quinta-feira, 9 de abril de 2009

Tribos

Os loucos

Entro numa lanchonete e me posiciono na fila do caixa. A mulher que está sendo atendida conta moedas no balcão. São muitas moedas, mas não o suficiente para pagar o que ela quer consumir. Ela tenta negociar os vinte centavos que faltam com a operadora de caixa, mas a moça não vende fiado. Amuada, a mulher baixinha, mal-cuidada e vestida em roupas esportivas muito surradas, tira do bolso uma nota de cinqüenta e passa a recolher as moedinhas. Algumas caem. Ao deslizarem do balcão, batem na bancada, dão um salto e caem a um passo da mulher. Ela urra, enfia a mão espalmada na boca e morde a junção do dedo indicador com a palma da mão. Abaixa, pega as moedas caídas no chão, esbofeteia a bancada e morde a mão, urrando. Repete esses movimentos com perfeita exatidão por uma pequena eternidade. Seu rosto está vermelho, a lanchonete toda observa a louca com olhos esbugalhados e nenhuma ação. A mulher pega a sua ficha, caminha ao longo do balcão, entrega a ficha para o funcionário e continua chamando a bancada de 'imbecil'.

Peço o meu pra viagem, pra não ter que ficar ali. Enquanto caminho pela calçada, reparo quanta gente (em sua maioria homens acima de 40) fala sozinha. Parecem ser discussões, não a simples organização de pensamentos. Pode ser que sejam ensaios do que dizer para o chefe, a esposa ou outra pessoa, mas também podem ser encenações dos diálogos que não foram. Por fim, pode ser solidão mesmo.

Os intelectuais

Estou sentada na plataforma onde há puffs, cadeiras e almofadas com gente em cima/dentro, lendo livros na livraria. Seguro uma HQ do Dilbert, em inglês e dou risadas ocasionais. Minha mochila, ao meu lado, parece ser de alguém que está longe de casa faz mais de 3 dias. O homem que está sentado do meu lado, lendo, aparenta ter seus 50 anos. Podia ser professor de geografia. Inclina o corpo em minha direção e me pergunta em inglês de onde eu sou. Respondo em português que sou brasileira e ele aponta para a minha mochila, explicando que tinha achado que eu era estrangeira. Tinha me abordado porque estava mastigando uma palavra no livro que estava lendo, que não fazia sentido. Aponta para o meio da página e lê: (...) uma biografia invulgar (...) Será que essa palavra existe e eu não fiquei sabendo? Ah, deve ser problema de tradução. Sim, é, tá na introdução. Não, tra-du-ção. Qual é a língua original? Inglês. Então pronto: uncommon deu em invulgar. Vi a luz acendendo no rosto do homem. Tudo fazia sentido agora. Avisou que compraria o livro em inglês mesmo, para não ter que tropeçar em outras esquisitices de tradução.

Os desencanados

Pedi a bicicleta do Gustavo emprestada pra ir na Unicamp enquanto ele dormia. Como ele dorme de dia, me emprestou a chave do cadeado da bicicleta e a chave da casa. Reparei que a chave reserva da bicicleta estava junto com a titular, no mesmo chaveiro. Avisei que não era uma boa idéia deixar a chave reserva tão exposta ao perigo de sumir. Fora isso, ele estava carregando um peso e volume desnecessários. Mas é só uma chave. Mas o dia em que você resolver usar calça apertada, pode não caber no bolso. EU usando calça apertada? Tá, essa foi péssima, mas...
Tinha chegado a hora de pedalar para a Unicamp. Quis levantar o selim da bicicleta, mas não tinha quick-release e eu não ia buscar chave de boca (?) lá no fundo. Verifiquei os pneus. Murchos a olho nu, completamentamente sem ar. Encostei a bicicleta e fui de ônibus, porque eu não queria me atrasar.
Antes de eu ir embora, encontrei com o Gustavo e avisei a ele que eu não tinha usado a sua bicicleta porque seus pneus estavam totalmente murchos. Ah, é? Meu, aperta aí o pneu e cê vai ver que tem muito mais ar aqui fora que lá dentro. Mas eu sempre ando com os pneus assim. Tem que encher mais? Velho, tu é físico e devia saber o que acontece com o aro e os raios se você andar com pneus murchos por aí.

O cara que me daria carona foi pontual. Estranhei que eu era a única a pegar carona pra São Paulo. Ele disse que tinha mais gente interessada, mas que ligaram quando ele estava impossibilitado de atender o celular. Eu não ia retornar a ligação, né...
Na primeira curva para a esquerda, a minha porta abriu. O motorista se inclinou para o meu lado, gritando segura! segura! Tranquei a porta e ela não abriu mais.
O carro pulava como um cabrito. O motorista avisou que o motor ainda estava frio, e por isso estava falhando, mas que já já parava. Amenizou, mas fomos pulando a São Paulo.
Nas subidas o Uno perdia o embalo, a força e a potência. Éramos ultrapassados por caminhões lentos. Nas descidas descíamos desenfreados, ultrapassando todo mundo que transitava pela faixa da direita.
Chegando na Lapa, reparei que meio tanque de gasolina tinha sido consumido nesses 100km. Nos faróis vermelhos, o motorista desligava o carro, para não gastar mais gasolina.

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