Sentei na mesa, ele veio me atender dizendo:
- Sentaste na pior posição possível. Não quer mudar pra este lugar, pra perna encaixar melhor? É que essas mesas são meio complicadas.
Não mudei de lugar, nem pedi bebida.
Uma semana depois, volto ao mesmo restaurante num horário em que tinha poucas mesas vazias. Deixei a chave em cima da única mesa em que batia sol. Quando fui sentar, outras mesas tinham vagado e sentei na mesa ao lado daquela em que batia sol. O restaurante foi enchendo e uma guriazinha sentou-se na mesa ensolarada. De longe, o garçom veio:
- Tu veio tomar um bronze hoje?
Passou por mim, que já estava terminando o meu almoço, e confirmou:
- Tu não bebe nada, né?
Esse garçom não apenas atende: ele decide quais são as melhores mesas e como se deve sentar-se nelas. E pelo visto, mantém uma agenda mental dos clientes. Eu sou aquela que não bebe nada enquanto come e provavelmente serei ignorada completamente na próxima vez que eu for naquele restaurante.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
Se o cheiro saísse na foto...
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Por que progresso?
Surviving progress (2011) é um documentário sobre a "armadilha do progresso" em que nos metemos. Muitas das cenas foram filmadas no Brasil, o que (pra mim) é novidade. Mas não é novidade que tenham escolhido apenas dois cenários contrastantes - e que tenham sido São Paulo e a Amazônia.
O mais interessante do documentário é a constante pergunta "por que?" Por que se trancar numa lata de uma tonelada para se mover de um semáforo a outro? Por que acreditamos que o progresso se faz através das máquinas? Por que acreditamos que nossa miopia (que mira o conforto do indivíduo) não terá consequências para o coletivo?
Um dos entrevistados, um primatologista, define que a principal característica que nos diferencia dos primatas é a capacidade de perguntar (e investigar) por que. O filme tenta oferecer uma resposta por que valorizamos tanto o progresso, o que chamamos de progresso e por que estamos presos no esquema do progresso. O que (a meu ver) o filme não consegue fazer é provocar o espectador a se perguntar por que confia no progresso, por que é preciso frear o modelo.
Lembro de um refrão do Coolio que é mais ou menos assim:
When the revolution comes, I will be on front.
A revolução não vem se ninguém a fizer. Quanto mais nos conectamos à rede de computadores, menos nos conectamos uns aos outros e à vida na Terra. A revolução teria que ser maior que o indivíduo. O apelo do filme - como em tantos outros - é que cada um reduza, simplifique o seu consumo. Soluções individuais que passam pela tomada de consciência de cada um. Sabemos, desde as redações de vestibular (em que os candidatos insistem na solução-Chapolim para resolver todos os problemas do mundo), que isso não é solução coisa nenhuma.
Bogotá não virou cidade sustentável por uma súbita tomada de consciência dos cidadãos que resolveram usar suas bicicletas em vez de se endividarem para comparar um carro. Nem a Holanda sempre foi ciclista: a preferência pela bicicleta foi negociada, planejada, arquitetada, possibilitada pela infraestrutura oferecida aos cidadãos. A revolução é também fruto de uma decisão política.
Apesar de não gostar da solução que oferecem para o problema que é a desenfreada destruição do planeta, gosto da análise que o filme faz do assim-chamado-progresso.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Da margem ao centro
Foi por causa da disciplina de editoração de texto. Foi por causa da disciplina de editoração de texto que comecei a atentar para o que tem em volta do texto. Foi por causa dessa disciplina que eu comecei a me interessar por editoras, edições, impressoras, impressões, impressos e digitais. E foi por causa desse meu interesse baseado na necessidade de ensinar sobre o que eu não sabia, que Luis, que sabia que eu não sabia aquilo que eu tinha que ensinar, que o Luis que se interessa pelo que me aflige, que o Luis me apresentou à literatura marginal. Foi por causa da disciplina. Foi por causa da disciplina de editoração de texto que entrei no universo da literatura marginal. Foi assim.
