domingo, 15 de abril de 2012

Elas e suas línguas

Lisa conheceu Luis numa livraria. Logo que o viu, entendeu que ele não era francês. Não era a sua cor que o denunciava, nem suas roupas, nem o jeito de folhear os livros. Era o olhar que era diferente. Era ao mesmo tempo curioso, ansioso e melancólico. Lisa não percebeu de imediato que ele falava francês com sotaque, porque o francês dela ainda não era fluente.

O namoro começou naturalmente. Lisa era russa, Luis era brasileiro e os dois estavam apaixonados em Paris. A língua franca era o francês, que ela ainda estava aprendendo num curso noturno. O namoro virou amor quando ele pediu que ela lhe ensinasse russo. O alfabeto, os ditongos e o acúmulo de consoantes o fascinavam. Era comum que, nas horas vagas, Luis transcrevesse cardápios de restaurantes delivery para o alfabeto cirílico.

Depois de meio ano, Lisa fez uma cópia das chaves de seu apartamento para Luis e ele lhe deu uma cópia das chaves de seu apartamento. Luis passou a transliterar frases em português para o russo. Aos poucos, Lisa foi entrando na língua portuguesa. Seus conhecimentos de francês (cada vez mais fluente) lhe ajudavam a se orientar na língua de seu namorado.

Chegou um pacote do Brasil que Lisa recebeu enquanto Luis estava no trabalho. Ela ficou especialmente curiosa em relação ao remetente, porque não era nenhum familiar do Luis. E ela reparou que seu namorado ficou sem jeito de abrir o pacote. O conteúdo era um livro e uma carta manuscrita, ambos em português. Luis contou que o livro e a carta eram de Laís, uma amiga brasileira com a qual se correspondera por escrito por algum tempo no passado. Lisa reparou que o livro de mais de duzentas páginas foi devorado por Luis em três dias. Reparou também que Luis visitava outros sites além dos jornais eletrônicos. Um site sistematicamente frequentado era o blog da Laís.

Para comemorar o primeiro ano de namoro, viajaram para São Petersburgo. Luis conheceu os familiares de Lisa e todos os seus amigos. Quando viajaram juntos a São Paulo, Lisa perguntou se visitariam a Laís. Luis respondeu que não eram tão amigos assim. Quando retornaram a Paris, chegou o quarto livro de Laís naquele ano.

O tempo de Lisa em Paris se acabou e ela teve de voltar para São Petersburgo. Apesar do amor, Luis não a acompanhou. Tinha feito sua vida em Paris e foi combinado que manteriam contato por e-mail, skype e viagens ocasionais. Além de sentir falta de Luis, Lisa tinha saudades da língua portuguesa. O lugar que ela escolheu para manter viva a língua dentro de si foi o blog da Laís. Reconheceu o Luis em algumas estórias que não sabia se eram reais ou ficção. Curiosa para entender a relação entre Laís e Luis, incorporou o blog da outra aos seus hábitos de leitura.

* * *

Os piores amores são os platônicos. São demasiadamente longos porque a imaginação preenche as lacunas da convivência. Laís sabia disso, e enquanto não se apaixonava por nenhum cabeludo ao alcance, mantinha-se ligada a Luis. O fio virtual que os ligava era tecido e mantido por ela.

No início, quando ele tinha saído do país e ela também, o fio era forte. Sempre que ela lhe escrevia, fazia perguntas para manter o contato. Quando ele demorava a responder, ela acionava a imaginação. Quando ele respondia, ela entrava em estado de graça. A distância não importava, contanto que o fio se mantivesse visível. Luis era a sua conexão com o mundo. Para Luis, Laís era a sua conexão com sua língua materna.

Não era a primeira vez que ele saía do Brasil, nem a primeira vez que relatava suas experiências via internet, mas a primeira vez que o fazia no formato de blog. Como tinha ido a um lugar que aparecia estampado em todas as revistas de turismo e promessas de prosperidade, logo formou um grande círculo de leitores. Sua principal leitora era Laís. Luis passou a gostar de escrever, passou a fotografar para postar, passou a viver para relatar. Acostumou-se a escrever todas as noites, e quando não tinha nenhum fato para narrar, puxava da memória estórias misturadas com fantasia. Laís, que sempre tinha gostado de ler e escrever, embarcou também nesse novo suporte de textos. Criou o seu blog para relatar as experiências vividas no estrangeiro e passou a interagir com Luis através de seu blog. Pelas estatísticas, ela sabia se Luis visitava seu blog; e ele identificava quantas vezes ela acessava o dele.

No meio, o fio foi ganhando outra qualidade. Não era mais grosso e forte, mas parecia ser tecido de dois lados. Tanto Luis como Laís não estavam mais nos países em que começaram a escrever seus blogs - que foram abandonados. Ambos criaram novos blogs para pensar a vida nesse outro lugar do mundo, mas apenas a Laís escrevia com constância. Luis mergulhou na leitura. Passou a frequentar livrarias, teve até que comprar estantes de livros para acomodar os livros que se espalhavam pelo seu apartamento. Lia muitos livros para passar o tempo e o blog da Laís para se distrair. Agora: os livros que Laís lhe mandava pelo correio eram lidos com as vísceras, não com os olhos. Nesses momentos, ele tomava a iniciativa de escrever para ela sobre os livros, seus pensamentos e sua vida em Paris.

No fim, o fio foi desaparecendo. Mergulhou no mar do trabalho em que os dois se meteram. Ele nunca mais escreveu, ela deixou de lhe fazer perguntas. Quando ela intencionava mandar um livro maravilhoso para ele, perguntava primeiro se ele já o tinha lido. Tinha. E mesmo lendo um atrás do outro, ela demorava a se apaixonar por outro livro. Laís continuava escrevendo em seu blog e controlando a audiência pelas estatísticas. Reparou que de repente muitos acessos ao seu blog vinham da Rússia e ficou se perguntando quem, naquele país, se ligava nos textos dela.

3 comentários:

Mazu disse...

Gostei muito, muito deste texto. Beijo

Ulla disse...

Wirklich eine sehr schön geschriebene Geschichte. Wieviel Autobiografie ist da drin? Aber das darf frau die Autorin ja nicht fragen. Abraços

iglou disse...

Valeu, Mazu!

Oh, Mann, Ulla, ich habe echt lange gebraucht, bis ich das "frau" in deinem Satz verstanden habe. Wie du siehst, es geht bei Geschichten nicht immer um die Wahrheit, nicht wahr?