domingo, 13 de maio de 2012

Passeio de barco no Madeira

O porto onde embarcamos está bastante destruído por causa do banzeiro (marola causada pela água do rio) 

O Cai N'Água parece que deixou de ser um barranco e virou porto

Por causa das comportas da usina, o bairro Triângulo estava desbarrancando

Fizeram essa contenção e condenaram todas as casas ali

A Usina

Meus companheiros de passeio

Voltando

A ponte que estão construindo pra Humaitá

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Tempo de seca

A terra já rachou,
uma camada marrom de poeira se estende sobre tudo
dentro e fora de casa.
As plantas começam a amarelar,
a água da mangueira não vence a sede da terra seca.
Akari se esfrega na terra e fica toda marrom.
O calor faz o tempo se arrastar.
Meu pé  direito avisa que lá vem chuva,
mas ela não desce do céu.
Os mosquitos ensaiam sua orquestra.

domingo, 6 de maio de 2012

Sobre planos

Cama de gato (2002) é um filme que causou bastante polêmica quando foi lançado, e acredito que continua causando desconforto ao espectador. A partir da metade do filme pra frente, o que mais incomoda é a completa falta de plano dos personagens, que se envolvem numa espiral de violência. Três amigos jovens de classe média, que acabaram de passar no vestibular, estupram uma menina na casa de um deles. Quando acham que mataram a guria, a mãe de um deles aparece, cai da escada e pronto: os três precisam se livrar de dois cadáveres.

Todas as ideias são alopradas, mas como não encontram solução nem tomam distância do problema que criaram, essas ideias fracas são postas em ação. Não há plano, as desgraças se amontoam conforme os garotos vão se enredando na trama louca que criaram. O filme, enquanto objeto cultural, é cuidadosamente planejado, ao contrário de seu conteúdo. As cenas iniciais do filme são preenchidas com depoimentos de jovens classe média bêbados, arrogantes e donos da verdade sobre Deus e o mundo. Depois que a ficção acaba, voltam os depoimentos aloprados dos jovens que se sentem gente grande e pagam a conta da cerveja com a mesada. E os depoimentos são paralelos aos fatos narrados na ficção. E cenas da fiçção são intercaladas com depoimentos dos jovens na noite. E o público é invadido pela incômoda sensação de que a realidade é muito mais cruel e sem rédeas que a fiçção sem plano que acaba de ver.

*

2 Coelhos (2012) é um filme brasileiro de ação bem pop. O personagem principal, um jovem adulto de classe média, tem um plano: matar dois coelhos com uma cajadada só. A princípio, o plano é se dar bem usando bandidos para explodir um político e sair com uma grana. Contudo, por ser uma narrativa pós-moderna, é fragmentada e o público vai descobrindo dados sobre o passado do personagem principal (Edgar).

No passado, Edgar atropelou e matou a esposa e o filho de seu professor de filosofia (Walter). Não foi culpabilizado pelo "acidente de trânsito" e passou uma temporada de dois anos em Miami. Ao voltar, dá de cara com Walter, que está trabalhando no restaurante do pai de Edgar. No fim do filme, Edgar revela seu plano: a câmera mostra a namorada de Edgar e sua filha caminhando felizes ao lado de Walter. Pode ser que o plano geral tenha sido algo abstrato como substituir a esposa e filho arrancados do Walter. Dificilmente o plano seria sacrificar a própria namorada e filha para restituir a felicidade ao ex-professor. Tanto no plano da narrativa como da forma de narrar, o plano de Edgar é complexo, fragmentado e em ritmo acelerado. A impressão que fica é a de um plano que é tecido enquanto a estória se desenrola.

*

Nueve Reinas (2000) é um filme argentino muito esperto. Marcos e Juan são dois trapaceiros, que passam um dia juntos, na condição de mestre (Marcos) e aprendiz (Juan). O mestre ensina seus truques, o aprendiz lhe conta sua estória. Em dado momento, Marcos é chamado por um velho parceiro (falsificador de coisas em papel) que lhe oferece uma sequência de selos valiosos (para colecionadores) para vender a um colecionador que está de passagem na cidade. Está claro que os selos não são originais, e que a viúva de não sei quem não entrega os originais. Ato contínuo, as nove rainhas falsas são roubadas. E como o comprador está de partida, Marcos e Juan se atiram na busca pelos selos originais. Compram (com recursos próprios) os selos originais da viúva com muito custo e tentam vendê-los ao colecionador.