Eu já tinha lido um conto do André Sant'Anna, publicado no Essa história está diferente. Na verdade, eu já tinha lido literatura marginal antes da disciplina de editoração de texto entrar na minha vida. O conto se chama Brejo da Cruz e é inspirado na piração que é a canção do Chico. Mas eu não sabia que aquilo que eu lia era literatura marginal. E quando não se sabe, não se pode dizer o que é. Fiquei impressionada com a oralidade, com a forma espiral de progredir. Repetia para seguir. Voltava para continuar. Como um bêbado contando estória. Conta e reconta. E se ninguém rir, conta de novo. Mas eu não sabia que lia literatura marginal. Foi só quando comparei o texto que ele me trouxe com o que a minha memória ainda retinha do Brejo da Cruz, que entendi que a Companhia das Letras tinha publicado literatura marginal. Aí eu entendi que a literatura marginal estava entrando no centro. Porque a Companhia das Letras é mais centro que a Intrínseca que é mais centro que a Livros do Mal que provavelmente não existe mais.
Daí eu fui na aula de editoração de texto com um livro do Ferréz na mochila. E com outro do Plínio Marcos. Nenhum meu, todos do Luis. O Luis que me trouxe da metrópole os livros que eu leria no interior. Isso é que é doido: os livros de literatura marginal vieram do centro para a margem. Santa Maria é centro pras cidadezinhas em volta, mas não é centro em comparação com Porto Alegre ou Rio de Janeiro, que um dia já foi capital do país. Com os livros de literatura marginal na mão, eu queria falar de editoras. Queria falar do Brejo da Cruz de André Sant'Anna publicado pela Companhia das Letras, queria falar do Capão Pecado de Ferréz publicado pela Objetiva, queria falar do Inútil canto e inútil pranto pelos anjos caídos de Plínio Marcos publicado por ele mesmo, pela editora Lampião. A editora Lampião não tem ficha catalográfica ou ISBN. Tem endereço e telefone. E ponto.Um dos alunos, um cara que lê, um sujeito que curte literatura, que conhece literatura marginal, um rapaz que tem discernimento, esse aluno arregalou os olhos. Ficou surpreso quando folheou o Capão Pecado da Objetiva que o Luis tinha trazido do centro. Ficou surpreso quando entendeu que o livro publicado pela editora mais central que a Labortexto não era mais tão marginal. Ficou surpreso quando viu que as arestas tinham sido polidas, que as imagens tinham sido lavadas, que as interferências tinham sido apagadas. Na aula seguinte, me trouxe a sua edição de Capão Pecado. Não dá pra dizer que é o mesmo livro, porque foi publicado por outra editora. A editora que publicou o livro dele é a Labortexto. A Labortexto publicou o texto do Ferréz e as imagens e as intervenções. A edição da Labortexto tem 23 páginas a mais que a edição da Objetiva. Objetivamente, isso corresponde a 37 fotografias, um agradecimento, 12 estrofes da dedicatória, a segunda parte da dedicatória, a epígrafe e as intervenções de Mano Brown, Cascão e Conceito Moral. A edição da Objetiva tem, enquanto a da Labortexto não tem, uma intervenção do Ratão e outra do Garrett. E por fim, o que era prefácio virou posfácio. Enfim.
Quanto à prosa do Ferréz, o Luis, que leu o livro de novo antes de me entregar o livro, ele me ouvia enquanto lia os diálogos da periferia:
"- E aí, Zeca! Quer uma cerva gelada?Quando eu li o livro, reconheci as gírias paulistas e tudo mais, mas eu não me ouvia. Eu não falo assim, tá ligado? Eu ouvia o Esteves, figura que saiu da Favela Monte Azul e falava assim, cê tá ligado, bicho?
- Não, Burgos, eu tô a pampa. Porra, o bagulho tá cheio hoje, hein, mano!
- É, o bar do Polícia é o point agora, cê tá ligado? Também, o lava-rápido lá perto da igreja fechou; lá dava umas duas mil pessoas, mano.
- O que pegava lá, Burgos, é que o som da equipe tinha uma puta qualidade, aqueles manos da Thalentos são foda, além do equipamento eles agitam o pessoal pra caramba."
(p. 42 - Labortexto, p. 29 - Objetiva)
"- Vixe, nem te falo, mano, o filha da puta só acorda depois das cinco da tarde, nem adianta colá lá agora, é mais fácil vocês irem à casa do Panetone, pois ele é um dos pouquíssimos que acorda cedo.A periferia, a marginalidade, a vida hardcore, núcleo duro do Capão Redondo (SP) está nos diálogos. Isso alertou o Luis quando reclamei que na prosa, na parte descritiva, Ferréz abusa dos advérbios e sinônimos imperfeitos de verbos, quase escreve como os meus alunos que mal fazem malabares com as palavras:
- Certo, então nós tamo indo lá, depois a gente se cruza, tá ligado?"
