quinta-feira, 27 de março de 2014

Cota e quinhão

Cota significa, na linguagem técnica que os rondonienses aprenderam a usar nos últimos meses: o nível da água do rio. O mesmo Rio Madeira tem diferentes cotas em lugares diversos.

 No mapa se vê, na fronteira com a Bolívia, Abunã. Seguindo o curso do rio, vê-se a UHE Jirau (antes de Jaci-Paraná), a UHE Santo Antônio que fica a 7km de Porto Velho e Humaitá, já no estado do Amazonas.

Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), as cotas estão subindo a cada dia nos diversos pontos:
       
             Abunã   Jirau  Santo Antônio Porto Velho  Humaitá
18/02     23,68   88,33      69,89           17,76          23,95
19/02     23,77   88,33      69,93           17,82          23,58
20/02     23,88   88,55      69,88           17,87          23,61

21/03    25,29    89,22      69,47           19,36          25,14
22/03    25,38    89,36      69,48           19,41          25,58
23/03    25,49    89,51      69,52           19,47          25,18
24/03    25,53    89,51      69,55           19,53          25,24
25/03    25,54    89,54      69,55           19,60          25,26
26/03    25,52    89,53      69,44           19,63          25,29
27/03    25,50                                       19,66          25,33  

A partir desses dados, pode-se observar que em um mês as cotas dos reservatórios de Jirau e Santo Antônio não sofreram grandes alterações, ao passo que houve um incremento de quase dois metros na cota dos outros pontos do rio (Abunã a montante de Jirau, Porto Velho e Humaitá a jusante de Santo Antônio). Pode-se observar também uma leve queda da cota em Abunã nos últimos 3 dias e também uma leve queda nas duas UHEs nos dois últimos dias em que houve divulgação de dados.

Na cidade de Porto Velho, o trânsito é constantemente remodelado: rotas antigas estão sendo tomadas pelos igarapés, novas rotas são desbravadas. Moradores que usam a Estrada de Santo Antônio como única via de acesso estão prevendo o isolamento. As águas que entram pelo rio Madeira ou pelos igarapés estão contaminadas (não há saneamento básico na cidade: cada casa tem sua fossa, cada prédio/condomínio tem seu córrego). Nos abrigos (escolas e igrejas) só tem cesta básica e os desabrigados, que já se sentem menos gente, ficam sem mistura. Ouvi relatos de crianças pedindo frango em supermercado.

Será que nada disso era previsível? Em Jaci-Paraná, todas as obras de compensação erigidas pelo consórcio Energia Sustentável do Brasil (ESBR), responsável pela usina de Jirau, estão embaixo d´água. Todo asfalto que está submerso agora está se dissolvendo e precisará ser refeito. Todas as casas alagadas estão condenadas. Ambos os consórcios investiram em compensações antes e reparos agora. Pode ser que tenham gastado muito (para os nossos padrões pedestres), mas as usinas ganharam muito com a cheia.
Pelo gráfico publicado no boletim diário da ANA, pode-se observar a linha pontilhada que indica a cota de emergência segundo a CPRM de 16,68m e a linha preta que indica a cota do rio ao longo dos meses. Observa-se claramente a variabilidade do rio conforme o regime de chuvas na Amazônia e um pequeno detalhe: a partir de fevereiro, a linha preta disparou.

Em fevereiro, a UHE Santo Antônio desligou 11 turbinas e deixou de vender sua mercadoria (megawatts) para o governo (que paga R$ 78,87), para quem 70% da energia gerada é repassada. Continuou operando com 7 turbinas, que geraram energia para ser vendida no mercado livre (em que o mw/h está custando por volta de R$ 828,00). Na última semana de fevereiro, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) determinou que todas as turbinas de Santo Antônio fossem desligadas.

Agora, as usinas simplesmente não estão ganhando rios de dinheiro, mas tiveram o seu quinhão quando a cota estava alta nos reservatórios devido à retenção de água.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Sobre obviedades irrelevantes

Replico aqui um texto Roberto Smeraldi, publicado em: http://amazonia.org.br/2014/03/a-senhora-de-la-palice/

A Senhora de La Palice
18 de março de 2014    

De Roberto Smeraldi*

O Senhor de la Palice, marechal do rei Francisco I de França, se tornou desde o século XVI ícone da obviedade irrelevante, da afirmação de alguma verdade tão redundante que acaba desviando do que interessa. Tanto que seu epitáfio reza: “se não tivesse morrido, ainda estaria vivo”. Uma típica argumentação lapaliciana é aquela, por exemplo, de negar terminantemente o que ninguém disse, na ausência de elementos para poder afirmar alguma coisa sobre determinado assunto. A história mostrou depois que a fama do marechal foi causada mais por seus ajudantes de ordens: mas até hoje ele carrega o estigma.

Algo do gênero parece ter ocorrido com assessores da nossa presidente em ocasião de sua recente passagem pelos estados de Rondônia e Acre, para sobrevoar áreas alagadas. Mandaram a presidente afirmar em tom alto que “é absurdo atribuir às usinas a culpa pela cheia do Madeira”. Como discordar disso? Ora, se há muita água é porque houve muita chuva nas cabeceiras. Trata-se de uma frase tão óbvia que obrigaria até uma liderança dos black-blocs e o dono de um banco multinacional a assinarem juntos.

A visita da presidente visava atender obrigações imediatas de chefe de estado, como aquela de conhecer de perto uma conjuntura de calamidade e a de anunciar os devidos socorro e solidariedade para as populações atingidas. O que ela fez, ou prometeu fazer logo. Possivelmente queria se limitar a isso. Ou, caso quisesse ir além, inclusive para assegurar que é preocupação presidencial saber o que pode acontecer no futuro frente a situações como esta, podia determinar que se realizem estudos e projeções de cenários que deixaram de ser realizados, ou utilizados, quando do licenciamento das usinas.

É fato que os gestores do licenciamento na época assumiram a responsabilidade explícita de desconsiderar o parecer assinado por seu próprio corpo técnico, que alertava para a falta de estudos sobre os impactos do novo regime hidrológico nas beiras do rio à jusante do empreendimento (é o caso de Porto Velho). É também fato que os mesmos gestores assumiram a responsabilidade de desconsiderar parecer contratado pelas próprias empresas, a pedido do Ministério Público, que alertava sobre o efeito da curva de remanso (é o caso da Bolívia e de parcela de território brasileiro a montante de ambas barragens, incluindo a rodovia). E ainda é fato que tais gestores assumiram a responsabilidade de desconsiderar as consequências da mudança de localização da usina de Jirau sobre a cota do reservatório de Santo Antônio, negando de antemão que existissem. A tais três fatos, acrescente-se que se resolveu não estudar, talvez por considerá-lo improvável, um cenário com vazão como aquela que acabou sendo atingida logo neste primeiro ano após o início da operação de ambas usinas.

Anunciar que, embora tardiamente, se estudariam tais questões com consistência e transparência, pelo menos com o objetivo de controlar ou limitar ocorrências futuras, seria a opção mais prudente por parte da presidente. Até porque estaria alinhada com a decisão cautelosa do Operador Nacional do Sistema elétrico (ONS), que há semanas já resolveu suspender a geração de energia nas usinas em decorrência da atual situação. Ao desconhecer – pois ninguém estudou – quais impactos as usinas têm sobre um cenário de vazão como aquele atual, o ONS entendeu que devia eliminar o risco de agravar ainda uma situação já emergencial. Das duas, uma: ou o ONS agiu irresponsavelmente, ao interromper indefinidamente um serviço importante para o país e que sabidamente não guarda relação com a calamidade, ou agiu com prudência, justamente porque ignora como se dá esta relação.

E aqui vem o assunto de interesse público que a assessoria palaciana não deveria dispensar com motes lapalicianos. Não interessa à sociedade discutir da culpa da cheia, e sim saber como o conjunto das usinas interage com ela. Lembre-se que neste ano, ou seja no início de seu ciclo de operação, estamos ainda lidando apenas com a variável água. Progressivamente, nos anos vindouros, passaremos a lidar com a variável água e com a variável sedimentos, na medida em que os mesmos se acumularem, pois aquele sobrevoado pela presidente é o rio com maior carga sedimentária do mundo, contribuindo com apenas 15% do volume de água do Rio Amazonas, porém com 50% de seus sedimentos.

