corrente não entrava mais na coroa menor da frente. A passagem da do meio pra maior, no entanto, acontecia mais rápido.

Fui na bicicletaria do Baixinho, pra pedir que me regulassem o câmbio. O Baixinho olhou pro meu pedivela e contou o cassete e concluiu que o pedivela não combinava com o cassete.

OK. Vamos à definição dos termos. A corrente passa por dois mecanismos redondos com dentes. O da frente é um jogo de 3 discos dentados chamados coroa e o suporte pro pedal. Tudo isso compõe o pedivela. O de trás é composto por um jogo de discos dentados, chamado cassete. A Amarilda tem um cassete de 9 discos, totalizando 27 marchas (3 x 9 = 27). Bicicletas de 24 marchas têm um cassete de 8, as de 21 um de 7 discos dentados atrás. O câmbio é o mecanismo que faz com que a corrente passe de um disco a outro. Como a coroa e o cassete possuem mais de um disco, é necessário que haja um câmbio dianteiro e um traseiro. Os elementos (pedivela, cassete, corrente e câmbios) devem ser compatíveis.

O Baixinho me mostrou que eu tenho câmbios e cassete Deore, mas pedivela Alivio. É tudo da Shimano, mas a coroa da Alivio é mais grossa, porque a linha Alivio é prum cassete de 8, em que há mais espaço livre que num cassete de 9. Por ser mais grossa, a corrente não sai com facilidade dos dentes e enrosca. Eu precisava de um pedivela Deore. Tudo bem, troca.

Olhei na nota fiscal da Amarilda e vi que o pedivela Alivio custou 130. Eu podia tentar vender esse meu pedivela pra bicicletaria. Trouxeram um pedivela com movimento central selado e super moderno da Deore. Perguntei o preço e me assustei: 530. Perguntei se ele não tinha um Deore sem o movimento central. Tem, mas tem que encomendar e custa 340. Puxa vida! Pra quem tava achando que ia pagar uma regulagem de câmbio, isso ainda era caro. Baixinho olhou pra bicicleta dele, contou os discos no cassete. Era um pedivela Deore prum cassete de 8. O meu pedivela serviria na bike dele e vice-versa. Maravilha! Cobraria 180. Aceitei. Ficaria pronto na segunda-feira (hoje) às 9:30.

Apareci lá pontualmente, e vi a Amarilda pendurada na oficina. Vai demorar? Trinta minutos. Putz. Vou a pé pra Unicamp, e pego ela ao meio-dia, então. Não, a gente te empresta uma bicicleta daqui. Não precisa andar a pé.

Quando finalmente devolvi a Monark e peguei a Amarilda, confirmei o que eu já sabia: a minha bicicleta é a melhor que eu já pedalei na vida.

domingo, 30 de março de 2008

Programa de aposentada

Fui pra SP sem avisar os meus amigos, me entregando completamente à programação da Olga. Ela passou por uma cirurgia faz duas semanas e precisa de repouso. Dessa vez a tiróide foi retirada. Todo dia um novo esparadrapo enfeita o pescoço dela.
Na noite de sexta, a programação era um concerto beneficente. O dinheiro arrecadado seria doado à OASE. A família que disponibilizou a casa para a violinista e o pianista e seu público é alemã. Muito bem, eu esperava encontrar alemães e brasileiros descendentes de alemães de uma certa faixa etária, de uma certa camada social, ligados à igreja luterana. Quanto à música, suspeito que o violino seja um instrumento difícil de se tocar. Ou talvez Bach não seja próprio para este tipo de constelação instrumental. Nas peças de Mozart e Dvorak os erros da violinista foram menos graves. Notei que não havia crianças na casa, e que as três pessoas da minha idade se sentiam tão importantes quanto os empresários engravatados que estavam ali para cumprir seus deveres cristãos. Família Dauch, casal Krause, a secretária-chefe alemã do Humboldt (esqueci o nome dela), Hermann Wille e o Zander (pai do Fábio e da Kathia) estavam lá. Todos eles me olhavam como se procurassem ver através de um vidro embaçado. Tentavam puxar na memória a que família eu pertenço, por que não estou na Alemanha, qual era mesmo o meu nome.
No sábado, fomos ao sítio de uma das amigas (dos tempos de prefeitura) da Olga. Mulherada animada, conversadeira, alegre. Todas me conhecem muito bem, e até registraram que passei um ano na Holanda. Do sítio, fomos pra Campo Limpo Paulista, visitar uma tia das donas do sítio. Essa tia já é bem velhinha, e encomendou um culto de ação de graças em casa. Juntou um montão de parentes e amigos pra agradecer por estar viva e chamou o pastor pra cantar com o violão. Quando chegamos na casa da tia, a sala já estava cheia. Quando o último convidado chegou, a garagem já estava tomada. Desconfio que depois de mim, só o filho da caseira era mais novo que eu. Mas a postura de todos aqueles senhores e senhorinhas era alegre, acolhedora. Já experimentou o bolo de milho? Bom demais! Já pegou o coração? Deus te abençoe, filha, obrigada por vir.