Durante todo o filme, o espectador tem a sensação de que rola uma trapaça entre os personagens principais. Como Marcos é o mais experiente, a tendência é achar que Juan é vítima de seu mestre. No fim do filme, o espectador percebe que Marcos foi enganado com a estória das nove rainhas. Na ficção, o plano traçado por Juan é perfeito e foi executado por todos os personagens do filme. O filme, enquanto objeto cultural, igualmente é um plano bem executado, porque ensina ao seu espectador como deve ser interpretado.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Mad Maxi Driver: real e virtual

O cineclube deLírio existe em duas vias: a real, que agora acontece todas as quintas, mais ou menos às 17h numa sala não muito fixa na Unir; e da realidade virtual, que são as resenhas postadas no blog do cine deLírio.

O público real se mostrou sempre sensível a mudanças: quando mudamos de dia, muitas pessoas deixaram de vir. Quando teve a greve, o público demorou a voltar. As últimas sessões têm sido esvaziadas. Os debates, no entanto, sempre foram de alto nível.

O público virtual também passou por uma mudança, mas esta é constante e gradual. Quando começamos a postar nossas resenhas, pensamos em divulgá-las em fanzine ou jornalzinho, para que o público das resenhas crescesse. Chegamos a adotar a prática de ler as resenhas postadas previamente no início do debate pós-sessão.

Criamos uma comunidade de leitores de resenhas. Olhando o gráfico de visualizações de página do blog do cineclube, observo uma curva ascendente com dois vales: férias de 2010 e fim da greve, quando a reitoria tava sem energia e deixamos de exibir o cinegreve na escadaria. A resenha mais acessada (disparado) é a do Robson, sobre um dos filmes mais detestáveis (na minha opinião) que o cineclube já exibiu (Mad Max II). A atuação de Mel Gibson é horrível, a trilha sonora é o ronco dos motores, a agressividade é animalesca. A resenha, no entanto, é uma aula sobre distopia. A última resenha postada é a do Paulo Morais, sobre Taxi Driver. Outra resenha genial sobre um filme muito pouco agradável. Chamo o fenômeno de produzir resenhas ótimas a partir de filmes ruins de Mad Maxi Driver.

O blog conta atualmente com uma média de 100 visitas por dia. Na sessão passada contamos 7 pessoas, nas três anteriores foram no máximo 4 pessoas-público. A segunda resenha mais visitada é uma resenha minha, sobre dois documentários (O rio das Amazonas e Cidadão Jatobá) que foram exibidos para 1 pessoa - fora nós, do cineclube. Sinto-me tentada a comentar a terceira colocada, que é outra resenha do Robson sobre outro cine-velharia horroroso: Morte em Veneza. Robson tinha o dom. Sinto falta das resenhas dele e do seu pessimismo extremo, que chegava a ser cômico. Pois é, mas ele continua eternizado aí, na blogosfera, alimentando leitores com pelo menos duas resenhas geniais. E os leitores não se restringem à Unir ou comunidade. São de: Brasil> Portugal> Estados Unidos> Alemanha (deve ser a minha família)> Reino Unido> França> Rússia> Itália> Ucrânia (!)> Holanda. Pessoas desses lugares participam do cineclube numa outra modalidade: realidade virtual.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Se esconde - onde?

Mustafari
Senhor Mustafá
Sapinho
Sapo camaleônico

domingo, 29 de abril de 2012

Pteridófitas

Samambaia gigante

Exótica que vive embaixo da palmeira

Essa jogou filamentos pra fora do vaso

Essa mora no andar de baixo

Tipicamente amazônica, em busca da luz

Os dois andares de samambaias no mesmo vaso

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Revelado nas cartas

Dizem que as pessoas revelam sua personalidade no jogo de cartas.

* * *

Peter, Fritz, Frida e Ana jogavam Doppelkopf todos os sábados. Os locais de encontro eram rotativos: No primeiro sábado do mês, jogavam na casa de Fritz; no segundo, se alojavam no refeitório da empresa em que Peter trabalhava; no terceiro se reuniam na casa de Ana e no último sábado do mês jogavam na casa da mãe de Frida - que não jogava, mas sempre preparava uns tiragostos. Quando o mês tinha cinco sábados, passavam esse sábado na casa do Peter.

Aquele era o quinto sábado do mês. O caráter de exceção deixava os jogadores apreensivos. No entanto, suas características principais se mantinham: Peter era o sujeito que calculava quais cartas já tinham caído, planejava suas jogadas e interpretava o que os outros tinham na mão a partir do que deitavam na mesa. Fritz era sempre o perdedor. Calculava mal as suas chances, atirava-se a jogadas solo fadadas à ruína, não aproveitava bem os seus trunfos. Frida era tão competitiva no jogo, que se eximia de ter quaisquer outras ambições na vida. Conhecia todas as regras, variações e exceções, discutia com seus parceiros e comemorava cada jogada ganha como se fosse uma vitória. Ana era uma jogadora mediana. Ganhava e perdia, nunca figurava na ponta da lista classificatória. Ana tinha como estratégia ler os sinais da linguagem corporal de cada um. Sabia onde cada um alocava seus trunfos, entendia os olhares de quem olha para cartas boas, compreendia hesitações, tinha desenvolvido um inventário codificado de maneiras de depositar a carta na mesa.