É isso que Ministério Público, Defensoria Pública, OAB, assim como instituições da sociedade civil organizada que se dedicaram a estudar o tema querem saber. É isso que o ONS assume desconhecer quando interrompe a geração elétrica, apesar de se tratar do momento mais favorável para a mesma, e portanto com expressivos prejuízos econômicos resultantes (até porque as usinas já custaram aos cofres públicos mais do que o dobro do valor previsto quando se decidira construi-las). E isso também pode acabar com a peculiar troca de acusações entre os dois consórcios – ambos com empresas estatais como principal acionista – que não perdem ocasião para reforçar que, se fizeram algo errado, só foi para se defender de algo pior feito pelo outro.

O que a cheia histórica do Rio Madeira sugere é de acabar logo com este desconhecimento. O pior cenário é o de conviver com uma perspectiva de vulnerabilidade episódica do território nas cheias – que inviabiliza qualquer investimento e planejamento – e, ao mesmo tempo, com o desligamento periódico das usinas nos momentos mais propícios para a geração elétrica, como forma de mitigação parcial dos impactos a jusante, mesmo sem saber se isso tem efeito.

* Roberto Smeraldi, 53, jornalista, é diretor da OSCIP Amigos da Terra – Amazônia Brasileira.

domingo, 16 de março de 2014

Dilma e o lobo

Ontem (sábado, 15 de março) a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, esteve em Porto Velho para apreciar a extensão da enchente que ainda não recebeu a devida atenção no Brasil. Ontem foram registrados 19,5 metros acima do nível normal do rio Madeira - e a tendência ainda é subir. Ela sobrevoou o Rio Madeira e só então acolheu o pedido de calamidade pública pleiteado pelo prefeito da cidade.

Segundo matéria publicada na Folha, Dilma colocou a culpa pela cheia histórica do Madeira na Natureza, isentando as usinas (Santo Antônio e Jirau) de qualquer responsabilidade pelo desastre que é
(i) o isloamento do Acre por terra,
(ii) o alagamento extenso de Bolívia, Acre, Rondônia e Amazonas,
(iii) os desalojados e desabrigados que perderam seu chão, casa e território e
(iv) as futuras doenças que virão depois que a água baixar.

Dilma defendeu as usinas usando a fábula do lobo e do cordeiro (na versão de La Fontaine, porque a de Esopo não apresenta a argumentação baseada na posição do cordeiro e do lobo em relação ao rio) da seguinte forma: o cordeiro argumenta que está abaixo do lobo, portanto não pode ter sujado a água que o lobo bebe. Para Dilma, a Bolívia está acima, "sujando" nossa água. E as usinas, pergunto eu: onde estão? Fora do rio? Santo Antônio fica 7 km acima da capital de Rondônia e a energia acumulada ali vem em linha reta contra Porto Velho (que fica na curva do rio). Santo Antônio fica acima do Baixo Madeira - que agora está dentro do Madeira.

O terceiro parágrafo do texto da Folha explica: não é a Bolívia que precisa ser responsabilizada, mas as chuvas que caíram na Bolívia. Na fábula, o lobo representa o tirano que impõe sua razão arbitrária para satisfazer seus desejos e o cordeiro representa a vítima. Nas palavras de Dilma, a chuva é o tirano que impõe sua razão arbitrária para satisfazer seus desejos e o povo ribeirinho é a vítima. E as usinas? Para Dilma, estão fora de questão, estão fora do rio Madeira.

A moral da história (porque as fábulas sempre trazem uma moral) contada por La Fontaine ficou assim na tradução de Ferreira Gullar:
Onde a lei não existe, ao que parece,
a razão do mais forte prevalece.
Na história de Pedro e o lobo, de Prokofiev, que igualmente existe em várias versões, temos novamente dois pólos. Se no Lobo e o cordeiro os pólos eram ocupados por vilão e vítima, o lobo de Pedro está num pólo e no outro estão Pedro e o pássaro e o pato e o gato e o avô e os caçadores. Contudo, o lobo nessa história não é vilão, é apenas um lobo subordinado às leis da Natureza. E Pedro, pássaro, pato e gato não são vítimas, mas um coletivo doméstico que, sem preparo algum, mas com muita vontade de se divertir, se aventura na natureza selvagem.

Na história contada pelo músico russo, Pedro tinha sido proibido pelo avô de passar (sozinho) da cerca que delimitava a floresta. Pedro abre a porteira na cerca e o pato, gato e pássaro o seguem, felizes por poderem explorar uma nova região. Na versão da Disney, Pedro tinha 6 anos e queria caçar. Ainda nessa versão, ao entrarem no terreno desconhecido, o pato vê o lobo em todos os lugares - o que não se confirma - e todos brigam com ele. Essa briga barulhenta chama a atenção do lobo que vem e engole o pato (o pato é vítima fatal em todas as versões). Pedro então rapidamente traça um plano com o pássaro de capturar o lobo e salvar a todos de suas garras.

Implantar usinas hidrelétricas de fio d'água nos rios amazônicos significa, metaforicamente falando, atravessar a cerca que separa o mundo conhecido e controlado da floresta em que há um lobo. Sair destemidamente à caça do lobo e levar outros desavisados consigo é irresponsável como foi irresponsável construir e fazer funcionar duas usinas numa das maiores sub-bacias amazônicas apesar da escassez de estudos apontada por vários órgãos, inclusive o Ibama. Abrir a porteira sem antes calcular os riscos foi tão desastroso como liberar as licenças para as usinas com estudos de impacto contestados. Por isso, através de uma liminar, a Justiça Federal determinou no dia 10
que as usinas Jirau e Santo Antônio, em Rondônia, atendam as necessidades básicas - moradia, alimentação, transporte, educação e saúde - das famílias atingidas pela cheia do rio Madeira que moram acima de cada uma das hidrelétricas, sob pena de multa diária de R$ 100 mil para cada uma delas.

Segundo o juiz federal Herculano Martins Nacif, da 5ª Vara Ambiental e Agrária de Rondônia, há vínculo entre a cheia histórica do rio e as usinas instaladas no local. A decisão também prevê que um novo estudo de impacto ambiental seja feito no local. (Fonte: Folha 11/03/2014)
Os ribeirinhos e (sócio)ambientalistas foram os primeiros a prever as inundações e os desbarrancamentos. Suas vozes não tiveram eco nas audiências com os consórcios nem fora delas. Os ribeirinhos foram removidos, reassentados, desalojados, desabrigados primeiro. Como o pato que previu a desgraça e pagou o preço, os ribeirinhos pagaram o pato.

O lobo de Pedro não é o vilão, mas a conjuntura desfavorável. As chuvas deste ano foram mais intensas em janeiro/fevereiro que nos anos anteriores. As usinas não previram tanta chuva e não reagiram a tempo. Represaram a água que vinha da Bolívia (inundando tudo pra cima das usinas), Santo Antônio represou a água entre as usinas e aumentou sua cota de produção de energia em pleno dilúvio e ambas não reconhecem que, mesmo tendo diminuído a intensidade das chuvas aqui, a água do rio continua subindo.

Ninguém jamais culpou as usinas unica- e exclusivamente pela cheia do Madeira. A ação delas provavelmente teve o mesmo peso que a ação das chuvas. Mas as chuvas não assinam termo de responsabilidade, contrapartida, compromisso moral e social.

Dilma tem um compromisso com o assim-chamado desenvolvimento. No âmbito do PAC, o governo federal liberou recursos para a construção das usinas de Santo Antônio e Jirau. Quando Dilma relembrou a fábula do lobo e do cordeiro, ela foi porta-voz do empresariado: O mais forte sempre encontrará pretexto para fazer a sua razão prevalecer.


quinta-feira, 13 de março de 2014

A água da cidade

Estação de Captação de Água da CAERD em Porto Velho
O nível da água do Rio Madeira continua subindo. Muitos distritos do Baixo Madeira estão submersos: São Carlos está embaixo d`água até os telhados, Nazaré, que fica na curva do rio, teve suas casas levadas pela correnteza. Os desabrigados do Baixo Madeira estão vindo para Porto Velho. Luis e eu notamos até mesmo um leve aumento dos preços de aluguel em algumas imobiliárias.
UHE Santo Antonio

A água da cidade é tratada pela CAERD, que tem sua estação de captação no rio Madeira e está sofrendo para se isolar do rio que está comendo a cidade (no ano passado houve os desbarrancamentos, agora a inundação).
Quando Luis e eu chegamos, quase moramos numa casa e quase moramos num apartamento no centro com vista para o rio. Nas duas quase-moradias, a água era de poço artesiano. Sabemos que no Norte a incidência de contaminação de água de poço é grande, por isso preferimos água da Caerd (mas não foi por isso que não ficamos naquelas quase-moradias - a estória é longa). Agora já não sabemos mais se a Caerd está conseguindo tratar a água que sai da torneira do apartamento em que moramos na Avenida Rio Madeira.

