sábado, 5 de junho de 2010

Sinistro

Imagem roubada daqui
A referência é ao Incredibly loud and extremely close do Safran Foer

Semana passada teve palestra do Chassot sobre ciência. Eu li o "A ciência é masculina? É sim, senhora!" dele e teria ido à palestra se não coincidisse com o cineclube. Quem recepcionou o professor gaúcho de 70 anos foram os químicos e alguns biólogos da Unir, portanto tive a oportunidade de sentar à mesa de jantar com o homem (depois do cineclube).

Lembrando de temas da palestra, alguém na mesa brincou com a imagem de uma mulher cientista, ainda mais uma mulher canhota. Como eu não entendi o drama, pedi esclarecimento:
- O canhoto é estigmatizado?
- "Canhoto" é um dos nomes do diabo. Outro sinônimo de canhoto é "sinistro".
- Sim, em italiano "sinistro" é a palavra para "esquerda".
- Em português também. 

Não insisti na minha pergunta, porque percebi que a análise que estava sendo feita de "canhoto" era linguística (diacrônica, não sincrônica) e não empírica. Não tenho a impressão de que os canhotos sofram preconceito na sociedade atual. Há estudos sobre canhotos e talentos especiais (concepção espacial, facilidade com a linguagem matemática), canhotos e sexo (há mais homens canhotos que mulheres canhotas) canhotos e propensão a doenças imunológicas (seja lá o que isso for), canhotos e linguagem (tanto deficiências como talentos, seja lá o que isso for). 

Quando vejo um canhoto, procuro perceber se é só a mão esquerda que assume as funções exercidas pela minha mão direita. Já reparei que num ciclista canhoto, os pés também são trocados: ele sistematicamente apoiava o pé direito quando parava a bicicleta.

Hoje existem tesouras, teclados, carteiras (escolares), guitarras, abridores de lata e outros instrumetos em versão "para canhoto". Existe o dia internacional do canhoto (13 de agosto) e em alguns esportes, os canhotos são valorizados (esgrima, beisebol, futebol e boxe).

Em algum momento na história, ser canhoto foi tido como ruim, fora do padrão, desvantajoso. Ser diferente costuma ser um problema social (vide homossexuais). Nesse momento, a ação de resolver problemas de motricidade fina com a mão esquerda foi associado ao diabo, o canhoto; e ao obscuro, o sinistro.

Retomando a leitura do Language Death, do David Crystal, me veio a faísca que explica o comportamento do Chassot: "as pessoas esquecem, a língua não esquece". As pessoas que vivem na sociedade atual não lembram mais por que ser canhoto é considerado ruim, mas a língua registrou que o canhotismo esteve ligado a um universo de sentidos negativos (o diabo, não-direito, agourento). O palestrante lembrou o que a língua registrou, mas que seus falantes já esqueceram.

4 comentários:

Fernando disse...

O sinistro não é ser canhoto. É ser ambidestro! A mãe da Kit tem problemas de orientação espacial. Frequentemente, numa estrada, dirigindo um carro, ela subitamente crê que está seguindo na direção errada. Quando criança, ela tinha propensão a ser canhota e forçaram-na a escrever com a mão direita. Isso fez com que ela desenvolvesse também a destreza (veja como, no outro lado do espectro linguistico, o fato de ser destro é valorizado), porém não abandonasse a habilidade canhota. Deixou como sequela, na minha opinião de neurologista amador, um tilt mental.

beijos!

PS.: Minha carta não cruzou o cerrado ainda?

Silvio Tambara disse...

Tá brincando que o dia do canhoto é 13 de Agosto? Só pode ser sacanagem.

Eu treino pra ser canhoto. Já consigo escrever na lousa com as duas mãos, o que é muito útil em matemática: vou escrevendo com a direita, com giz branco, e cancelando com a esquerda, com giz laranja.

É bom pra impressionar as visitas.

Telmo disse...

talvez os canhotos sofram preconceitos em lugares onde as pessoas usam a mão esquerda pra limpar a bunda e onde usam água e nao papel como aqui... argélia é um desses lugares, talvez...

iglou disse...

A "mão da higiene" nesses países em que se limpa a bunda com água é a mão esquerda.
Eu nunca prestei atenção em qual mão eu uso no banheiro, mas desconfio que eu seja capaz de me limpar com as duas mãos. Não é uma atividade que exige habilidades motoras refinadas, como por exemplo escrever ou recortar.

Em todo caso, o sujeito imerso nessas culturas em que a mão da higiene é marcada não vai sofrer preconceito na hora de se limpar (porque não costuma ser um ato público), mas na hora de comer. Se um sujeito desses resolver usar a mão da higiene para comer, aí sim pode rolar um preconceito.