quinta-feira, 12 de abril de 2012

Não buzine

Em seu livro "Fé em Deus e pé na tábua", Roberto DaMatta menciona uma gramática da buzina. Se pensarmos um pouco, lembraremos da buzina que chama a moça que demora pra se arrumar, da buzina que chama atenção do da frente que o farol abriu, ainda tem a buzinha que cumprimenta, a buzinada que pretende constranger o outro etc.

Normalmente, no entanto, a buzina serve como canal de reclamação. A buzina grita: "sai da frente", "anda logo", "presta atenção no trânsito, mané, você não está sozinho". E é essa reclamação do tipo "seu lugar não é na minha frente" que ciclista ouve quando buzinam. Na maioria das vezes, quando se buzina para ciclistas na cidade, o motorista deveria enfiar o pé no freio, não a mão na buzina. E quando o ciclista trafega pelo acostamento, na estrada, buzinam em cima, assustando o ciclista.

Se a intenção era cumprimentar a professora na bicicleta, sinto muito, ela não sabe quem se esconde no carro ou capacete que passou a 100 km por hora. Mesmo se soubesse, ela não teria tempo de cumprimentar de volta, porque a relação de velocidades é desproporcional. Se a intenção era elogiar a boa forma da ciclista, sinto muito, porque ela se assustou. Toda a musculatura dela se contraiu e a direção da bicicleta foi alterada por alguns milisegundos.

Como seriam as relações no trânsito, se não existisse a buzina? As pessoas gritariam impropérios? Abririam os vidros dos carros? As pessoas diminuiriam a velocidade?

Um comentário:

Matias disse...

Sem buzina e talvez sem carros... outro dia tava lendo sobre a eficiência, ou melhor, não eficiência de motores a combustão pra mover carros. Se tacassemos todo esse combustivel em usinas bem estruturadas gerariamos muito mais energia. Sociedade baseada no disperdicio essa nossa.