Desastre é resultado de uma convergência de desvios e erros

Bairro Nacional
O posto debaixo d`água

A Farquar ficou interrompida

Cheias do Madeira

Replico aqui o que encontrei na Carta Capital


Blog do Felipe Milanez
Amazônia
Cheias no rio Madeira: um desastre anunciado
Resultado da intervenção das usinas na região mostram que as inundações observadas neste mês podem ser ainda pior no futuro
por Felipe Milanez — publicado 13/03/2014 14:39, última modificação 13/03/2014 16:09
 
Secom / Rondônia

O rio Madeira não se adaptou ao "mecanismo de barramento"
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Cheia no Madeira vai continuar com águas do Mamoré , afirma pesquisador


Rondônia, historicamente, fica longe. Extremo oeste do Brasil, o alto rio Madeira sempre foi relegado como um lugar distante dos centros de poder, pouco merecedor de atenção. Bom lugar para fazer experiências políticas e de engenharia. As catástrofes que acontecem por lá demoram a chegar na "opinião pública" que senta sobre o poder e o dinheiro. Foi assim com a Ferrovia do Diabo, a Estrada de Ferro Madeira–Mamoré (construída entre 1907 e 1912), e logo depois, quando Rondon esticou as linhas telegráficas (concluída em 1915 com o telégrafo instalado em Santo Antônio do Madeira), pouco antes de o rádio tornar o telégrafo obsoleto. Foi para Rondônia onde os militares, durante a Ditadura cujo golpe completa 50 anos nos próximos dias, decidiram enviar os pobres do sul do País para não ter que dividir a terra dos latifúndios. Lá longe, os migrantes do sul morriam de malária, em conflitos com povos indígenas, ou nas balas de pistoleiros. E tudo ficava por isso mesmo, com a pressão social mais aliviada. Ao longo do último século, Rondônia foi o retrato de um "triste trópico" de exploração e saque.

Não é a tôa que foi justamente Rondônia o local escolhido de experimento para o governo Lula iniciar seu plano neodesenvolvimentista de construção de usinas na Amazônia, cujos projetos atualmente passam de centenas. Os majestosos rios amazônicos vão tornando-se cada vez mais "as veias secas da Amazônia", como escrevi em uma reportagem na revista RollingStone. Em Rondônia, um laboratório político para testes socioecológicos, é tolerado errar. Pode-se errar feio, grosseiramente, violentamente. E assim Lula decidiu iniciar a exploração energética do Complexo Madeira com duas usinas simultâneas, logo de cara: Santo Antônio e Jirau. Foram licenciadas durante a gestão de Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente que, em 2007, havia declarado o licenciamento das usinas uma "vitória da sociedade". Qual sociedade? A de Rondônia, ou a que vive "longe" de lá?

A atual cheia histórica, batendo os 19 metros, tem provocado uma catástrofe humana e ecológica em Rondônia, no Acre e na Bolívia. No entanto, apesar das águas estarem altas há semanas, o problema apenas tem começado a receber atenção do distante sul do Brasil, o "sul maravilha", terra do samba e do carnaval nessas mesmas últimas semanas.

O problema não é a cheia em si, que sempre ocorre, anualmente. Ainda que nesse ano haja mais águas. Não é o Madeira o culpado. Como disse o superintendente do Ibama, em Palmas, a respeito das usinas no Tocantins: "a natureza não se adaptou ao mecanismo de barramento do rio". Definitivamente, a análise, de tão absurda, pode ser estendida para o Madeira, que também "não se adaptou ao mecanismo de barramento". É de se esperar que o Xingu, que rompeu a ensecadeira feita para a construção de Belo Monte, também nos últimos dias, igualmente não se adapte ao barramento proposto. Tampouco o Tapajós. A Natureza insiste em "não colaborar" com o neodesenvolvimentismo (para seguir a linha de pensamento dos analistas ambientais que licenciam as obras no Ibama).

Mas a culpa não pode ser atribuída à vítima, seja ela a Natureza ou quem vive nesse ambiente. Não é o Madeira, nem quem sempre viveu nas suas margens, o culpado pela catástrofe. Há uma novidade: as duas usinas. O Movimento dos Atingidos por Barragens tem uma análise certeira de quem sofre, além do rio e do sistema ecológico: a população local. "Com as usinas operando no limite e enquanto os consórcios construtores disputam as possibilidades de gerar mais lucro, as comunidades e população que vivem à margem de todo o rio Madeira continuarão sofrendo com a maior enchente dos últimos cem anos da região, causada e potencializada pelas obras das hidrelétricas do rio Madeira."

Enquanto Jirau doou 250 cestas básicas e mil frangos congelados "visando prestar auxílio aos atingidos", Santo Antônio, publicamente, tem tentado ver se a água passa depressa. Ambas mostram-se sorrateiramente acuadas diante do desastre, em um silêncio constrangedor só rompido para cada uma atacar a vizinha, numa briga pública que coloca em risco milhares de pessoas. E começam, ainda de forma incipiente, a ser pressionadas por algumas autoridades no âmbito do Judiciário. A participação delas nessa catástrofe, uma vez passada a crise quando as águas escorrerem para o Amazonas, vai ser medida junto com a quantidade de mortos (pelo menos 60) e dos milhões em prejuízo.

Procurei dois destacados pesquisadores para uma breve análise da catástrofe. Antes mesmo dos licenciamentos, eles já alertavam para os problemas decorrentes dos possíveis barramentos do rio Madeira, que carrega metade dos sedimentos do Amazonas: Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), e Jorge Molina, do Instituto de Hidráulica e Hidrología (IHH) da Universidad Mayor de San Andrés (UMSA). Um de cada lado da fronteira do Madeira, que nasce nos Andes e deságua no Amazonas.

Para Molina, "há fortes suspeitas" de que as usinas pioraram as coisas no Brasil. E o problema, completa Fearnside, é que a credibilidade do Ibama e da ANA foi posta em dúvida, no momento em que o governo prepara-se para leiloar mais uma série de usinas na Amazônia. A questão é tão grave que a Justiça Federal determinou que os estudos de impacto ambiental sejam refeitos.

Pior: no futuro, lembra Fearnside, as mudanças climáticas devem aumentar a ocorrência de eventos extremos.

Fearnside entrou no INPA em 1978, e publicou trabalhos científicos que são referências fundamentais sobre 10 barragens na Amazônia brasileira: Balbina, Tucuruí, Samuel, Curuá-Una, Santo Antônio, Jirau, Teles Pires, Jatapu, Cotingo, e Belo Monte). Os trabalhos e outras informações sobre barragens estão disponíveis no seu site http://philip.inpa.gov.br e na coluna que escreve em Amazonia Real

Abaixo, entrevista com Fearnside, feita por e-mail. Logo após, um breve texto de Molina, que responde a perguntas que lhe enviei.



Felipe Milanez   Quais as perspectivas?

Philip Fearnside O futuro? Cheio de incertezas. Esta cheia excepcional e o que aconteceu nos últimos três ou quatro anos anteriores, como a erosão que Santo Antônio provocou em Porto Velho, colocam em dúvida muitas coisas: os estudos e os projetos das duas usinas, a operação dos reservatórios, os níveis d'água de inundação reais, as verdadeiras consequências do impactos destes projetos no Brasil e na Bolivia e o que pode ocorrer no futuro. Eu temo que também foi posta em dúvida a credibilidade do IBAMA, da ANA e a sua capacidade de cumprir suas próprias normas e condições.



FM Quais as relações entre as usinas e os efeitos dessa cheia? Quais os riscos envolvidos?

PF As duas usinas devem estar contribuindo, de maneiras diferentes, ao agravamento dos impactos da enchente atual.  A presença da barragem de Santo Antônio, logo acima de Porto Velho, pode estar aumentando a erosão da orla da cidade.  O vertedouro da barragem modificou as correntezas em frente à cidade, jogando mais água contra a orla, como foi demonstrado em 2011-2012 quando cerca de 300 casas foram derrubadas ou condenadas. A velocidade da água neste local também deve ser maior do que no rio natural, sendo que toda a liberação da energia está agora concentrada em uma única queda só 7 km acima do centro da cidade.

