domingo, 6 de maio de 2012

Sobre planos

Cama de gato (2002) é um filme que causou bastante polêmica quando foi lançado, e acredito que continua causando desconforto ao espectador. A partir da metade do filme pra frente, o que mais incomoda é a completa falta de plano dos personagens, que se envolvem numa espiral de violência. Três amigos jovens de classe média, que acabaram de passar no vestibular, estupram uma menina na casa de um deles. Quando acham que mataram a guria, a mãe de um deles aparece, cai da escada e pronto: os três precisam se livrar de dois cadáveres.

Todas as ideias são alopradas, mas como não encontram solução nem tomam distância do problema que criaram, essas ideias fracas são postas em ação. Não há plano, as desgraças se amontoam conforme os garotos vão se enredando na trama louca que criaram. O filme, enquanto objeto cultural, é cuidadosamente planejado, ao contrário de seu conteúdo. As cenas iniciais do filme são preenchidas com depoimentos de jovens classe média bêbados, arrogantes e donos da verdade sobre Deus e o mundo. Depois que a ficção acaba, voltam os depoimentos aloprados dos jovens que se sentem gente grande e pagam a conta da cerveja com a mesada. E os depoimentos são paralelos aos fatos narrados na ficção. E cenas da fiçção são intercaladas com depoimentos dos jovens na noite. E o público é invadido pela incômoda sensação de que a realidade é muito mais cruel e sem rédeas que a fiçção sem plano que acaba de ver.

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2 Coelhos (2012) é um filme brasileiro de ação bem pop. O personagem principal, um jovem adulto de classe média, tem um plano: matar dois coelhos com uma cajadada só. A princípio, o plano é se dar bem usando bandidos para explodir um político e sair com uma grana. Contudo, por ser uma narrativa pós-moderna, é fragmentada e o público vai descobrindo dados sobre o passado do personagem principal (Edgar).

No passado, Edgar atropelou e matou a esposa e o filho de seu professor de filosofia (Walter). Não foi culpabilizado pelo "acidente de trânsito" e passou uma temporada de dois anos em Miami. Ao voltar, dá de cara com Walter, que está trabalhando no restaurante do pai de Edgar. No fim do filme, Edgar revela seu plano: a câmera mostra a namorada de Edgar e sua filha caminhando felizes ao lado de Walter. Pode ser que o plano geral tenha sido algo abstrato como substituir a esposa e filho arrancados do Walter. Dificilmente o plano seria sacrificar a própria namorada e filha para restituir a felicidade ao ex-professor. Tanto no plano da narrativa como da forma de narrar, o plano de Edgar é complexo, fragmentado e em ritmo acelerado. A impressão que fica é a de um plano que é tecido enquanto a estória se desenrola.

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Nueve Reinas (2000) é um filme argentino muito esperto. Marcos e Juan são dois trapaceiros, que passam um dia juntos, na condição de mestre (Marcos) e aprendiz (Juan). O mestre ensina seus truques, o aprendiz lhe conta sua estória. Em dado momento, Marcos é chamado por um velho parceiro (falsificador de coisas em papel) que lhe oferece uma sequência de selos valiosos (para colecionadores) para vender a um colecionador que está de passagem na cidade. Está claro que os selos não são originais, e que a viúva de não sei quem não entrega os originais. Ato contínuo, as nove rainhas falsas são roubadas. E como o comprador está de partida, Marcos e Juan se atiram na busca pelos selos originais. Compram (com recursos próprios) os selos originais da viúva com muito custo e tentam vendê-los ao colecionador.

Durante todo o filme, o espectador tem a sensação de que rola uma trapaça entre os personagens principais. Como Marcos é o mais experiente, a tendência é achar que Juan é vítima de seu mestre. No fim do filme, o espectador percebe que Marcos foi enganado com a estória das nove rainhas. Na ficção, o plano traçado por Juan é perfeito e foi executado por todos os personagens do filme. O filme, enquanto objeto cultural, igualmente é um plano bem executado, porque ensina ao seu espectador como deve ser interpretado.

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