Já jogavam fazia três horas, Peter estava ganhando, Fritz e Frida estavam empatados e Ana anunciou um solo. Bateu na mesa e anunciou que ganharia e que os seus adversários não fariam nem sessenta pontos. Fritz checou as suas cartas e perguntou qual seria o solo que ela queria jogar, porque ele também poderia jogar um solo. De damas. O solo que ele jogaria era de valetes, que é inferior, e por isso deixou passar. Frida, no entanto, se alegrou: segurava as três primeiras damas na mão.

Ana teria perdido o solo de lavada se não fosse a intervenção de Fritz:
- Mas Ana, como você vai jogar um solo de damas se eu tenho duas damas e quatro ases?
- Ué, eu tenho aqui três damas e dois ases acompanhados. Você acha que eu não consigo ganhar?
- A julgar pelas minhas cartas, não ganha, e quem vai fazer menos que sessenta pontos é você.
- Isso é uma ameaça?
- Ana, mostra as suas cartas.
- Como assim? Estou querendo jogar solo, não vou mostrar minhas cartas.
- Ana, o Peter quis jogar um solo de valetes, eu poderia arriscar um solo também, Frida está ansiosa, só esperando o jogo começar. Entenda os sinais. Você vai se dar mal. Mostre suas cartas, anda.
- Mas eu preciso ganhar esse solo, veja a minha situação, sou a perdedora da noite. Tenha bom coração, você precisa entender, já estamos perto de encerrar a noite de hoje e eu estou perdendo vergonhosamente, como é que eu vou pra casa com esse resultado? Eu preciso fazer alguma coisa, e a única coisa que eu posso fazer no momento para reverter a minha situação lastimável é ganhar um solo em que anuncio que vocês vão perder com menos de sessenta pontos. Se eu dissesse que vocês perderiam com menos de trinta ou mesmo com zero, eu estaria fantasiando, mas desse jeito, acho que consigo reverter a minha situação. Você precisa entender a minha situação.
- Se as suas cartas não permitirem que você ganhe, você não vai ganhar.

Todos sentiram vergonha pela ingenuidade de Ana, menos ela, que embaralhou todas as cartas e distribuiu uma nova rodada.

* * *

João jogava paciência. Costumava jogar ouvindo música, para não perder a noção do tempo gasto no jogo. Quando acabava o CD, sabia que aproximadamente uma hora tinha se passado. Às vezes, contudo, não percebia que o CD tinha acabado. Jogava sempre no modo mais difícil, o que implicava em certos rituais: antes de pedir mais cartas, fazia o computador checar se não tinha perdido nenhuma oportunidade, costumava desfazer  jogadas para checar o conteúdo de cartas encobertas e tinha estabelecido que faria sempre no máximo três tentativas de ganhar o mesmo jogo. Era comum que ganhasse na terceira tentativa.

Não jogava pelo prazer de ganhar, nem para ocupar seu tempo. Tinha medo de demenciar. Havia um histórico de Alzheimer na família. Além disso, ele já se flagrara falando sozinho. Jogava paciência para exercitar o cérebro. Para exercitar a mente, lia romances e fazia palavras cruzadas. Tinha ouvido dizer que os sintomas da demência eram mais amenos em pessoas letradas que mantinham a cabeça funcionando sempre. Ora, enquanto jogava paciência, João cantava e pensava nos movimentos das cartas.

Nas duas tentativas anteriores, o computador tinha dado mensagem de que era impossível continuar o jogo, porque mais nenhum movimento podia ser feito. Essa terceira tentativa também estava travada e a música já tinha acabado fazia tempo. João não tinha conseguido formar nenhuma sequência completa ainda, para liberar espaço. Já tinha feito e desfeito vários movimentos e estava prestes a pedir cartas pela última vez. Porém, antes de pedir mais cartas, verificou se não havia nenhuma possibilidade ignorada pelos seus olhos cansados. O computador indicou um movimento que descobriria uma carta. Como ele não tinha visto isso? Fez o movimento e uma nova carta se abriu.

Era um coringa. Olhou desconfiado para o computador. Como assim, um coringa num jogo de paciência? Esse computador está trapaceando. E se eu aceitar esse coringa, estarei trapaceando contra mim mesmo. Tudo misturou-se na sua mente, João: os jogos, as pessoas, os narradores.