No caso de Jirau, deve estar contribuindo à inundação na Bolívia no trecho logo acima do final do reservatório propriamente dito em Abunã, na divisa entre Brasil e Bolívia. Os sedimentos amontoados, justamente no início do reservatório em Abunã, devem represar a água rio acima, aumentando a inundação. As afirmações das empresas de que este fenômeno de “remanso superior” não aconteceria no caso de Jirau foram contestadas por mim em um artigo em 2013 na revista Water Alternatives (versão em português disponível em http://philip.inpa.gov.br).



FM Esse é um problema decorrente da disputa entre as usinas ou, mesmo que tivessem cumprido o plano inicial dos projetos, esses riscos já existiam?

PF A alegação de Jirau de que a usina de Santo Antônio não abaixou o nível do reservatório como planejado quando a vazão começou a subir, se confirmado, indica um forte impacto sobre a população próxima ao lago, inclusive em Jaci Paraná. O mesmo pode aplicar a Jirau, sendo que se o nível do reservatório tivesse sido rebaixado ao máximo para aproximar o rio natural, a inundação teria sido menor, inclusive nos trechos hoje interditados da rodovia BR-364.



FM Quais as perspectivas no futuro?

PF As mudanças climáticas em curso estão previstos a aumentar a ocorrência de eventos extremos, incluindo inundações. Os planos do governo brasileiro para construir dezenas de barragens na Amazônia teriam grandes impactos dos mais variados tipos. A história das usinas do rio Madeira mostra como o sistema atual de tomada de decisão não consegue dar o peso adequado aos custos sociais e ambientais. Há extensa documentação dos impactos das usinas do Madeira, e de outras barragens existentes e planejadas na Amazônia, disponível em http://philip.inpa.gov.br.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O limite entre ficção e propaganda

Ainda fico escandalizada com a publicidade (merchandising, branding, product placement) massiva presente em obras de ficção. No cinema, o primeiro choque foi com o Náufrago, que me pareceu ser uma grande propaganda da FedEx (e das bolas Wilson). Na literatura, o susto foi no 1Q84, em que Haruki Murakami descreve a cor, o tamanho, a textura - e marca (!) de um montão de objetos.

Recentemente vi um pouquinho de televisão (no celular!) e fiquei impressionada com as propagandas. Talvez elas tenham sido planejadas para serem engraçadas. Além de não conseguir ver graça, eu não vi sentido (tipo coerência e coesão, que garantem a boa tessitura da peça) e achei tudo meio aloprado. Mas havia um denominador comum: os comerciais se esforçavam muito para contar uma história - mesmo que ela não tivesse nenhuma relação palpável com o produto que aparecia no final.

Luis Fernando Veríssimo publicou, no Comédias da Vida Privada, uma crônica chamada D. Leonor; em que a personagem principal passa, de repente, durante o café da manhã em família, a anunciar os produtos à mão para uma câmera invisível. Neste texto, o autor faz com que o discurso publicitário invada o discurso familiar, causando estranhamento no marido e filhos - e humor no leitor.

Mas como esse texto é lido? Por coincidência e sorte, encontrei um texto de Vilma de Sousa justamente sobre a leitura desse texto do Veríssimo. Para o seu espanto (e meu também), os quatro leitores desse texto que ela entrevistou não entenderam a intenção crítica do autor, sendo que três disseram que era normal a mãe de família só querer os melhores produtos para a família dela.



Terminei de corrigir as resenhas dos meus alunos de Publicidade e Propaganda sobre um curta de José Roberto Torero chamado A alma do negócio (1996). Não consegui incorporar aqui a versão que está no portacurtas.org.br, por isso tive que buscá-la no Youtube (onde, por ironia do destino, o curta vem introduzido por um anúncio publicitário).

Quando assistimos ao curta na sala de aula, a primeira pergunta (imediata) foi: esse é um comercial da Band-Aid? Ou seja, alguns alunos interpretaram o texto ficcional como sendo uma peça publicitária. Quando li suas resenhas, percebi que as fronteiras entre ficção e propaganda estão se desintegrando para os jovens bombardeados por propagandas (narrativas).

Alguns contaram o número de produtos anunciados, outros verificaram a autenticidade dos produtos anunciados, muitos cronometraram o tempo de cada anúncio e avaliaram que estavam dentro do padrão, outro confessou sentir vergonha pelos efeitos toscos, os clichês e estilo over. Alguns tomaram o curta como laboratório para aprender como não fazer comerciais, outros apresentaram teorias da Comunicação, outros explicaram a fidelidade que consumidores têm em relação a marcas.

A maioria entendeu que o curta era uma crítica ao consumismo, à invasão do discurso publicitário na vida privada e cotidiana e à felicidade que é constantemente associada a cada produto anunciado. Alguns refletiram sobre suas futuras profissões, um se confessou confuso e abalado por ter que refletir sobre o caminho profissional que escolhera. Um punhado escreveu sobre ética: via de regra em termos abstratos (é preciso ser ético); mas um me intrigou, porque citou Zeca Pagodinho (que foi garoto-propaganda de uma marca de cerveja e depois de outra, concorrente) como anti-ético.

Vinte anos atrás, quando eu sabia os nomes dos jogadores do Corinthians, eu me espantava com a fidelidade dos torcedores ao time. Mas nunca considerei os jogadores que mudavam de time como anti-éticos. Por que se espera que alguém, que recebe dinheiro para fazer propaganda para um determinado produto, use esse produto fora dos comerciais? A estratégia de vestir a camisa (ou fumar o cigarro, como fazia o Marlboro Man) não é regra, afinal, não é o produto que interessa.

A vida privada mesclada com a ficção já é difícil de desentranhar. Percebo que atualmente, na mídia, a ficção se mescla com a publicidade. E a publicidade se mescla com a vida privada.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Coração

Acordei às 4 da manhã. Estava disposta para o novo dia - mas o dia ainda não tinha chegado. Tirei o veneno contra mosquitos da tomada, lavei as mãos e fui no banheiro. Não me pareceu adequado tomar café e começar o dia em plena escuridão.

Voltei pra cama, me cobri e fechei os olhos. Mas o sono não vinha. Mudei de posição, passei a ouvir a minha respiração e continuei esperando o sono. Pensei como costuma ser fácil adormecer ao lado do Luis: entro no mundo do sono escutando o seu coração (e o meu).

Fiquei com saudades de ouvir o coração do meu marido e com pena de mim por não conseguir dormir. Tentei escutar o meu coração. Senti o pulso, mas não havia movimento ali. Concentrei as minhas atenções nos batimentos, mas não ouvi nada no silêncio da madrugada.

Acho que o meu coração está no Rio, no coração do Luis.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Burocracia e violência

Era madrugada quando Luis e eu compramos a minha passagem de volta de Cachoeiro para o Rio (onde eu pegaria o avião para Porto Alegre, de onde eu pegaria outro ônibus para Santa Maria). Junto com o RG, guardei a passagem no bolso da calça - que foi pra máquina de lavar na manhã seguinte. Enquanto a máquina trabalhava, consegui pescar o RG. Mas a passagem não foi localizada.

Voltamos na rodoviária, explicamos que a máquina de lavar desintegrara a passagem e pedimos uma segunda via. O supervisor me disse que me daria uma segunda via se eu apresentasse um BO em que constasse o código da passagem extraviada. Pra facilitar, ele indicou o endereço da delegacia online em que eu podia fazer o boletim de ocorrência.

Fiz o boletim de ocorrência e relatei que a passagem tinha sumido na máquina de lavar. Recebi resposta por e-mail afirmando que o meu BO foi indeferido, "pois não houve perda, mas dano". Deu vontade de responder que os farelos de papel que consegui encontrar nas roupas não configuravam exatamente uma passagem danificada. Respirei fundo e decidi não apelar para a violência verbal.

Fomos até a delegacia de polícia, prestar BO. A delegacia que Luis conhecia tinha fechado e fomos, debaixo de chuva e trânsito lento, até o outro lado da cidade. O homem sentado atrás do computador não sabia onde estavam os formulários de BO, digitava como quem se depara com um teclado pela primeira vez, estudava a procedência do RG do Luis e acompanhava com muito mais interesse todos os casos circundantes: os três presos que tinham chegado e estavam enfileirados na parede, aguardando uma decisão; a mulher que vinha prestar queixa do genro que bateu na filha e levou a neta embora; o casal de turistas que tinha sido roubado, sabia que a moto estava no pátio aguardando perícia e tinha passagem de volta marcada naquele dia; a mulher que queria levar o BO impresso, feito no dia anterior.

