sexta-feira, 18 de junho de 2010

A caracterização do vilão


Em Dick Tracy, os vilões são claramente caracterizados: têm algum tipo de deformação física. Ou têm a pele do rosto vulcânica, ou lábios grosseiramente salientes, ou cabeças balonicamente inchadas, ou sobrancelhas constantemente levantadas, ou têm os ombros tão largos que usam ternos em que caberiam duas pessoas jogando frisbee. Daí a dificuldade de reconhecer a Madona como vilã (ih, contei o final).

Quando vi Corpo fechado (Unbreakable), tive que prestar atenção na estória para identificar o vilão. Meu amigo Paulo Punk foi mais prático e se orientou pelo figurino. Quem é que usa sobretudo roxo? Só o vilão usa sobretudo roxo!

Ok, os dois filmes são intimamente ligados às HQs, em que o exagero é uma ferramenta de trabalho: o herói é altamente musculoso, a musa é impossivelmente (em termos anatômicos) esculturada, os olhos dos personagens de mangá são descaradamente abertos e grandes. Existem formas mais sutis do diretor marcar suas preferências e posições: trilha sonora ou filtros de cor.
 
Quando vi Cruzadas (Kingdom of Heaven) pela primeira vez, nem reparei no filtro azul aplicado em algumas cenas. Depois, conversando com uma moça da Pedagogia na Unicamp que estuda filmes, fiquei sabendo que havia um filtro azul e outro vermelho no filme, e que eles serviam a um propósito. Bom, é um filme de guerra, e quem conta a história de uma guerra não se furta a tomar partido. A moça me disse que o filtro azul era usado pra marcar o mocinho e o filtro vermelho pra marcar o vilão.

Depois de ver Prince of Persia, me deu vontade de rever Kingdom of Heaven. Reparei no filtro azul, sim, mas não identifiquei o vermelho. Também não percebi nenhuma sistematicidade no uso do filtro azul. O filme começa azulado com Balian, o ferreiro. O filme acompanha Balian, o cavaleiro, mas sem filtro. Não percebi a alternância de filtro azul e não-filtro azul quando as cenas se alternam entre os cristãos e os árabes. 

Fui procurar na internet uma razão que explicasse aquela afirmação da moça da Pedagogia que estuda filmes. Achei uma explicação convincente aqui. O filme que eu vi não era a versão do diretor, mas do estúdio. A versão do diretor tem 3 horas e meia de duração, e nele a aplicação dos filtros deve ser coerente, seja pra destacar os vilões ou outra coisa nessa direção. Não sei, não vi. Quero crer que a moça da Pedagogia e eu vimos diferentes versões do mesmo filme e confio que ela tenha feito uma análise sóbria.

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