sexta-feira, 27 de abril de 2012

Revelado nas cartas

Dizem que as pessoas revelam sua personalidade no jogo de cartas.

* * *

Peter, Fritz, Frida e Ana jogavam Doppelkopf todos os sábados. Os locais de encontro eram rotativos: No primeiro sábado do mês, jogavam na casa de Fritz; no segundo, se alojavam no refeitório da empresa em que Peter trabalhava; no terceiro se reuniam na casa de Ana e no último sábado do mês jogavam na casa da mãe de Frida - que não jogava, mas sempre preparava uns tiragostos. Quando o mês tinha cinco sábados, passavam esse sábado na casa do Peter.

Aquele era o quinto sábado do mês. O caráter de exceção deixava os jogadores apreensivos. No entanto, suas características principais se mantinham: Peter era o sujeito que calculava quais cartas já tinham caído, planejava suas jogadas e interpretava o que os outros tinham na mão a partir do que deitavam na mesa. Fritz era sempre o perdedor. Calculava mal as suas chances, atirava-se a jogadas solo fadadas à ruína, não aproveitava bem os seus trunfos. Frida era tão competitiva no jogo, que se eximia de ter quaisquer outras ambições na vida. Conhecia todas as regras, variações e exceções, discutia com seus parceiros e comemorava cada jogada ganha como se fosse uma vitória. Ana era uma jogadora mediana. Ganhava e perdia, nunca figurava na ponta da lista classificatória. Ana tinha como estratégia ler os sinais da linguagem corporal de cada um. Sabia onde cada um alocava seus trunfos, entendia os olhares de quem olha para cartas boas, compreendia hesitações, tinha desenvolvido um inventário codificado de maneiras de depositar a carta na mesa.

Já jogavam fazia três horas, Peter estava ganhando, Fritz e Frida estavam empatados e Ana anunciou um solo. Bateu na mesa e anunciou que ganharia e que os seus adversários não fariam nem sessenta pontos. Fritz checou as suas cartas e perguntou qual seria o solo que ela queria jogar, porque ele também poderia jogar um solo. De damas. O solo que ele jogaria era de valetes, que é inferior, e por isso deixou passar. Frida, no entanto, se alegrou: segurava as três primeiras damas na mão.

Ana teria perdido o solo de lavada se não fosse a intervenção de Fritz:
- Mas Ana, como você vai jogar um solo de damas se eu tenho duas damas e quatro ases?
- Ué, eu tenho aqui três damas e dois ases acompanhados. Você acha que eu não consigo ganhar?
- A julgar pelas minhas cartas, não ganha, e quem vai fazer menos que sessenta pontos é você.
- Isso é uma ameaça?
- Ana, mostra as suas cartas.
- Como assim? Estou querendo jogar solo, não vou mostrar minhas cartas.
- Ana, o Peter quis jogar um solo de valetes, eu poderia arriscar um solo também, Frida está ansiosa, só esperando o jogo começar. Entenda os sinais. Você vai se dar mal. Mostre suas cartas, anda.
- Mas eu preciso ganhar esse solo, veja a minha situação, sou a perdedora da noite. Tenha bom coração, você precisa entender, já estamos perto de encerrar a noite de hoje e eu estou perdendo vergonhosamente, como é que eu vou pra casa com esse resultado? Eu preciso fazer alguma coisa, e a única coisa que eu posso fazer no momento para reverter a minha situação lastimável é ganhar um solo em que anuncio que vocês vão perder com menos de sessenta pontos. Se eu dissesse que vocês perderiam com menos de trinta ou mesmo com zero, eu estaria fantasiando, mas desse jeito, acho que consigo reverter a minha situação. Você precisa entender a minha situação.
- Se as suas cartas não permitirem que você ganhe, você não vai ganhar.

Todos sentiram vergonha pela ingenuidade de Ana, menos ela, que embaralhou todas as cartas e distribuiu uma nova rodada.

* * *

João jogava paciência. Costumava jogar ouvindo música, para não perder a noção do tempo gasto no jogo. Quando acabava o CD, sabia que aproximadamente uma hora tinha se passado. Às vezes, contudo, não percebia que o CD tinha acabado. Jogava sempre no modo mais difícil, o que implicava em certos rituais: antes de pedir mais cartas, fazia o computador checar se não tinha perdido nenhuma oportunidade, costumava desfazer  jogadas para checar o conteúdo de cartas encobertas e tinha estabelecido que faria sempre no máximo três tentativas de ganhar o mesmo jogo. Era comum que ganhasse na terceira tentativa.

Não jogava pelo prazer de ganhar, nem para ocupar seu tempo. Tinha medo de demenciar. Havia um histórico de Alzheimer na família. Além disso, ele já se flagrara falando sozinho. Jogava paciência para exercitar o cérebro. Para exercitar a mente, lia romances e fazia palavras cruzadas. Tinha ouvido dizer que os sintomas da demência eram mais amenos em pessoas letradas que mantinham a cabeça funcionando sempre. Ora, enquanto jogava paciência, João cantava e pensava nos movimentos das cartas.

Nas duas tentativas anteriores, o computador tinha dado mensagem de que era impossível continuar o jogo, porque mais nenhum movimento podia ser feito. Essa terceira tentativa também estava travada e a música já tinha acabado fazia tempo. João não tinha conseguido formar nenhuma sequência completa ainda, para liberar espaço. Já tinha feito e desfeito vários movimentos e estava prestes a pedir cartas pela última vez. Porém, antes de pedir mais cartas, verificou se não havia nenhuma possibilidade ignorada pelos seus olhos cansados. O computador indicou um movimento que descobriria uma carta. Como ele não tinha visto isso? Fez o movimento e uma nova carta se abriu.

Era um coringa. Olhou desconfiado para o computador. Como assim, um coringa num jogo de paciência? Esse computador está trapaceando. E se eu aceitar esse coringa, estarei trapaceando contra mim mesmo. Tudo misturou-se na sua mente, João: os jogos, as pessoas, os narradores.

2 comentários:

M disse...

na, du hast wohl Lust, mal wieder Doppelkopf zu spielen, was? Schön die Blume. So eine habe ich auch in Rio Branco gesehen in der UFAC.
Diese Woche hat pa Urlaub und Ulla ist da. Wir arbeiten jeden Tag im Haus und im Garten, pflanzen und gießen, reißen alte Tapeten von den Wänden und freuen uns über die Fortschritte der Tischler. Abends sind wir immer ziemlich kaputt. Bald stelle ich dir wieder Bilder in meinen Blog.
Liebe Grüße!

iglou disse...

Ja, ich vermisse Doppelkopfabende!! Die Blume wird nicht weiter fotografiert, weil Mustafá sie umgeknickt hat. Eigentlich wollte ich ein Film machen, ging aber in die Hose.
Freut mich, dass euch die Renovierung Spass macht.