O nosso caso parecia tão banal e irrelevante perto dos outros todos. Pedindo que constasse o código da passagem no relato do BO, Luis adotou uma postura de militar diante do burocrata que paulatinamente descobria as teclas do computador - e como se preenche um BO. Ficamos uma hora naquela delegacia, expostos à violência com que são tratados os cidadãos pobres e mal informados. Ficamos chocados com a burocracia anestesiada que se traduzia em machismo e impedia qualquer gesto de empatia.

Voltamos na rodoviária com o BO na mão. A moça que emitiu a segunda via no guichê me perguntou se eu tinha perdido a passagem ou se eu tinha sido assaltada. Expliquei que tinha perdido a passagem na máquina de lavar e ela concluiu, aliviada: "então não houve violência".

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A nova família

Dona Hermelinda e suas filhas: Mariinha e Madá
Paulo nos buscou no aeroporto de Vitória e nos levou no carro da Madá para Marataízes, onde todos os Cachoeirenses se refugiam do calor que faz nessa época do ano na cidade natal de Roberto Carlos. E em Marataízes a casa estava cheia. Os pais da Madá (ambos muito perto de completarem 100 anos), acompanhados pelas enfermeiras, dois irmãos (Matheus e Mariinha com família), Rafael, Madá e Luis Alberto estavam lá.
Luis Alberto e Gabriela, a neta de Mariinha

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Virada megaevento

Luis e eu nos despedimos com calma de Lucena e voltamos pelos coqueirais (e não pelo ferry-boat) para João Pessoa. Almoçamos e cortamos cabelo para terminar o ano velho e começar o ano novo bem e conseguimos nos comunicar com o Ninno por telefone.

O drama do telefone foi o seguinte: Luis tinha ganhado um telefone moderno (touch) de Natal, mas o devolveu pra mim, porque achou que teria dificuldades para manusear o aparelho. Digitar naquele teclado era difícil, atender chamadas foi um drama (que botão se aperta - e como?), coordenar os chips uma agonia (que saiu cara).

Conseguimos aprender a usar o telefone quando tivemos que combinar com a locadora de veículos a devolução do carro. Como a agência fica na beira da praia - que ficaria interditada por causa do réveillon - marcamos lugares e horários alternativos. O último combinado foi deixar o carro no estacionamento do aeroporto. E como ninguém receberia o carro, o horário da devolução ficava meio a nosso critério - contanto que antes da partida do avião.
Lírio aos 4 de quatro por Angry Birds
Seguimos as direções recebidas e paramos num bar perto da universidade para ligar pro Ninno. Estávamos a duas quadras de sua casa e fomos recebidos pelo Ninno e Lírio.
Ninno e Renata
Além da surpresa de ver o Lírio desse tamanho e tão a cara da Andréia, tivemos outras várias surpresas, como por exemplo encontrar o Luis Lafuente, ex-aluno meu da Unir, hospedado ali e reclamando do calor de Porto Velho. É que no Nordeste tem brisa... ou, formulado de outra maneira, ele era infeliz e não sabia.
Luis Lafuente
Passamos grande parte do tempo na casa de Ninno e Renata descansando, recobrando forças e baterias. O nosso voo partiria às 2 e meia e o plano do Ninno era que fôssemos todos à praia, ver a queima de fogos. Até que cada um tomasse banho, arrumasse cabelo, até que a comida no forno ficasse bem assada, demorou mais que o planejado. Luis estava com mais medo que não conseguíssemos voltar a tempo de pegar o carro estacionado na frente da casa do Ninno que eu, que ouvia do Ninno que daria certo e ouvia do taxista que em meia hora dava tempo de chegar da praia no carro.
Na cozinha-sala tem um balanço. Foto: Luis
Entramos todos num táxi e fomos pra beira da praia, olhando sempre no relógio. O trânsito estava pesado, mas não parado. Caminhamos bastante no calçadão até os amigos de Ninno e Renata e tivemos 5 minutos de espera até a meia-noite (que já tinha passado no resto do Brasil em que há horário de verão). Demos um abraço de feliz-ano-novo e de despedida nos nossos anfitriões e refizemos o caminho até o lugar onde pretendíamos pegar um táxi.

O trânsito fluía, esse não era o problema. O problema foi achar um táxi vazio. Todos estavam com passageiro, os pontos de táxi tinham deixado de existir e os pontos de ônibus estavam lotados, assim como os poucos ônibus. O tempo passava e o nosso desespero foi aumentando. Sabíamos que o nosso carro estava no Castelo Branco, o que dá uma corrida de R$ 40, mas não sabíamos o caminho, nem tínhamos meios de chegar até lá. A sensação de impotência era similar à que tivemos em Gramado, no Natal Luz, quando saímos para buscar os pais do Luis depois do Nativitaten e acabamos presos no trânsito parado por uma hora numa noite de frio. E eles lá, na beira do lago, passando mais frio ainda, esperando por nós.

Luis teve a ideia de abordar o primeiro que víssemos entrando num carro e pedir que nos levasse pelo dinheiro que tínhamos no bolso até o carro no Castelo Branco. Mas demorou pra isso acontecer. E quando aconteceu, já era 1 hora da manhã. O casal de velhinhos que nos ouviu, sentiu o desespero de perder o avião na nossa voz. Com toda a calma do mundo, nos levaram até o carro e receberam de bom grado os R$ 43 que nos restavam.

Claro que eu errei o caminho até o aeroporto uma vez e tive que pedir informações duas vezes (parece que estou desenvolvendo meu senso de desorientação e parece que ele tem picos em momentos de estresse). Claro que nos arrependemos de termos nos metido em outro evento de massas perto da água com queima de fogos com o tempo contado. Claro que aprendemos (na marra) a evitar multidões e megaeventos. Promessa de virada de ano: nunca mais ler horóscopo. O meu e o do Luis tinham alertado para evitar multidões na virada. O horóscopo se mostrou mais eficiente que a previsão do tempo! 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Piscinas naturais

Na penúltima manhã em Lucena, acordamos cedinho para participar de um passeio de barco. A referência era seu Arlindo - que todos conheciam, mas a gente nunca acertava a caiçara (cabana em que os pescadores guardam suas coisas de pescaria) dele. Um senhor nos levou (ele de bicicleta e nós de carro) até a casa do seu Arlindo - que nos deu direções precisas até o ponto de onde sairiam os barcos.
Depois de meia hora de barco com respingos de onda na cara, chegamos nos arrecifes. Cada barco (foram dois, contendo 5 turistas cada) tinha um óculos snorkel à disposição. Luis tinha comprado óculos de natação no camelô e eu monopolizei o snorkel. Juntos, nadamos encantados pelos corais cheios de peixinhos coloridos, grandes e pequenos. Se deixar levar pela correnteza daquela água salgada que nos fazia flutuar numa boa, vendo as maravilhas escondidas embaixo da água foi uma experiência fabulosa.

Os outros turistas ficaram entretidos com o tubarão-lixa preso no curral (no fundo da foto de baixo).
Eu tinha esquecido o cartão da máquina fotográfica dentro do computador, então a minha máquina ficou ociosa e foi estocada num canto do barco. Seu Arlindo tirou essas duas fotos da gente com a máquina de outro turista e ficou de anotar e-mails pra que recebêssemos as fotos. Quando chegamos em casa, notei que a máquina fotográfica não estava na nossa bolsa. Corri de volta na caiçara do seu Arlindo que lembrou que tinha jogado uma sacola escura na lata do lixo. E lá estava a minha máquina. De noite, quando fomos na lan house para nos conectar com o resto do mundo, o moço a dois computadores do nosso nos reconheceu das piscinas naturais e nos passou as fotos que estão aqui.