Abrindo





segunda-feira, 23 de abril de 2012

Paredes flusserianas

"Paredes são disposições para a distinção entre espaços públicos e privados. Essa diferença, obtida graças à parede, é primordial, pois a vida humana é um oscilar entre o público e o privado. O ser humano é um habitante de espaços interiores e um experimentador de espaços exteriores. Para permitir esse oscilar, as paredes têm de ser levantadas. Tem-se de introduzir algumas aberturas (portas), por meio das quais saímos e voltamos, e outras (as janelas), por meio das quais aquilo que é público é visto como privado e aquilo que é privado é inspecionado como público." (p. 109)

"(...) a parede de uma biblioteca distingue-se basicamente de todas as outras." (p. 109)

"Nenhuma parede - exceto a parede da biblioteca - pode provocar uma revolução." (p. 110)


FLUSSER, V. A escrita: Há futuro para a escrita? Tradução do alemão por Murilo Jardelino da Costa. São Paulo: Annablume, 2010.

domingo, 22 de abril de 2012

Paisagem cambiante


Balneário Rio Preto

Os rios ainda estão cheios, apesar das chuvas terem diminuído consideravelmente.
Paga-se R$ 5,- para entrar e pode-se passar o dia no balneário.
O mais legal de lá é o caminho até lá.
Tem a ponte que passa por cima do que aqui chamam de cachoeira.
Tem a força da água.
Tem as dificuldades do caminho.
Foto: Fran-Fran
E tem as notícias do buraco na BR: ponte metálica do Exército desativada em cima e desvio embaixo.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A muda das mangueiras

A impressão que eu tenho é que o pé de manga trocou sua folhagem: atirou as folhas velhas ao chão e fez crescer folhas novas. O impressionante é que todas as mangueiras da região fizeram a mesma coisa.

domingo, 15 de abril de 2012

Elas e suas línguas

Lisa conheceu Luis numa livraria. Logo que o viu, entendeu que ele não era francês. Não era a sua cor que o denunciava, nem suas roupas, nem o jeito de folhear os livros. Era o olhar que era diferente. Era ao mesmo tempo curioso, ansioso e melancólico. Lisa não percebeu de imediato que ele falava francês com sotaque, porque o francês dela ainda não era fluente.

O namoro começou naturalmente. Lisa era russa, Luis era brasileiro e os dois estavam apaixonados em Paris. A língua franca era o francês, que ela ainda estava aprendendo num curso noturno. O namoro virou amor quando ele pediu que ela lhe ensinasse russo. O alfabeto, os ditongos e o acúmulo de consoantes o fascinavam. Era comum que, nas horas vagas, Luis transcrevesse cardápios de restaurantes delivery para o alfabeto cirílico.

Depois de meio ano, Lisa fez uma cópia das chaves de seu apartamento para Luis e ele lhe deu uma cópia das chaves de seu apartamento. Luis passou a transliterar frases em português para o russo. Aos poucos, Lisa foi entrando na língua portuguesa. Seus conhecimentos de francês (cada vez mais fluente) lhe ajudavam a se orientar na língua de seu namorado.

Chegou um pacote do Brasil que Lisa recebeu enquanto Luis estava no trabalho. Ela ficou especialmente curiosa em relação ao remetente, porque não era nenhum familiar do Luis. E ela reparou que seu namorado ficou sem jeito de abrir o pacote. O conteúdo era um livro e uma carta manuscrita, ambos em português. Luis contou que o livro e a carta eram de Laís, uma amiga brasileira com a qual se correspondera por escrito por algum tempo no passado. Lisa reparou que o livro de mais de duzentas páginas foi devorado por Luis em três dias. Reparou também que Luis visitava outros sites além dos jornais eletrônicos. Um site sistematicamente frequentado era o blog da Laís.

Para comemorar o primeiro ano de namoro, viajaram para São Petersburgo. Luis conheceu os familiares de Lisa e todos os seus amigos. Quando viajaram juntos a São Paulo, Lisa perguntou se visitariam a Laís. Luis respondeu que não eram tão amigos assim. Quando retornaram a Paris, chegou o quarto livro de Laís naquele ano.

O tempo de Lisa em Paris se acabou e ela teve de voltar para São Petersburgo. Apesar do amor, Luis não a acompanhou. Tinha feito sua vida em Paris e foi combinado que manteriam contato por e-mail, skype e viagens ocasionais. Além de sentir falta de Luis, Lisa tinha saudades da língua portuguesa. O lugar que ela escolheu para manter viva a língua dentro de si foi o blog da Laís. Reconheceu o Luis em algumas estórias que não sabia se eram reais ou ficção. Curiosa para entender a relação entre Laís e Luis, incorporou o blog da outra aos seus hábitos de leitura.