Argumentação desconexa

Voltei de São Paulo num domingo de tarde e cheguei em Campinas perto (mais pra lá do que pra cá) do horário de almoço. Da rodoviária fui ao ponto do 3.31, que vai pra Barão Geraldo. Minha Nossa Senhora... Na praça do ponto de ônibus havia um homem em trajes sociais vociferando no microfone. Dio Santo, faça esse ônibus chegar logo!!! Em volta do homem havia outros engravatados que gritavam aleluia, amém e glória a Jesus com convicção quando o homem do microfone entregava o turno de fala (sou lingüista, desculpem > quando ele pára de falar e dá a chance aos outros de falarem). Meus Deus, porque devo sofrer essa violência? Algumas poucas mulheres estavam sentadas na sombra da figueira. Cabelo arrumado num coque, saia pra depois do joelo, mãos no colo, cabeça levemente inclinada, sorrindo pra dentro. Será que vão achar ruim se eu pegar o microfone e pregar sobre a liberdade deles que acaba no momento em que eu me sinto violada pelo falatório deles? Pessoas vão chegando ao ponto de ônibus e sentando-se nas muretas e bancos. Olham para a roda com um olhar divertido. Devo ser uma pessoa muito ruim. Não consigo achar essa invasão bonitinha. Não consigo nem mesmo ter pena deles. Tenho pena de mim, que preciso suportar essa falta de imaginação. Sinto uma raiva se remexendo nas entranhas. Não consigo evitar de absorver o falatório desconexo. Não é a história de como encontrou Jesus, não é a citação desenfreada da Bíblia, mas a argumentação por que aquele homem que acredita em Jesus se sente seguro.

As outras religiões estraga as pessoa.
Porque as outras religiões prega que Deus é três.
Deus é Jesus, e Jesus é um só.
Tem igrejas que fala de Jesus como fosse a segunda pessoa, mas é porque Jesus fala na segunda pessoa com os discípulo dele.
V i e s t e s até mim, não é isso que tá escrito?
Pois taí a segunda pessoa.
Mas Jesus é um só, Jesus está em você, irmão.
Jesus nunca falou mal dos bêbado.
Nunca falou mal das prostituta.
Porque a prostituta, o ladrão, o estrupador é todo mundo gente boa.
É o espírito mau que tá por trás deles que faz eles sê ruim.
Mas e l e s são pessoas boas.
E quem tem o Espírito Santo, é gente boa.
Aleluia, irmão!

Graças a Deus, chegou o ônibus!!!!!!

Argumentação tortuosa

Reclamei com um amigo que copiou coisas que eu escrevi neste blog e as colou no blog dele. Chamo essa prática de plágio e sugiro que em vez de apresentar material alheio como se fosse dele, cite a fonte em que estão as coisas que lhe agradam.

Ele se defende dizendo que qualquer um pode copiar e colar o que quiser.