E assim, com essas sortes e pequenas maravilhas, decorreu a nossa (primeira) lua de mel.

domingo, 29 de dezembro de 2013

A outra ponta

 A outra ponta de Lucena termina num rio.
 Tentamos seguir pelo rio, mangue adentro, mas não chegamos muito longe.
 No entanto, a caminhada foi longa e boa.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Pontinha

André nos emprestou a rede de 15 metros dele e lá fomos nós, pescar na Pontinha. Quando chegamos no banco de areia que divide as marés, havia muitos banhistas e pescadores na paisagem, pra nossa surpresa.
Estendemos a rede três vezes, cada vez com mais prática. A parte mais difícil pra mim foi atravessar a zona do sargaço, pedras e estrelas do mar. Pisar em solo insólito me transformou numa espécie de sirene e devo ter assustado os peixes grandes. Pescamos 3 sardinhas, um bagre e vários peixinhos pequenos. Devolvemos ao mar dois baiacús e inúmeros peixinhos de tamanhos, cores e formatos variados. E as crianças ajudavam a desembaraçar a rede, mas tinham medo/nojo de pegar nos peixes.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Arrastão

Todas as manhãs o sol levanta antes das 5 (não tem horário de verão acima da Bahia). A maré  fica mais baixa às 8 e até às 9 tem arrasto na praia. O arrasto é uma atividade comunitária liderada pelos pescadores. 
A rede deles é enorme e é puxada para a praia através de duas cordas. O de verde e boné amarelo é quem coordena as ações de todos.
Conforme a rede vai aparecendo, mais gente vai botando a mão na massa e ajudando a tirar a rede do mar e depois os peixes do sargaço.
 As sobras cada um pode catar e levar pra casa numa boa, sem pagar.
 Mas os camarões grandes, as sardinhas e outros peixes vão pra cesta e são vendidos.
Nosso primeiro almoço em Lucena saiu dali.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A caminho de Lucena

Paulo nos levou de carro até Vitória no meio da madrugada. Embarcamos rumo a João Pessoa com escala no Rio de Janeiro e chegamos de manhã cedinho na Paraíba. Nossa mala estava no topo do carrinho de malas que iam pra esteira, eu vi. No saguão, uma voz insistia em recomendar que conferíssemos os nomes nas etiquetas das malas para evitar trocas. E não vimos mais a nossa mala na esteira e acabou sobrando uma mala grande, vinho com dois bolsos na frente, parecida com a nossa. Conversamos com a atendente da companhia, que contactou a pessoa indicada na etiqueta da mala que era parecida com a nossa. A mulher já estava na rodoviária e voltaria para desfazer a troca. A espera foi longa e o medo de sobrarmos com uma mala cheia de roupa de criança foi grande. Mas deu tudo certo.
Do aeroporto pegamos um táxi que nos deixou na Hertz (onde tínhamos reservado um carro) da Epitácio Pessoa. Estranhamos que não havia nenhum carro ali, mas seguimos até a porta de vidro fumê da cabine. Um segurança nos disse que aquele lugar tinha sido vendido um mês atrás e que agora a locadora de carros ficava na beira da praia. Ligou lá, informou nossos nomes e nos disse que viriam nos buscar. Outra espera longa. Mas ele veio, encheu o tanque e nos levou na nova agência (minúscula) na beira da praia.

Depois do almoço às 14:30 (o que parecia ser perfeitamente normal em João Pessoa, porque um monte de gente nova-classe-média chegou para almoçar depois de nós), seguimos para Cabedelo, onde pegamos a balsa para Costinha - que atravessamos - e chegamos em Lucena.

Em Lucena

Tínhamos um mapa, tínhamos instruções para chegar na casa do Sevá e tínhamos referências (tenda do seu Vivi na esquina, gelo na outra esquina etc.) sobre o bairro, mas não tínhamos ideia de como conseguir a chave da casa onde ficaríamos. Na casa ao lado, uma moça fazia faxina. Perguntamos ali e ela lamentou que o André tinha saído dali havia pouco. Mas não tínhamos certeza de que André era a nossa referência. Relemos as instruções do Sevá e lá constava o nome do seu Vivi. Enquanto caminhávamos em direção à casa dele, Luis escreveu mensagem pra Janaína, filha do Sevá - que respondeu antes de chamarmos pelo seu Vivi. A chave estava com o André. Decidimos voltar para a vizinha que fazia faxina. Em seguida, a moça nos apontou o André.

- Seu Vivi acaba de me contar que ele tava na frente da casa dele quando apareceu um casal andando na rua que parou, falou o meu nome e voltou. Daí eu achei que era o casal amigo do Sevá e vim trazer a chave pra vocês.
Na casa tinha fruta-pão, fruta do conde docinha, manga de vez, limões pequenos e cheirosos, acerolas em flor e romãs. A praia de Lucena tem duas pontas: numa desemboca um rio, na outra as marés se encontram.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Cachoeiro com emoção

O estado do Espírito Santo foi bastante castigado pelos efeitos das chuvas incessantes. Não foi fácil chegar em Cachoeiro de Itapemirim com os atrasos dos outros voos em conexão com o meu, com o tempo apertado e a chuva na estrada. Tivemos uma trégua no Natal e muito boas surpresas: Nelson, velho amigo do Luis, veio (com esposa e filha) passar a véspera de Natal conosco. E durante o leitão, cabrito e peru, marcamos uma pequena aventura para a manhã seguinte.
Nelson no quadriciclo
Nelson tem uma loja em que ele vende quadriciclos, jipes e outros motorizados potentes. Logo me colocaram ao volante de uma máquina de pneus altos e grandes, sem embreagem ou chave e com as seguintes "marchas": P (estacionar), R (ré), H (alta velocidade) e L (baixa velocidade). Coordenando freio e acelerador, manobrei o jipe pra fora da loja. E fui dirigindo alegremente até a primeira ladeira enlameada.
Nelson lá embaixo
Nelson, como excelente monitor, fez uma demonstração de como se sobe ladeiras enlameadas em alta velocidade. Tremi na base e passei o volante pro meu marido - que se mostrou um motorista de offroad experiente.
Itabira ao fundo
Passamos por florestas, descampados, águas e valetas. Ficamos agradavelmente surpresos com a paisagem que nos foi apresentada nessa manhã e com o motor do jipe e as técnicas de conduzi-lo (acelerando na reta para soltar a lama dos pneus, por exemplo).
Topo do monte
Havia uma árvore atravessada no meio do caminho, o que nos obrigou a fazer uma volta um pouco maior que o planejado. E quando paramos no alto do monte, pudemos ver Marathayzis, o Itabira, o Frade e a Freira e a Moça que Beija a Pedra. Depois do descanso, voltamos a assumir nossos postos. Nelson foi na frente e sumiu do horizonte. Luis e eu ficamos. E o carro não ligava. Tentamos todas as marchas, apertamos outros botões e nada. Saí do carro e procurei o Nelson - que já tinha entendido qual era o nosso problema: pisa no freio enquanto liga o carro!
Marathayzis ao fundo
O cabelo ao vento, os olhares risonhos, a sensação de estar num veículo que passa tranquilamente em terrenos difíceis e as belas paisagens foram um bom presente. Chegamos em casa cobertos de lama e alegria. Nelson se mostrou um companheiro e instrutor muito atencioso.
A Moça que Beija a Pedra
Assim que estendemos as toalhas do banho, começou a chover. Aproveitamos muito bem a janela de tempo bom em Cachoeiro.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Estado civil?

A secretária preenchia a ficha cadastral com os meus dados:
- Estado civil?
- Ssssou/ ih! Casei!
- Hihihi, ainda não te acostumou?
- Pois é, foi faz dez dias.
- Meus parabéns!
- Obrigada.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Casamos

Duas pessoas se uniram,
duas famílias se juntaram
para celebrar com alegria
a promessa de uma nova vida.

domingo, 24 de novembro de 2013

De volta ao asfalto

Nesse tempo todo que estou em Camobi (Santa Maria) - e isso já faz bem um ano: não lembro a data em que cheguei, mas lembro que tomei posse no dia 26 de novembro de 2012 - nunca tinha pedalado até Santa Maria. Hoje, no final da tarde de domingo, vesti minha bermuda de ciclismo, minha camiseta vermelha e fui até quase Santa Maria. Fui pela Faixa Nova e voltei pela Faixa Velha.

A última vez que pedalei em acostamento de estrada foi em Porto Velho e lá eu costumava ser a única ciclista. Aqui eles são bastante numerosos e todos (exceto eu) que pedalam bicicletas compradas em bicicletaria (e não no supermercado) usam capacete.

O cheiro de carniça, característico dos acostamentos, se fez presente aqui também. E eu, que achei que tinha visto de tudo no quesito animais atropelados (gatos, cachorros, cobras, lagartos, macacos, tatu e bezerro), me surpreendi ao ver os restos mortos de uma tartaruga (ou jabuti?) na Faixa Velha.