* * *

Os piores amores são os platônicos. São demasiadamente longos porque a imaginação preenche as lacunas da convivência. Laís sabia disso, e enquanto não se apaixonava por nenhum cabeludo ao alcance, mantinha-se ligada a Luis. O fio virtual que os ligava era tecido e mantido por ela.

No início, quando ele tinha saído do país e ela também, o fio era forte. Sempre que ela lhe escrevia, fazia perguntas para manter o contato. Quando ele demorava a responder, ela acionava a imaginação. Quando ele respondia, ela entrava em estado de graça. A distância não importava, contanto que o fio se mantivesse visível. Luis era a sua conexão com o mundo. Para Luis, Laís era a sua conexão com sua língua materna.

Não era a primeira vez que ele saía do Brasil, nem a primeira vez que relatava suas experiências via internet, mas a primeira vez que o fazia no formato de blog. Como tinha ido a um lugar que aparecia estampado em todas as revistas de turismo e promessas de prosperidade, logo formou um grande círculo de leitores. Sua principal leitora era Laís. Luis passou a gostar de escrever, passou a fotografar para postar, passou a viver para relatar. Acostumou-se a escrever todas as noites, e quando não tinha nenhum fato para narrar, puxava da memória estórias misturadas com fantasia. Laís, que sempre tinha gostado de ler e escrever, embarcou também nesse novo suporte de textos. Criou o seu blog para relatar as experiências vividas no estrangeiro e passou a interagir com Luis através de seu blog. Pelas estatísticas, ela sabia se Luis visitava seu blog; e ele identificava quantas vezes ela acessava o dele.

No meio, o fio foi ganhando outra qualidade. Não era mais grosso e forte, mas parecia ser tecido de dois lados. Tanto Luis como Laís não estavam mais nos países em que começaram a escrever seus blogs - que foram abandonados. Ambos criaram novos blogs para pensar a vida nesse outro lugar do mundo, mas apenas a Laís escrevia com constância. Luis mergulhou na leitura. Passou a frequentar livrarias, teve até que comprar estantes de livros para acomodar os livros que se espalhavam pelo seu apartamento. Lia muitos livros para passar o tempo e o blog da Laís para se distrair. Agora: os livros que Laís lhe mandava pelo correio eram lidos com as vísceras, não com os olhos. Nesses momentos, ele tomava a iniciativa de escrever para ela sobre os livros, seus pensamentos e sua vida em Paris.

No fim, o fio foi desaparecendo. Mergulhou no mar do trabalho em que os dois se meteram. Ele nunca mais escreveu, ela deixou de lhe fazer perguntas. Quando ela intencionava mandar um livro maravilhoso para ele, perguntava primeiro se ele já o tinha lido. Tinha. E mesmo lendo um atrás do outro, ela demorava a se apaixonar por outro livro. Laís continuava escrevendo em seu blog e controlando a audiência pelas estatísticas. Reparou que de repente muitos acessos ao seu blog vinham da Rússia e ficou se perguntando quem, naquele país, se ligava nos textos dela.

sábado, 14 de abril de 2012

Virtualmente

Posso assumir qualquer identidade:
posso me apresentar como homem ou mulher
posso me dar uma outra idade
posso me dar outro nome
posso me esconder no anonimato.

Virtualmente
posso me disfarçar através da linguagem.
Posso minimizar o uso dos sinais de pontuação
posso abreviar palavras de maneira pouco comum
posso subverter a ortografia das palavras
posso adotar estruturas frasais pouco ortodoxas.

Mas
quem não tiver domínio da língua escrita
não consegue esconder sua identidade na internet.
Porque a esmagadora maioria do que se faz nesse espaço
virtual
vem por escrito.
A escrita se aprende na escola
e se pratica ao longo da vida.

E aí a liberdade virtual
se choca com a realidade escolar.
No espaço virtual
só tem liberdade quem estiver bem ancorado na escrita.

(Lendo Marcuschi de dia e Flusser de noite)
Foto roubada de algum lugar da internet

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Não buzine

Em seu livro "Fé em Deus e pé na tábua", Roberto DaMatta menciona uma gramática da buzina. Se pensarmos um pouco, lembraremos da buzina que chama a moça que demora pra se arrumar, da buzina que chama atenção do da frente que o farol abriu, ainda tem a buzinha que cumprimenta, a buzinada que pretende constranger o outro etc.