Pois é. Meu amigo foi infeliz na argumentação a favor do plágio dele. Nada justifica a cópia a não ser um detalhe: a comodidade. Reclamar seus direitos autorais na era digital é complicado. Porque copiar material alheio é fácil. Em vez de digitar ou escrever à mão o texto que se quer copiar, é só selecionar, copiar e colar - e pronto. No caso das correntes de e-mail, é só botar no 'forward', que a mensagem bonitinha é passada adiante. Nesses casos, a intenção é disseminar algo. O que interessa é a mensagem em si (as imagens no photoshop, a piada, a notícia), não o autor da mensagem. Não acredito que isso se aplique ao conteúdo do meu blog.
Eu sou filha de artista plástica e desde sempre entendo que sou responsável pela minha produção e devo levar os créditos por ela. Acompanho Bakhtin quando critica a posse que um autor reiveindica sobre seu texto, argumentando que tudo o que você disser já foi dito antes por outra pessoa, mas mesmo assim considero que o que eu escrevo é meu e não deve ser publicado sem a minha assinatura.
Dizer que qualquer um pode copiar e colar conteúdos não legitima o plágio. A partir do momento em que o 'indivíduo' floresceu e ganhou importância na nossa sociedade, existe um código entre as pessoas de que é preciso ser original, e que não é legal copiar os outros. "Qualquer um pode" não garante a liberação de uma atividade. Qualquer um pode abaixar as calças e cagar no meio da calçada. Os cachorros fazem isso, o que me impede? Qualquer um pode usar de violência contra outra pessoa. Quem me impede de extravasar a minha fúria numa pessoa mais fraca e economicamente dependente de mim? Existem códigos de conduta. Não sei de pessoas que cagam na calçada, mas sei que a violência doméstica existe. O que diferencia um caso do outro provavelmente é o olhar e julgamento da coletividade. A pessoa provavelmente não faz as suas necessidades na calçada por medo de ser censurada pelos outros. É a desaprovação pública que desautoriza o sujeito a fazer o que qualquer cachorro faz. O homem que bate na mulher ou filhos, ou a mulher que bate nos filhos (não importa quem agride, importa que a vítima seja mais fraca) está sozinho com sua vítima. Ninguém vê e julga e impede que a violência aconteça. Ela acontece em casa e em muitos casos é tida como 'normal'.
Plágio, cagar na calçada e violência doméstica são coisas que qualquer um pode fazer. Os que não o fazem, seguem códigos sociais que existem para regular nossos comportamentos. Acreditamos que seguir estas regras de comportamento facilita as nossas vidas e minimiza atritos. Infringir essas regras (e tantas outras) significa sofrer desaprovação (ou mesmo comprar briga), já que, enquanto seres coletivos, precisamos concordar em cumprir algumas regras de convivência.

domingo, 23 de março de 2008

Ciclistas

Olhando prum grupo de cinco moleques descendo a ladeira de bicicleta na contramão, Luizão contou que tinha visto numa reportagem que morrem não sei quantos mil ciclistas por ano no Brasil. Eu ia comentar os furos dessas estatísticas, principalmente quando se trata da contagem de acidentes sem morte, em que os ciclistas normalmente figuram como pedestres. Mas ele emendou, apontando pros meninos radiantes de alegria: isso não é ciclista! Passou um cara vestido de roupas coloridas e apertadas de lycra e capacete. Isso é ciclista, tá vendo, roupas apropriadas, capacete, andando conforme o sentido do trânsito, com segurança. Chamei atenção pro fato de que nem todos os usuários de bicicleta tiveram instruções de como se portar no trânsito e que os pé-rapados não têm dinheiro pra comprar óculos de sol, capacete ou bicicleta boa.

Lembrei quais são as pessoas que cumprimentamos no caminho: pedestres que acenaram pra nós, ciclistas esportivos como nós e ciclistas urbanos que nos cumprimentaram. Eu tentei acenar com a cabeça pra qualquer um que olhasse muito pra nós, sem preconceito, mas confesso que me senti mais compelida a acenar para aqueles que se pareciam comigo.

