terça-feira, 14 de abril de 2009

Teste de emprego


Eu sabia que havia vários candidatos, mas não imaginava que outras 3 mocinhas fariam o teste ao mesmo tempo que eu. Por algum motivo infundado, imaginei que o horário das 11:00 tinha sido reservado à minha pessoa, exclusivamente.

Outra surpresa foi ter que responder à mulher do RH que eu tinha graduação na USP e mestrado e doutorado pela Unicamp, quando eu já tinha mandado o meu currículo pra ela.

O teste consistia em 3 folhas de questões de vestibular (com fonte e tudo: FUVEST, ITA e o caramba). A primeira questão que me intrigou foi: Assinale as palavras grafadas incorretamente segundo a nova reforma ortográfica. Esperando ver hífens, acentos e tremas obsoletos, me deparei com 'desinterias' (é disenteria, e eu errei!!!!), 'obsceções' e 'paralizações'. Perguntei se era pra assinalar todos os erros ortográficos ou só aqueles afetados pela reforma. A mulher do RH disse que eu tava fazendo certinho. Retruquei que, afinal de contas, um revisor em exercício teria sempre ao alcance um bom dicionário. Sorriso reticente.


A segunda questão que me aborreceu foi uma em que era pra responder sobre um texto em que o autor tinha usado a palavra ‘sentido’ com 3 significados diferentes. A) o que fez o autor? B) o trocadilho que o autor fez... Pôxa, perguntas formuladas assim testam a minha inteligência, esperteza ou conhecimento acumulado?

A terceira pergunta que me revirou as tripas foi uma em que tínhamos que escrever sobre mais um texto poético em que o autor afirma que é melhor falar que escrever, porque é falando que a gente se entende. Blá blá blá ele não tinha acento e eu fiquei circunflexo. A) qual a ironia do texto? Bom, a ironia está no fato de que, quando dizemos ‘acento’ e ‘assento’, o som é o mesmo, mas a grafia e o significado são diferentes. B) qual o outro significado de ‘circunflexo’? Veja bem, trata-se de um termo usado em gramática, e todo termo, por ser específico de um campo de conhecimento, só tem um significado.

A última questão que fez eu me sentir muito estúpida era assim: havia duas versões de um mesmo texto, lado a lado. A versão da esquerda continha uns erros ortográficos, a da direita estava livre deles. Minha função era comparar as duas versões e apontar os erros. Se tivesse alguém cronometrando o tempo que eu preciso para achar erros e conferir se de fato são erros, tudo bem, mas a mulher do RH nos havia abandonado quando estávamos na segunda questão.

Fui a primeira a terminar e deixei na sala 3 meninas tensas, conferindo rascunho, passando a limpo, pensando muito. A mulher do RH tinha informado que naquela mesma tarde informaria por e-mail quem tinha passado para a segunda fase do processo seletivo. Segunda fase?
Desconfio que fui muito insolente nas respostas ao teste e com a mulher do RH, porque não recebi mais nenhum e-mail de lá.

Percebo que o que eles esperam de um revisor do seu material didático não é alguém que pensa com o texto, nos alunos e no que eles estão aprendendo. Querem alguém capaz de verificar a maquiagem do texto: ortografia e pontuação, coisa que o Word faz muito mais rápido que eu. Pelo visto, não querem alguém que pensa.

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