Normalmente, no entanto, a buzina serve como canal de reclamação. A buzina grita: "sai da frente", "anda logo", "presta atenção no trânsito, mané, você não está sozinho". E é essa reclamação do tipo "seu lugar não é na minha frente" que ciclista ouve quando buzinam. Na maioria das vezes, quando se buzina para ciclistas na cidade, o motorista deveria enfiar o pé no freio, não a mão na buzina. E quando o ciclista trafega pelo acostamento, na estrada, buzinam em cima, assustando o ciclista.

Se a intenção era cumprimentar a professora na bicicleta, sinto muito, ela não sabe quem se esconde no carro ou capacete que passou a 100 km por hora. Mesmo se soubesse, ela não teria tempo de cumprimentar de volta, porque a relação de velocidades é desproporcional. Se a intenção era elogiar a boa forma da ciclista, sinto muito, porque ela se assustou. Toda a musculatura dela se contraiu e a direção da bicicleta foi alterada por alguns milisegundos.

Como seriam as relações no trânsito, se não existisse a buzina? As pessoas gritariam impropérios? Abririam os vidros dos carros? As pessoas diminuiriam a velocidade?

terça-feira, 10 de abril de 2012

Vai mal das pernas

Dois professores de uma faculdade particular de Porto Velho conversando sobre a situação da Unir:
- A Unir vai mal das pernas. Teve a greve, mas continua na mesma.
- Anda tão mal, que tem até uma professora que vai pra lá de bicicleta porque não tem carro.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Medicinal

Ele veio de bicicleta, seus olhos já pareciam afetados pela catarata e suas rugas indicavam ansiedade. Me pediu um pedaço de mandacaru pra fazer remédio. Explicou que a velha tava mal e que ia fazer um remédio bom pro fígado e pros rins. Disse que já tinha rodado a cidade toda atrás de mandacaru e me explicou como se prepara o remédio. Perguntei se ele acreditava em noni. Ele disse que sim, e que se eu precisasse, traria noni pra mim. Agradeci e apontei pro meu pé de noni.

Quando contei a história pro Narcísio (biólogo), ele se exasperou: por que as pessoas da Amazônia confiam tanto no poder de cura de plantas exóticas como noni e mandacaru, quando têm outra planta nativa que cura tudo? O ipê amarelo é bom pra tudo. Dessa eu não sabia: a mim alegrava os olhos e o coração. Não sabia de seus poderes medicinais.

domingo, 8 de abril de 2012

Páscoa com peixe

Fui na feira lá da Jacy-Paraná, mas não vi nenhuma barraca de peixe. Fui no Araújo, o supermercado mais chique de Porto Velho, mas não tinha filé de Dourado. Heliene achou normal não ter peixe na páscoa. Não era bacalhau na sexta-feira santa? Mandei o Marcelo pro mercado e ele voltou com um peixe congelado que ele nunca tinha visto na vida. Panda? Panga. Ninguém botou fé no peixe, mas ficou uma delícia, ó.
Francis, Marcelo, Cynthia, Narcísio, Edinaldo
Heloisa
De chapéu novo

sexta-feira, 6 de abril de 2012

34

Uma pessoa
Dois gatos
Terceiro ano em Porto Velho
Quatro acidentes com bicicleta
Cinco vezes casa alagada em Porto Velho
Seis horas de diferença daqui pra lá
Sete anos de Unicamp
Oito pessoas para o almoço de domingo
Nove anos fumante
Dez anos usando a bicicleta como solução de transporte
Onze sementes na mexerica ponkã
Doze euros de telefone com o Philip
Treze anos que eles estão morando lá
Catorze anos motorista
Quinze cicatrizes nas mãos
Dezesseis anos professora
.
.
.
34 anos hoje

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Igual

Não estourava pneu desde a greve.
Não parei logo porque
Não tinha sombra a
Não ser no portão da casa com o cachorro. Os moradores
Não se incomodaram comigo: olhavam de longe.
Não demorei pra trocar a câmara, mas
Não entendi por que a válvula saiu na minha mão.
Não acertei logo encaixar a roda, sempre a roda de trás.
Não me importei com as mãos pretas, mas quando cheguei
Não tinha sabonete no banheiro.
Não mudou muita coisa desde a greve.

sábado, 31 de março de 2012

sexta-feira, 30 de março de 2012

Na bolha de lata e vidro

Ninno viajou e deixou o seu carro com o Narcísio que viajou e deixou o carro (do Ninno) comigo por um dia e meio. Não andei muito com a carro, mesmo porque (i) me dá agonia de ver o mostrador de combustível indicando sempre menos gasosa no tanque e (ii) tenho que desviar quatro (!!) rodas dos buracos de Porto Velho.
Mas o que mais me chamou atenção dessa vez (até parece que estou relatando uma experiência exótica ao narrar as sensações atrás do volante) foi que eu via mais a minha cara no espelho retrovisor do que a cara dos outros motoristas, escondidos atrás de vidros escurecidos. Assim fica claro que o carro é um grande promotor do individualismo.