Cheguei em Campinas, tirei a bicicleta do bagageiro do ônibus, atravessei a cidade semi-deserta e peguei o Tapetão. Um casal de amigos meus vem na minha contramão. Oi, Lou, tudo bem? Tudo, mas por favor, não pedalem na contramão. Tem uma passarela ali, cês atravessam e continuam do outro lado. Eu imagino que vocês queiram ir no Taquaral que é deste lado, e eu sei que é chato de fazer o retorno lá na frente, mas por favor pedalem no sentido do trânsito. Uma colisão frontal pode ser fatal, vocês precisam se integrar no trânsito.
Os dois estavam de roupas esportivas e óculos escuros (por isso não os reconheci logo) e ela estava de capacete.

Ciclista é quem anda de bicicleta, seja instruído ou não, pobre ou não.

Nuvens pesadas

Pra sexta-feira, a previsão do tempo anunciava tempo bom de manhã e trovoads esparsas de tarde. Tivemos tempo encoberto de manhã e sol (e nuvens, a depender da praia) de tarde.
Pra sábado, a previsão era de tempo instável. De tarde, 20 km antes de Ubatuba, perguntamos pro Pedrinho, japonês que vende o melhor caldo de cana do bairro (não sei qual bairro é) se ia chover. Chover, não chove não. Caiu aí uma chuvinha, assim, uns pingo bem distante um do outro, mas foi só.
No domingo de manhã, enquanto eu esperava dar o horário do ônibus pra Campinas na rodoviária, choveu. Mas eu estava embaixo de um telhado e o paralamas que eu instalei não foi testado dessa vez.



Público de praia

Cada praia tem o seu público.
Maresias é o point da galerinha jovem. Adormecemos ao som de festa e acordamos às 6 com o mesmo som. Às 7 da manhã de sábado a padaria estava lotada de pós-adolescentes (elas de vestidinho e eles com muitas tatuagens) sonolentos. O efeito da bebida ou das drogas deixava seus olhos vermelhos, o corpo pesado e reflexos retardados. O nosso dia tava começando, o deles tava terminando.

São Sebastião nos surpreendeu pelo contingente de ciclistas doidos. Dois pedalando lado a lado, conversando e na contramão, foi o que mais observamos.

Caraguá é praia pra família. Família significa criança pequena que precisa de sombra; filha que não consegue se decidir qual óculos de sol comprar do ambulante e grita da beira do mar até a sombra, pedindo a opinião da mãe; é o garotão abrindo o porta-malas e permitindo que o funk, axé, ou o raio que o parta invada os ouvidos de qualquer um; é o pai bebendo cerveja e contando ondas. O nosso dia tava no meio, o deles tava começando.

Ubatuba começa pela Praia Vermelha. Muito antes de chegar nela, a fila de carros espessava e se lentificava. Cogitei algum acidente ou bloqueio, mas não. Era desfile mesmo. Quem tava na Praia Vermelha desfilava seu corpo, biquini, tatuagens, músculos e se media com outros no volume do som que o carro era capaz de produzir. Infelizmente nem todos têm o mesmo gosto musical. O meu não estava representado lá. Considerando a improvável hipótese de que estivesse, ninguém seria capaz de distingui-lo. Amigos, em verdade vos digo: passei pelo inferno sonoro. Hm. Ainda não acabou. A fila de carros também desfilava: os próprios carros, seus sons potentes e proezas de motorista querendo ultrapassar os outros pelo acostamento. O nosso dia tava no fim.


São Sebastião

Segundo dia, no fim de São Sebastião, pedi pra parar antes da subida. Luizão e eu temos ritmos e costumes diferentes: a cada pedalada que eu dava, ele dava duas. Eu prefiro girar pouco, mesmo que isso signifique fazer mais força. Isso se fazia evidente em dois momentos: quando pedalávamos lado a lado e quando ele ia na minha minha frente, se preparando pra subida. Como eu segurava mais as marchas, ainda tinha impulso suficiente pra mais um tanto, enquanto ele já tinha diminuido as marchas e a velocidade.
Outro ponto de divergência era o almoço. Eu estava levando comida pra não ter que parar no meio da pedalada, pra não ter a barriga cheia. Ele preferia sentar num restaurante, comer à vontade e depois pedir pra eu ir devagar, porque ele tava de barriga cheia.
O meio-termo que achamos é que eu abria distância dele antes da subida e parávamos pra eu comer barrinhas de cereais e depois pra ele almoçar arroz, feijão e mistura.