(p. 44 - Labortexto, p. 31 - Objetiva)
"Rael dormiu tranqüilamente e no dia seguinte trabalhou como sempre, atendendo os clientes com muito carinho e atenção. (...)A conclusão está na mão. O texto que foi publicado por uma editora menos marginal que a anterior centralizou-se. A centralização é a submissão ao padrão, à norma que é texto e não imagem, prosa e não poesia num texto de prosa. Marginal é o misturado, o colado, o de difícil classificação. A conclusão é uma só. O escritor de literatura marginal apresenta o mundo marginalizado pela sociedade, mas tenta ele mesmo inserir-se no centro através da prosa descritiva que mal descreve a crueza da vida no Capão Redondo, que procura adornos linguísticos que cintilam, mas ficam fora de tom. Tipo as sandálias que vejo brilhando coloridas, estampadas e escandalosas nas vitrines. A conclusão é que em Capão Pecado eu vejo a literatura marginal querendo ser centro. Querendo escrever bonito, sem assumir por completo a linguagem corrente. Em comparação, Plínio Marcos é mais representativo da literatura marginal porque transita melhor entre margem e centro e assume a postura da margem numa linguagem que o centro entende.
Rael se despediu de Marcão e Celso, que eram irmãos e donos da padaria, subiu a rua Ivanir Fernandes e depois passou pela Falkemberg. De lá ele avistou a escola Maud Sá e ainda pensou em passar na quadra pra ver se tinha uns colegas jogando bola, mas deu prioridade em achar a metalúrgica. Prosseguiu e chegou na rua da feira, avistou a padaria São Bento (...)."
(p. 58 - Labortexto, p. 44 - Objetiva)
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
O som que atravessa
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| O som ao redor |
"O som ao redor" é dividido em três partes: 1) cães de guarda, 2) guardas noturnos e 3) guarda-costas. A questão da segurança na metrópole pode ser identificada como um fio condutor do filme que conta com vários personagens que vivem/ transitam na mesma rua. O espaço que guardas e guardados dividem é o mesmo, com a diferença de que os guardas ficam fora da casa e os guardados se trancam dentro. Por isso mesmo o espaço é disputado. O som ampliado no filme, tanto aquele que causa incômodo aos personagens como aquele que ressalta a vingança de outros, costura a narrativa solta e fragmentada.
A narrativa atravessa o tempo: a primeira cena é uma foto antiga de uma família na frente de um engenho de açúcar. Todas as cenas seguintes se passam na Recife atual. No tempo do engenho de cana, uma autoridade central detinha o monopólio (tanto dinheiro como força a seu serviço). No tempo atual, cada um se defende contra o mundo como pode: o poder está fragmentado e milícias fazem o papel da polícia. E um dos fragmentos volta para cobrar seu preço: "O senhor não se lembra? Pois eu tinha seis anos - e eu lembro."
A narrativa atravessa o espaço: o dono de metade dos imóveis daquela rua chama a trama da cidade para o engenho. Na cidade, o espaço privado é pouco pra tanta gente, mas a rua é vazia. E ainda assim, aquela rua é um simulacro do engenho: a família do coronel continua mandando no pedaço.
Por fim, a desigualdade social atravessa os personagens: um dos netos do coronel herda o ofício de administrar os bens da família enquanto agente imobiliário, o outro herda a truculência, o poder desmedido de quem não deve explicações. O filho do coronel acha um absurdo pagar a um grupo de seguranças para que façam a vigilância da rua, afinal de contas, aquela rua é herança sua. Do outro lado da linha social estão os rapazes que oferecem o serviço de segurança; o rapaz que, em troca de uns trocados, tenta ajudar a madame com suas bolsas, é repelido e risca seu Audi; a empregada que entra na casa de um morador daquela rua com o segurança que tem a chave (porque ficou incumbido de regar as plantas) e quer "na cama"; e a vizinha invejosa que ataca a outra que recebe em sua casa uma TV algumas polegadas maior que aquela que a ressentida conseguiu comprar. No meio, entre os muito ricos e os pobres, está a mãe de família de classe média que deixa que seus filhos decidam sua rotina infantil: paga um curso de inglês pros filhos, depois muda pra chinês quando a filha argumenta que já têm aula de inglês na escola. Essa mulher que naturalmente vive entre grades, paga ao guarda o que ele pede sem se perguntar se isso é necessário e passa o filme inteiro incomodada com o cachorro do vizinho (que existe para garantir a segurança do lar) representa a classe média.
