sábado, 18 de abril de 2009

Admirável mundo novo

Bolei um anúncio de revisão de textos acadêmicos, elaboração de abstract e versão para inglês de artigos - que são coisas com as quais eu tenho uma certa experiência. Fiz xerox dos anúncios, recortei 120 flyers e comprei durex. Onde colocar esses anúncios? Em murais de lugares onde há universitários.

Fui no Centro Cultural Vergueiro, porque lembro que nos meus tempos de USP eu passava muitas horas lá, fazendo trabalho em grupo. Não havia nenhum mural, o que a moça da Central de Atendimento confirmou.

Atravessei a rua e entrei no prédio-referência-espacial da Unip. Portas de vidro escuro se abriram automaticamente. À minha frente, um hall vazio e uma barreira de catracas. Conversei com a pessoa no balcão, que me disse que os meus anúncios precisavam ser autorizados primeiro. Se fossem liberados, a própria Unip os pregaria nos murais da faculdade. Dei uns 10 pra moça.

Na Av. Paulista eu entrei na Anhembi-Morumbi. Como eu temia que ali só houvesse cursos de exatas (cujos trabalhos eu não quero revisar por pura incompetência minha), perguntei na recepção que cursos tinha ali. Ai... dá uma olhada ali nos panfletos. Identifiquei Letras e outras coisas mais de humanas e expliquei que eu queria poder afixar anúncios em murais. O segurança abriu uma portinha ao lado da fileira de catracas e eu subi até o mezanino, onde ficava a central de informações. A moça me disse que só poderia afixar os meus anúncios com autorização do departamento de Marketing. Onde é? Na Vila Olímpia.

Na Puc não havia catracas, mas 4 seguranças de terno e gravata. Mas não me barraram. Os meus anúncios no mural da cantina eram os únicos sem carimbo. É até possível que já não estejam mais lá.

No Mackenzie eu fiquei deslumbrada. É muito maior que eu podia imaginar e é o mais próximo de uma universidade-como-a-conheço dentre as particulares que tinha visitado. Não consegui identificar vários prédios, e pra evitar de colocar o meu anúncio na Arquitetura ou Física, me restringi ao xerox. Descobri que as Letras (e Jornalismo) ficavam fora do campus, no prédio novo. É um prédio. Você entra no elevador, aperta um botão e sai num corredor pequeno que dá acesso a algumas salas de aula. Não tem nenhuma indicação que distingue Jornalismo de Letras, não tem bancos pra sentar, não tem murais. Num andar tem uma cantina, mas nem isso é indicado no elevador.

Tive a clara sensação de que as universidades particulares que visitei nessa tarde são empresas que, por mera coincidência, vendem cursos superiores. Tanto é que quem autoriza a afixação de anúncios nos murais da Anhembi-Morumbi é o departamento de Marketing. Se não há catracas impedindo a entrada de não-alunos, há seguranças controlando. A Anhembi-Morumbi, Unip e Letras & Jornalismo do Mackenzie eram um prédio, não um campus. Por mais que tenha diferentes cursos, cantinas, xerox e bibliotecas, a pessoa não passeia pela universidade. A pessoa aperta o botão do elevador do andar que interessa, e lá, naquele andar, há salas de aula. Não tem bandejão, mas praça de alimentação que mais parece shopping. Não tem gramado pra deitar no sol, banco embaixo das árvores pra ler na sombra, música pra ouvir ou filmes/exposições pra ver.

Não sei se a comparação é justa, mas vejo as universidades particulares como restaurantes de fast food e as universidades públicas como toda sorte de bandejões. Restaurantes de fast food são padronizados, já os bandejões são altamente variados, dependendo da gestão local, do público, instituto, universidade, país. Não é do interesse dos restaurantes de fast food adaptar-se aos interesses dos consumidores, porque sempre haverá consumidores que pagam para ter um produto rápido, fácil, seguro e limpo.

Dei uma olhada nos cursos de pós que a Unip e Anhembi-Morumbi oferecem. Strictu senso, a Unip oferece mestrado em 5 cursos (administração, comunicação, engenharia de produção, medicina veterinária e odontologia) e doutorado em 1 (engenharia de produção). A Anhembi-Morumbi só oferece 3 cursos de mestrado (hospitalidade (!), design e comunicação) e nenhum doutorado. A pesquisa (e provavelmente extensão também) é muito fraca das pernas nessas duas universidades (e provavelmente nas outras não é muito diferente), porque não é do interesse dos restaurantes de fast food ensinar suas receitas. Interessa ter lucro e gerar lucro, atrelando os cursos de pós ao mercado, não à pesquisa. A comida do bandejão pode não ser boa todo dia, mas é balanceada: tem tudo o que uma pessoa precisa.

O produto final de um curso de pós na universidade pública não é um estágio numa empresa, um emprego numa multinacional ou uma chance no mercado. É conhecimento. Apesar dos cursos de pós serem altamente específicos, a pessoa sai dela com os seus conhecimentos ampliados, porque passeou pelo campus, interagiu com pessoas de outros cursos, vagou por outros institutos, fez matérias em outras faculdades, se deu o direito de estudar coisas paralelas por prazer. A pessoa que sai de uma pós na universidade pública teve tempo para tomar gosto pelos estudos e descobriu o prazer de produzir e compartilhar conhecimento.


Mas tudo isso são especulações. Afinal, só tive contato direto e imediato com algumas poucas universidades particulares nessa tarde em que tentei fazer propaganda dos meus serviços de revisão de texto.

Um comentário:

pedalante disse...

Pequena Lou,

Envia por email, que eu divulgo lá em Campinas.

p.s. envio tb para outros/as que trabalham/estudam na univ paulistanas.