Numa das paradas para eu comer este senhor veio conversar com a gente. Aposentado, ex-estressado paulista, falou da vida caiçara, de exercícios físicos, cabeça boa, contato com a natureza. Insistiu que voltássemos pra casa pedalando. Nada de botar a bicicleta no ônibus, isso é muito fácil!!!

Contratempo

Quebrou o pedal direito do Luizão. Rachou no meio e perigava cair, ficando só o eixo. Seguimos as instruções do frentista e pedalamos por ruas de areia até a bicicletaria local (não sei onde estávamos). Primeira à direita, quarta à esquerda e segunda à esquerda. Achamos a bicicletaria, mas não tinha pedal de eixo grosso, só eixo fino.
Em São Sebastião seguimos instruções de um mecânico de carros: segue o fluxo dos carros, não vai pela ciclovia, que é complicado. Na Jota Bike tinha o pedal que encaixava.

Rio-Santos

Dois dos senhores que acompanhamos moram na Riviera e nos guiaram até lá por vias alternativas (é um condomínio fechado, mas tem uma entrada de serviço pros empregados, na verdade é uma pinguela em chão de areia). De lá em diante era só Rio-Santos, velha conhecida. Até Maresias tinha espaço pra nós. Na verdade a pista plana é composta por 4 faixas: uma vai, outra volta e tem acostamento de cada lado. Mas nas subidas e descidas o espaço é restrito pela montanha, então tem 3 faixas e meia, quando muito: uma vai, outra volta, meia é acostamento do lado de quem desce, quando muito, e a outra é a faixa adicional na subida, pra que veículos lentos possam ser facilmente ultrapassados. Isso se aplica principalmente ao trecho entre Boracéia e São Sebastião.
Eu tinha metido na cabeça que tínhamos que chegar até Maresias no primeiro dia de pedal. A descida da serra que dá em Boiçucanga terminou numa descida fenomenal, em que atingimos a velocidade demente de 75.5 km/h.
A serra entre Boiçucanga e Maresias nos colocou no limite de nossas forças. Mesmo empurrando a bicicleta, a gente ia devagar e ofegando. E suando feito porcos e morrendo de sede e pensando a cada passo que era mais fácil voltar e descer aquela montanha e tentar de novo no dia seguinte. Não, agora, depois de 2km de subida empurrando as bikes, nós não vamos descer, não, senhora! Dá aqui a sua bike, e endireita essa coluna. Grande Luizão!
Depois de Maresias, o trecho fica ruinzinho. Muita curva, as cidades têm uma periferia que se estica por vários quilômetros, pouco acostamento e muitas serrinhas.

Pra Bertioga

Fomos seguindo as placas pra Bertioga, sem nos perguntar se estávamos de fato na Rio-Santos. Eu já tinha pedalado de Paraty a Peruíbe e um pouco mais (fui até Barra do Una) faz um ano e meio, e não estava reconhecendo esse trecho. Daqui a pouco as placas indicam que haverá uma balsa adiante. Balsa! Isso não corresponde às minhas expectativas!
Na balsa conhecemos esse grupo de ciclistas aposentados, que estavam se dirigindo à Riviera de São Lourenço. Como era caminho, fomos com eles.

Santos a Guarujá

Luizão e a Kona dele esperando no mar de ciclistas que esperam pela balsa que leva o povo pro Guarujá. De grátis!
Amarilda era a única de alforges. Grande coisa, porque a bolsa da direita teimava em entrar pra dentro dos raios da roda traseira a cada buraco. Mas Luizão tinha planos A, B e C pra resolver isso.
Na balsa tinha muita gente em grupo, de capacete, bicicleta boa e falando alto. Feriadão faz a galera tirar a bike da garagem.
Santos no fundo, atrás da cortina de nuvens. Ainda não são 10 da manhã.
Guarujá aqui. A galera que tava uniformizada de ciclista esportivo veio se juntar aqui, no fim do Guarujá.