Sábado passado Luis e eu compramos um pintagol. Na loja, Luis escolheu esse passarinho por causa do canto, não porque se tratava de um pintagol. Descobrimos que ele era um híbrido de canária com pintassilgo mais tarde, através da internet.
Trouxemos o passarinho com o maior cuidado pra casa e escolhemos um lugar para ele: a varanda. Tivemos medo de expor demais o passarinho ao vento - e quando ventou forte, o trouxemos pra dentro de casa. Aos poucos, o passarinho foi se soltando. Só cantou como cantava na loja quando tocamos para ele o som de outros pintagóis que encontramos no Youtube. Ao som de outro pintagol, reagiu furioso: cantava forte e todas as suas penas se eriçavam (especialmente as do topo da cabeça, formando um topete). Ao som de canários, reagiu tranquilo. Ao som de uma pintagol fêmea nos presenteou com um espetáculo: passou a pentear suas penas freneticamente. Girava no poleiro, quase caía, asseava as penas das asas, cabeça, peito, tudo, contorcendo-se para ficar apresentável.
Estudamos nosso passarinho por horas. O passarinho tem 4 dedos em cada pé: 3 numa direção e outro opositor. No pé direito dele, reparamos que o dedo opositor não agarrava o poleiro. Pensamos em adaptar o poleiro mais grosso para ele, porque parecia grosso demais, já que o pé direito dele escorregava constantemente desse poleiro. Cheguei a inserir um hashi na gaiola, mas as cores de cobra coral em volta do hashi devem ter assustado o nosso passarinho.
Fomos dormir sabendo que tínhamos um animal doméstico em casa. Na manhã seguinte, pensei em levantar e ir ver o passarinho quando acordei às 6h. Mas daí eu pensei que 6h era muito cedo pra ficar em pé e decidi nem levantar. Mas Luis levantou em seguida e foi ver o passarinho.
Na versão dele, ele queria me trazer o passarinho porque tinha me ouvido falar no dia anterior que eu tinha muita vontade de tocar o passarinho, mas que não dava, por causa da gaiola.
Luis ficou parado na porta do quarto, com as duas mãos perto do coração. Explicou que o passarinho deu uma bicada pontiaguda na mão dele, se soltou e saiu voando em direção à escola. Não sabíamos se o passarinho tinha passado os dois anos de vida dele dentro da gaiola ou se tinha sido capturado. Não sabíamos se ele saberia se virar no mundo fora da gaiola.
Descemos com a gaiola vazia e fomos, às 6:30h, em pleno domingo, para a escola ao lado do nosso prédio. O guarda nem ouviu a história do passarinho até o fim. Foi abrindo a porta e nos deixou procurar o nosso passarinho. Confiávamos que seríamos capazes de reconhecer nosso passarinho sem nome pelo canto. Pela primeira vez, me dei conta de que todos os passarinhos cantam - e que há muitos passarinhos lá fora. O que antes era ruído, paisagem sonora, de repente ganhou contornos variados e precisos.
De tarde, reconhecemos o canto do nosso passarinho. Da varanda do sexto andar, Luis identificou um passarinho que voava desajeitado e pousou na churrasqueira. Descemos com a gaiola vazia, o saco de comida de passarinho, uma camiseta para jogar em cima dele e muita esperança de poder dar segurança ao nosso passarinho esfomeado e sedento e assustado, coitado. O passarinho se mostrou mais esperto e ágil que nós. Levamos a gaiola e o computador para a churrasqueira e tocamos todos os videos de pintagol para o nosso passarinho empoleirado num arco do ginásio da escola.
Na tarde do dia seguinte, chegamos a comer na churrasqueira ao som de pintagóis que saía das caixas de som. O nosso passarinho aparecia, olhava pra gaiola vazia, cantava, voava, cantava e desaparecia. Pouco antes do anoitecer, vimos o passarinho no muro que separa esse prédio do outro prédio. Passamos horas conversando com ele, brincando de esconde-esconde. Quando escureceu, ele se retirou para o prédio vizinho. Calculamos a hora em que ele estaria dormindo, com a cabeça encolhida e a guarda baixa e fomos, com a gaiola vazia, até o prédio vizinho. Para a nossa surpresa, o guarda noturno era criador de passarinhos, tinha vários curiós e conhecia pintagol. Na área de lazer do prédio vizinho, procuramos, os três, com lanterna, pelo passarinho. Deixamos a gaiola vazia com o porteiro, na esperança de ele identificar e capturar o nosso passarinho de manhã, assim que ele começasse a cantar.
Na manhã seguinte, Luis buscou a gaiola vazia na nossa portaria. Todos os dias, o passarinho cantava e nós descíamos para conversar com ele. Já não levávamos a gaiola, comida, computador, porque percebíamos que deveríamos desistir da ideia de colocar o nosso passarinho de volta na gaiola. Ele estava voando bem, não escorregava dos fios ou galhos em que pousava e estava sobrevivendo à chuva e tempestade.
Hoje temos certeza de que ele sabe onde nós estamos: já o vimos empoleirado
em cima do prédio atrás do nosso (de frente pra nossa varanda) e no nosso prédio (olhando para a janela da cozinha, do outro lado da casa). De certa forma, não conseguimos nos desligar dele: mesmo não sendo capazes de alimentá-lo ou protegê-lo (agora já não sabemos mais de que), descemos toda vez que o ouvimos e acompanhamos seu voo e seu canto. Numa vez que desci para ver nosso passarinho, fui seguindo-o até ser impedida de continuar: cheguei na grade que separa a piscina do resto do prédio. Olhando por entre as grades para o nosso passarinho, tive a estranha sensação de estar dentro de uma gaiola.