segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Bacuri

Jairo precisava de uns documentos impressos. Fazia muito tempo que eu não pedalava. Imprimi os papeis que a Siomara mandou, botei numa pasta, botei a pasta no alforje e fui encher os pneus da Amarilda. Passei óleo na corrente e um pano no selim e manoplas. Vesti minha bermuda acolchoada, prometi pro marido que tomaria muito cuidado e parti para a comunidade Maravilha, na margem esquerda do rio Madeira.

Atravessei a ponte sobre o Madeira pedalando no (meio) acostamento e peguei a estrada de terra. Vi árvores caídas e me dei conta que ter escolhido a bicicleta como veículo tinha sido uma boa aposta. Um quase-tornado tinha varrido Porto Velho 2 dias atrás e agora eu via os estragos.

Na primeira grande poça tinha uma moto parada. O casal montado nela estudava a situação. Passei devagar por eles e atravessei a poça pedalando. Sujou as pernas. A segunda grande poça era contornável por um caminho lateral. Depois dessa, não cruzei com mais ninguém na estrada. A terceira poça era um lamaçal revolvido que preferi não encarar. Desmontei da bicicleta, empurrei pela "praia" à direita e voltei à estrada.

Jairo, que costuma pedalar esse caminho (a mãe dele mora perto aqui de casa) se espantou que eu tivesse me atirado nessa aventura. Pois a aventura ainda nem tinha começado...

Agradeceu pelos materiais impressos e explicou que a ata que eu tinha trazido precisava constar - manuscrita - no livro de atas. Disse que a caligrafia dele era tão feia que teriam levar a ata num médico, pra decifrar o que estava escrito. Me prontifiquei a copiar a ata para o caderno de atas. Se peguei malária, foi ali, concentrada na transcrição do texto.

Como agradecimento, Jairo me deu frutinhas. Que frutinha é essa? Bacuri. Mas bacuri não é menino? É. E hoje é dia das crianças.

Voltei correndo contra o tempo. Quando cheguei na ponte, escureceu. E começou a chover. Tive que desmontar da bicicleta e empurrá-la pela via dos pedestres, porque não há acostamento (nem meio acostamento) para quem volta para PVH. Toda a lama em mim ou na Amarilda foi lavada pela chuva. Liguei as luzinhas da bicicleta e me integrei ao trânsito. Na subida pela Costa e Silva até a Farquar, um mar de lixo dominava a avenida. Os motoristas, apreensivos, aceleravam, espalhando ondas de água com lixo para os lados. A cidade não tem sistema de drenagem.

Quando cheguei no cruzamento com a Jorge Teixeira, tinha parado de chover. Em casa, o asfalto estava seco. Abri a porta de casa e vi a apreensão do Luis. Estava preocupado por eu chegar no escuro e por não ter ligado. O celular estava no alforje (e não abri o alforje por causa da chuva). No banho, senti o corpo todo tenso.

O azedinho doce do bacuri alegrou a ciclista cansada e trouxe adjetivos positivos à boca do Luis.

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