Fiz o percurso em 40 minutos. Na ida, fui com o sol na cara. Na volta, vim contra o vento = deu empate. Fui ultrapassada por um cara numa descida e ultrapassei esse mesmo cara numa subida. Apesar de não ter velocímetro funcionando na Amarilda (aquele lá parou de funcionar assim que ultrapassou a marca dos 8 mil km rodados), acho que consegui manter uma velocidade constante.

Próxima vez vou de Caloi 10, para garantir que as duas funcionam. Assim, quem sabe terei a companhia do meu então marido para finalmente concretizarmos a tão ensaiada expedição a Silveira Martins?

sábado, 9 de novembro de 2013

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Para marcar a data do casamento no cartório

Na primavera, Dona Baratinha, doidinha pra casar, foi no cartório pra procurar saber qual era o procedimento e quais eram os documentos necessários para realizar um casamento civil. Recebeu um bilhete em que havia várias informações, inclusive a de que a certidão de nascimento precisava ser atualizada. Procurou o cartório em que o seu nascimento foi registrado e pediu uma certidão atualizada.

Voltou ao cartório no verão, para mostrar os documentos do Sr. Samsa, que não nasceu no Brasil, mas fez a opção pela nacionalidade brasileira. Dona Joaninha achou que era um caso especial, mas estava tudo certo.

Na terceira vez que foi ao cartório, Dona Baratinha atentou à regra de que era preciso encaminhar os documentos um mês antes do casamento. Levou os seus documentos e os do Sr. Samsa. E cadê o noivo? perguntaram. Dona Baratinha respondeu que o noivo estava no Rio, mas que os documentos dele estavam todos ali. Não podia ser assim; ele deveria fazer uma procuração pública e específica para o casamento no nome de outra criatura qualquer. Dona Baratinha perguntou se ela poderia ser a procuradora dele. Não, não pode, você é a noiva. E cadê as testemunhas? Ué, vocês, joaninhas do cartório, não podem servir de testemunha? Não, as testemunhas precisam conhecer o casal. Puxa vida, mas que coisa... Uma das testemunhas pode ser o portador da procuração? Não pode.

Dona Baratinha passou a procurar amigos que pudessem ser testemunhas e portador da procuração do noivo. Dona Formiguinha tinha que trabalhar, mas ofereceu o marido como portador da procuração. Dona Borboleta se ofereceu como testemunha e ofereceu o namorado como segunda testemunha. No dia seguinte, Dona Borboleta disse pra Dona Baratinha que o namorado não podia comparecer ao cartório no dia e horário marcados. Afobada, Dona Baratinha procurou por uma segunda testemunha. O Grilo logo se prontificou a participar do processo. Dona Baratinha pediu ao vento que levasse ao Sr. Samsa a notícia de que era preciso fazer uma procuração.

Quando a carta com a procuração chegou, ninguém percebeu que o adjetivo "pública" - que deveria acompanhar a procuração - havia se perdido no meio do caminho.

Na quarta vez que Dona Baratinha foi ao cartório, foi acompanhada pelo portador da procuração, o marido da Dona Formiguinha, e as duas testemunhas: o Grilo e a Dona Borboleta. Ocupavam muito espaço no cartório, falavam muito alto e animadamente enquanto a Dona Joaninha estudava a papelada. Dona Joaninha disse que a procuração do Sr. Samsa tinha que ser pública. Explicou que isso é uma outra categoria de procuração e que o Sr. Samsa tinha ainda dois dias pra mandar a procuração por carta e que todos precisavam assinar os papéis quando a procuração pública chegasse. Dona Baratinha conversou novamente com o vento e pediu que procurasse o Sr. Samsa.

Desanimado com a notícia, Sr. Samsa procurou, no dia seguinte, um cartório que faz procurações públicas. A Dona Joaninha que fez e assinou a procuração pública do Sr. Samsa avisou que a Dona Joaninha que receberia a procuração ainda precisava reconhecer sua firma. Procurou no registro se havia intercâmbio entre os dois cartórios e verificou que não. Anexou um envelope lacrado (contendo o registro da Dona Joaninha) à procuração pública.

Dona Baratinha procurou o portador da procuração e combinou o mesmo horário do dia anterior na frente do cartório. A Dona Borboleta não adiantava procurar, porque ela já tinha dito que não poderia mais comparecer ao cartório de tarde. O Grilo tinha oferecido a esposa dele como segunda testemunha, mas cadê o Grilo? Dona Baratinha chamou, fez sinal de fumaça, escreveu carta e o tempo tic-tac-tic-tac avançando até o horário combinado. Quando Dona Baratinha já estava toda tonta de fazer telepatia, o Grilo apareceu alegre com sua esposa.

Na quinta viagem ao cartório, Dona Baratinha finalmente conseguiu marcar a data do casamento com o Sr. Samsa. Enquanto o marido da Dona Formiguinha, o Grilo e sua esposa, Dona Baratinha e Dona Joaninha estavam ocupados com assinaturas e documentos, as folhas sopradas pelo vento formaram as seguintes letras: C A S A   C O M I G O  ?

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O vestido de noiva

Quando estive com o Luis (agora nas férias) em Campinas, conseguimos comprar toda a roupa dele para o casamento: sapatos, paletó, calça e blusa. Faltava o meu vestido. Mas eu não estava preocupada, afinal eu já tinha encomendado pra Oma fazer um crochê que se veste por cima de um vestido longo, liso e simples.

Oma terminou o crochê quando voltei das férias. Ela passou dois dias me contando a aventura que foi fazer esse trabalho. Falava da dificuldade de entender a lógica da peça, o desafio de equilibrar quatro voltas da linha na ponta da agulha, a aventura que era acompanhar as variações da padronagem. Contou que concedeu a si mesma um dia inteiro de pausa depois que acabou esse crochê e mostrou a cortina que agora ocupa suas mãos nas horas solitárias.

O crochê estava lindo, faltava o vestido que eu usaria por baixo dele. Luis tinha insistido que eu procurasse uma costureira em Gramado, Oma concordou que fosse melhor eu encontrar uma perto de mim, em Santa Maria.

O Google me indicou oito costureiras em Santa Maria e duas no Camobi. Telefonei para a primeira, no Camobi, que esperou eu dizer a palavra mágica "vestido de noiva" para me responder que estava com a agenda lotada até o fim do ano. Com auxílio do GoogleMaps, tracei uma rota entre as outras costureiras e tomei um ônibus pra cidade.

No primeiro ateliê, a costureira perguntou se eu queria vestido de formatura. Mostrei a foto da revista de crochê, disse que o vestido era simples, mas ela estava com a agenda cheia até o ano que vem. Caminhei até o segundo ponto, seguindo a numeração das casas e esperando chegar no 1880 da Presidente Vargas. Ali, onde deveria estar o segundo ateliê de costura, havia um enorme espaço vazio: uma casa havia sido demolida. Do outro lado da rua, mais abaixo, vi um cartaz que anunciava "costura em geral". Quando cheguei perto, vi outro cartaz, menor, em que li: "precisa-se de costureira". Nem entrei.

No desespero, fui numa loja de aluguel de trajes. Tudo que deveria ser branco era de um branco sujo, como se todos os vestidos de noiva tivessem sido pendurados ao longo da 23 de Maio ou outra avenida movimentada, para absorverem bem toda a sujeira de poluição. E vestido de noiva sem bordados, brilhos, babados, rendas etc. estava difícil. Mostrei o crochê da Oma, que foi muito elogiado. Depois de muito tempo, encontramos um vestido que, com as devidas adaptações, poderia servir. O aluguel custaria R$ 90,00. Como continuei encarando a vendedora depois de ouvir o preço (na verdade eu estava lembrando do preço que pagamos na roupa do noivo), ela perguntou se eu achava caro. Confessei que eu não tinha ideia de quanto custam essas coisas.

Saí da loja com a sensação de que, com esse vestido alugado, eu decepcionaria o Luis e a Oma. O terceiro ateliê ficava numa rua que eu desconhecia. Pro meu azar, fiz anotações de roteiro no meu mapa das costureiras de Santa Maria que me confundiram - e acabei caminhando dois quilômetros a mais para chegar na Visconde de Pelotas (foi o carteiro quem me indicou a direção correta). Chegando no número indicado, dei de cara com um conjunto de prédios. Que sina! Um endereço dava para o vazio, outro dava para o excesso. Antes de desistir, olhei para as campainhas do prédio. Num número, havia um adesivo em que li "ateliê de costura".