terça-feira, 27 de março de 2012

Aluguel em Porto Velho

Em dois anos, morei em 3 casas em Porto Velho. A primeira alagava e saí dela porque não vi condições de continuar ali. Na segunda, havia goteiras e muitas telhas ruins que não se produz mais. Quando fiz orçamento para trocar o telhado, a proprietária disse que queria derrubar a casa. Me forçou a sair, mas a casa continua lá. A terceira, que habito no momento, alagou. O piso da área (chamaria de garagem se tivesse carro) começou a rachar. Informei a proprietária do ocorrido. Quinze dias depois, aparecem potenciais compradores desta casa. Liguei pra imobiliária apavorada. A mulher responsável pelo aluguel desta casa não sabia de nada. Mas eu olhei no site da imobiliária e constatei que a proprietária colocou a casa à venda.

Sem me avisar.

Qual é a dessas proprietárias de casa velha? Não se pode apontar os defeitos da casa que elas logo te jogam pra fora da casa! Como pode a minha vida ser determinada por locadores desse naipe?

domingo, 25 de março de 2012

quarta-feira, 21 de março de 2012

Sobre ficar adulto

Acho que a gente se convence de que virou adulto quando não entende mais as crianças. Hoje, na saída da escola, um grupo de crianças se ajuntou na sombra da sibipiruna na frente de casa. Desligaram o disjuntor e fiquei sem energia. Riam enquanto corriam. Quando saí na rua, uma retardatária me fez sinal de que não tinha sido ela a desligar a força. Não entendo a graça de aborrecer desconhecidos.

Logo em seguida veio a chuva, raios e trovões. Me senti vingada nos trovões imensos, densos e assustadores. Pena que os raios provocaram o corte de energia.

Ao anoitecer, de maneira totalmente inadvertida e aparentemente desmotivada, caiu a força de novo. Fui ver o disjuntor, não era travessura de criança. Era a sorte de morar nessa parte do Cohab.

terça-feira, 20 de março de 2012

Cajarana

No sacolão, decidi levar cajarana - que é uma fruta que agora está aparecendo muito nas vendinhas. Pedi pra moça do caixa me explicar como se come.
Ela disse:
- Descasca ela. A casca é bem fininha. Aí você come só em volta do espinho. É gostosinha, pena que eu não posso comer (e apontou para o aparelho nos dentes).
Descasquei, percebi que era fibrosa, durinha, azedinha e doce. Depois da terceira mordida, entendi a dificuldade de quem usa aparelho para comer cajarana: trata-se de esculpir a carne com os dentes por entre os espinhos.

quinta-feira, 15 de março de 2012

A pele

Quando a gente tava lá no igarapé, me chamou atenção que todo mundo entrava na água de roupa. Que os homens entrem de bermuda na água, estou acostumada a ver, mas as mulheres de camiseta/ regata e short? Havia gente usando a parte de cima do biquini mais um short. Lembro de ter visto uma moça de maiô, mas ninguém de biquini. Comentei essa observação com o Ninno e ele disse que os amazonenses tinham vergonha do corpo. Minha intuição me dizia que o problema das mulheres no igarapé eram os pêlos, não as curvas ou celulites.

Outra coisa que me chamou atenção foi a competição feroz em torno do som. As pessoas traziam caixas de som enormes para impor sua música aos outros. Um do lado do outro, havia pelo menos três poluidores sonoros tocando a todo vapor. E tudo coisa ruim!

Em casa, dei uma folheada no Gesten, do Flusser. Esse é um livro sobre a fenomenologia de diversos gestos (de escrever, fotografar, amar, telefonar, procurar, fazer etc.) segundo o que ele define como "gestos". Li dois capítulos: o gesto de se barbear (Die Geste de Rasierens) e o gesto de ouvir música (Die Geste des Musikhörens).

Rasieren tem mais a ver com o instrumento usado para cortar pêlos do que com o tipo de pêlos a serem eliminados (que é o caso de barbear, em que os pêlos da barba são cortados). Do mesmo modo, depilar não diz sobre quais pêlos serão retirados da superfície da pele. Mas o texto não era sobre depilação, como eu deveria ter imaginado. Na Europa, ao menos na de Flusser, as mulheres não têm mesmo o costume de se depilar. E assim rasieren assume as feições de barbear. Achei uma pena Flusser não falar das modas depilatórias a que tanto mulheres como homens estão sujeitos (em Porto Velho, muitos homens tiram a sobrancelha, por exemplo) - dependendo do tempo e do espaço. No tempo e espaço de Flusser, apenas a barba é objeto direto de rasieren.