Toquei a campainha, uma voz feminina atendeu e perguntou quem era. Eu tentava responder, mas ela não entendia nada pelo interfone. Decidiu: "vou abrir". Entrei no pátio dos prédios, procurando alguma seta ou placa que me indicasse o caminho por entre os vários prédios. Num, os apartamentos tinham números ímpares, no outro, toquei a campainha do 22. Em seguida, a porta do prédio abriu e eu entrei e subi as escadas.

Mostrei a revista de crochê e perguntei se ela tinha tempo de fazer um vestido assim. Ela teve curiosidade de ver o crochê e admirou e elogiou muito o trabalho da Oma. Tomou as minhas medidas e me indicou a loja de tecidos onde eu deveria comprar o tecido, o zíper e a linha (todos da mesma cor). Perguntei quanto ela cobraria e a resposta me surpreendeu: "R$ 50,00". Eu não disse que eu usaria o vestido no meu casamento, porque eu já havia experimentado o poder que a palavra "noiva" tem sobre costureiras.

Caminhei até a loja de tecidos e fui atendida por um senhor muito simpático: "tecido de vestido de festa, vamos lá". Comparou o cetim branco com o crochê branco e sentenciou: "o seu bordado não é branco-branco, é branco-pérola. Vamos procurar um tecido dessa cor." Quando fui pagar pelos 1,70m de tecido shantung, zíper e linha, nova surpresa: R$ 32,00. Ou seja, mandar fazer o vestido estava saindo mais barato do que alugar. E o tecido era melhor e teria o formato e tamanho que eu quero.

Com o tecido na sacola, fui na loja de sapatos. Sempre acho difícil gostar dos sapatos que vejo nas lojas, e dessa vez não foi diferente. Quando eu já tinha desistido de sapatos brancos e tava sentada, esperando a atendente me trazer sandálias com florzinhas coloridas, uma cliente experimentou um sapato que combina com o meu futuro vestido. Com o calçado no pé, a moça desfilou o sapato que os meus olhos tinham ignorado quando ele estava na vitrine. Elogiou o sapato: "bem delicadinho" e o devolveu à atendente. Fiquei feliz por ela ter me mostrado aquele sapato e mais ainda que não quis comprar o único par que a loja ainda tinha.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Língua e comunicação

"Our languages are not the prerequisite for communication;
rather, they are the result." (KELLER, 2004, p. 4)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A abordagem

Recentemente peguei carona. Por infortúnio, pegamos trânsito lento e o carro parou na altura de um policial. O homem olhou pra dentro do carro e mandou encostar. Enquanto encostava, o motorista pensou qual poderia ser o motivo da abordagem. Colocou o cinto antes do policial chegar.
- O motivo da abordagem, senhor, é que o senhor estava sem cinto. Eu vi.

*

Philip me contou que num dia bem bonito, tipo aqueles primeiros dias de primavera depois de um longo inverno, ele atravessou a rua sem olhar para o semáforo. Do outro lado da rua, um policial o abordou:
- O senhor confirma que acaba de atravessar a rua no farol vermelho?

*

Muito tempo atrás, logo na primeira vez que eu cortei o cabelo bem curtinho, fiz uma excursão ciclística a Paulínia. O acostamento era muito poroso e cheio de pedrinhas, de modo que eu me equilibrei com a minha bicicleta em cima da linha branca que separa a faixa do acostamento. O policial que me esperava de pernas afastadas e braços cruzados gritou:
- Quê que cê fez de errado, mermão?

Não considero que qualquer uma das posturas relatadas aqui seja defensável. Erramos todos que fomos abordados pelos policiais. Mas a maneira como fomos abordados é tão diversa... O grandalhão que me parou na rodovia achou que eu era homem (ficou super sem-graça quando percebeu o equívoco) e que era preciso ser autoritário. A tentativa de ser didático ficou na sombra da cordialidade. O policial que abordou o Philip negociou com ele uma verdade. O rapaz estava distraído, nem tinha se ligado no farol. Quando se virou para trás, viu a mudança de cores e se viu obrigado a concordar com o policial. Já o policial que abordou o motorista sem cinto de segurança insistiu em ter razão. O motorista poderia ter dito o que quisesse, o policial manteria a razão: eu vi.

domingo, 8 de setembro de 2013

Caminhar é preciso

Caminhar tem uma função:
experienciar o caminho.

Sentir os joelhos e os pés se movendo
ter consciência de que as pernas servem para andar
Sentir a postura do corpo e o impacto no chão
e ignorar o calor do sol
Ouvir os passarinhos, os passantes
e o ritmo dos próprios passos
Sentir o cheiro da primavera
espalhando pólen pelo ar
Lembrar de outros caminhos e
esquecer o ponto de partida e de chegada.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Joseph K

Assim como o personagem de Kafka, tento recorrer a todas as instâncias da máquina burocrática para resolver o meu caso. Como Joseph K, não entendo bem como surgiu o meu problema. Tal como Joseph K, não consigo conviver resignadamente com o imbróglio e me sinto ameaçada pelo desconhecido que me mostra que a minha palavra vale pouco ou quase nada e que confio mais nas funções das pessoas na máquina do que na capacidade das pessoas de cumprirem suas funções. Se eu fosse Joseph K, talvez descobrisse que o meu Processo foi um engano, uma falha no sistema, um descompasso imprevisto na burocracia; e teria vontade de me matar justamente porque o sistema deixou de funcionar como o previsto. Diferentemente de Joseph K, sobreviverei ao Processo e provavelmente terei que engolir um "desculpe o transtorno, mas é que aconteceu o seguinte..."

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Você é nova aqui?

Antes das férias, foram distribuídas as turmas do segundo semestre e foi enfatizado que qualquer mudança ou troca de disciplinas teria que ser feita em reunião, com a ciência de todos. Quando voltei das férias, vi que duas das minhas três disciplinas tinham sido trocadas.

Enquanto eu esperava a secretaria do meu departamento abrir, vi, no mural, que uma das disciplinas que eu daria (conforme havia sido combinado em reunião de departamento) estava sendo ofertada por um professor que mandava avisar que as aulas somente começariam na semana que vem.

A secretária do departamento me explicou que não pode desfazer a troca das disciplinas, só a chefe de departamento - que está fora. A vice-chefe, que responderia pela chefe na ausência dela, também está fora. Explicou também que aquele professor que de repente está de posse da minha disciplina - e que eu não conhecia - tinha sido pró-reitor na gestão passada e agora, que a gestão passada perdeu as eleições, estava voltando ao departamento.

A outra disciplina, uma DCG (optativa, cuja ementa e programa eu elaborei e que foi aprovada em reunião de departamento e encaminhada para a coordenação do meu curso), não chegou nem mesmo a ser ofertada por causa do conflito de horário com as duas disciplinas que me deram sem o meu consentimento.

Fui no DERCA, órgão responsável pela administração das turmas, disciplinas e tal. O funcionário que me atendeu entendeu a situação e me instruiu a escolher muito bem as palavras, porque esta não era apenas uma questão técnica, era, antes de mais nada, uma questão política que causava mal-estar e melindres. Como eu continuei com a fisionomia tensa, ele perguntou:
- Você é nova aqui?

Fui na Coordenação do curso ao qual pertencem as disciplinas que me foram atribuídas sem o meu conhecimento. Expliquei que a minha chefe e vice-chefe estavam ambas ausentes e que eu queria resolver logo a situação. Disseram que, na ausência da chefe e da vice-chefe quem responde é o diretor do centro e que ele teria a autoridade para fazer a mudança. Suspirei profundamente e me perguntaram:
- Você é nova aqui?

Fui na Diretoria do Centro de Artes e Letras, mostrei a cópia do memorando que encaminha o pedido da oferta da DCG, expliquei que a DGC não havia sido ofertada por causa do conflito de horário com as outras duas que apareceram na minha grade de horários não sei como. Quando ele entendeu o problema, mencionei que ainda havia uma outra disciplina que era minha e que tinha sido designada a outro professor que tinha sido pró-reitor. Mais uma vez, a famigerada pergunta:
- Você é nova aqui?
Respondi com a minha data de posse. O diretor do Centro teve a ideia de oferecer ao ex-pró-reitor, conhecido dele, as minhas duas disciplinas em troca daquela que tinha sido minha. Espero que consigam reverter a situação absurda em que fui colocada porque não tenho cacife pra ministrar as disciplinas que todos concordaram em reunião de departamento que eu daria.