Para Flusser, o gesto de barbear-se não é um ato de mostrar o rosto, de expor o queixo ao sol e vento, de limpar a cara. Para ele, barbear-se é um gesto de evidenciar os limites entre o eu e o mundo. A pele é o órgão que agrupa nossa identidade corpórea, separando-nos do mundo exterior. Misturar-se com o meio seria natural (barba), ao passo que barbear-se seria artificial.

O outro capítulo, sobre ouvir música, igualmente trata da pele. Existe um órgão específico para a audição, mas quem absorve as ondas sonoras é o corpo como um todo. Segundo Flusser, quem ouve música concentra as ondas sonoras no seu corpo e então a música toma o corpo. A pele funciona como uma membrana permeável e a massagem sonora promove a união entre o espírito do ouvinte e de quem envia a mensagem musical. A pele, que no capítulo anterior funcionava como divisa entre eu e o mundo, agora funciona como órgão do conexão, que permite ao ser humano transcender seus limites.

Seria interessante saber o que Flusser teria a dizer sobre todos aqueles que impõem sua música aos outros (celular ou rádio tocando no ônibus, som de carro no igarapé, evagélicos cantando no microfone etc.) e por que eu tenho sempre a sensação de estar sendo violentada quando sou obrigada a ouvir músicas que eu não quero ouvir. Seria interessante estudar a relação entre o tipo de ambiente (igarapé, balneário em que se paga entrada, clube, piscina de natação) de banho na Amazônia e os trajes de banho das mulheres amazônidas. É possível que haja uma relação entre ambientes naturais e pêlos. Mesmo entre os homens que se depilam deve haver uma relação com ambientes naturais e urbanos: os metrossexuais vivem na cidade, não no mato.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Abre aspas que eu quero passar

O ponto de interrogação foi logo perguntando que negócio era esse de dividir os sinais de pontuação entre aqueles que marcam pausas e aqueles que marcam melodia. Indignado, questionou a Gramática Tradicional se a única função dos sinais de pontuação era refletir a fala. O ponto de exclamação gritou lá de longe que o pessoal da Literatura já tinha superado há tempos esse papo de que a escrita representa a fala. Até fez um parênteses e lembrou que historicamente os sinais de pontuação tinham a função de ajudar a orientar a leitura em voz alta; mas hoje a escrita pode ser considerada um sistema autônomo de criação. Só não abriu aspas para citar alguém, porque não tinham nenhum livro à mão.

O ponto de interrogação quis colocar um ponto final na conversa com o argumento de que tanto pausa como melodia mudam de uma língua para outra - tanto é que alunos de língua estrangeira nunca "entendem" a curva entonacional das perguntas na língua que estão aprendendo - e que os sinais de pontuação igualmente variam de língua para língua. O melhor exemplo eram os sinais de interrogação e exclamação invertidos que os hispanohablantes usam na escrita para anunciar perguntas e exclamações. Além disso, algumas línguas que são escritas da direita para a esquerda usam o sinal de interrogação espelhado, não invertido.

Aflito com o argumento na ponta da língua, o ponto de exclamação atravessou a fala do outro:
- E uma pergunta não pode ser descrita apenas como uma questão de "melodia" da frase! Uma pergunta altera a estrutura de um diálogo. Se alguém faz uma pergunta, abre-se espaço para uma resposta. Outra pessoa/ personagem pode tomar a palavra e responder.

A Gramática Tradicional se mostrou reticente. Até então seus usuários tinham aceitado que as vírgulas servem para respirar, que o ponto final marca o fim de uma sentença e que os outros sinais servem sobretudo para marcar a melodia e portanto não eram vitais para o texto.

- Não são vitais, vírgula! - exasperou-se o ponto de exclamação. Sentou-se em cima do ponto e respirou fundo. Arregimentou os outros sinais de pontuação em volta de si e fez um discurso sobre o papel sintático, semântico e fonético dos sinais de pontuação.

:o)          ):0          ; )          ->          [ ]          "_"        

A Gramática Tradicional, conservadora como é, nem ficou pra ouvir. Foi saciar a ansiedade dos famintos por regras e exceções.

Sítio e igarapé

Era domingo e eu tava à toa
Ninno passou em casa 
e nos levou pro sítio dos pais da Manu
Passamos pelo buraco na BR e nos perdemos nas linhas
Quando finalmente chegamos, esquentaram comida pra nós
Toda a família da Manu se ajuntou no sítio para se despedir dela
Depois de comer, quase todos mergulharam na água gelada
A disputa violenta para ensurdecer o mundo não aparece: cada família trazia o seu som amplificado