O medo de ser invadido permeia o filme todo: o coronel de engenho tem medo de perder o monopólio, a criança de classe média tem um pesadelo em que a casa é tomada por infinitos assaltantes, o agente imobiliário ouve passos acima de si quando mostra o porão do antigo engenho pra namorada e se sente incomodado ao ver que a empregada traz as netas e o genro (ou filho?) que se espalham na casa. O agente imobiliário, o personagem mais pacato de todos, é atormentado por um rio de sangue que nem faz parte de sua memória, mas define o passado de seu avô, ou seja, o medo é herdado pelas gerações mais novas.
O som ao redor não se fixa num enredo, num espaço ou tempo. O filme mostra o "mapa sonoro" do cotidiano que nos atravessa: o som do ambulante, do cachorro que late para todos os pedestres, das bombinhas que estouram em cadeia, da máquina de lavar, do aspirador de pó, do grito catártico, do menino que pede a bola, do carro que bate, das pessoas que cantam parabéns, dos que pulam o muro.
Lamentando que o som da sala de cinema não estava à altura da exigência do filme, recorto um trecho de Sacks (Alucinações Musicais, p. 148):
A genuína percepção em estéreo, seja ela visual ou auditiva, depende da capacidade do cérebro para inferir a profundidade e a distância (...) com base nas disparidades entre o que está sendo transmitido pelos dois olhos ou ouvidos individualmente - uma disparidade espacial no caso dos olhos, e temporal no dos ouvidos. São minúsculas as diferenças envolvidas: disparidades espaciais de alguns arcsegundos para a visão, ou de microssegundos para a audição. Isso permite a alguns animais, especialmente predadores noturnos como as corujas, construir um verdadeiro mapa sonoro do ambiente. Nós, humanos, não estamos à altura desse padrão, mas ainda assim usamos disparidades biaurais, tanto quanto indicações visuais, para nos orientar, para julgar ou formar impressões sobre o que nos rodeia.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Araçá
A placa dizia "myrtaceae", mas esse nome também se aplica às pitangas. A frutinha que comemos tinha como nome popular "araçá" e tinha um gosto difícil de definir. Luis disse que o gosto era de goiaba com jambo, e acho que essa descrição é a melhor a que se pode chegar.
Havia muitos pés de araçá no Jardim Botânico da UFSM. Tantos, que deu araçá de sobremesa e depois suco.domingo, 10 de fevereiro de 2013
Jardim botânico
A UFSM tem um Jardim Botânico em seu terreno. Infelizmente ele está abandonado (as hortas estão com mato tão alto, que às vezes não dá pra identificar no canteiro a planta medicinal anunciada na placa). Muitas coisas nesta universidade são geridas por bolsistas. E ali no jardim botânico eles estão em falta.
Assim que chegamos, fomos saudados por essa gatinha. Conforme andávamos, ela nos acompanhava - miando e saltando de sombra em sombra. Nas partes de grama expostas ao sol, ela corria que dava gosto de ver. Fiquei com muita saudade de Akari e Mustafá ao brincar com essa gatinha carente.
Muitas plantas são de clima temperado, como por exemplo esse carvalho:
Na estufa tinha algumas preciosidades:
Margeando a cerca, o cactário:
E uma coleção de bambus pra fechar a visita.
| Joaninha |
Muitas plantas são de clima temperado, como por exemplo esse carvalho:
Na estufa tinha algumas preciosidades:
Margeando a cerca, o cactário:
E uma coleção de bambus pra fechar a visita.
Jardim de apartamento
Luis já tinha coletado umas plantas no jardim da Oma (sálvia, melissa, hortelã, orégano e flor de cera) e vizinho (manjericão e alecrim). Daí, na vez seguinte que ele veio, fomos na floricultura, comparar vasos, terra, potes e mais plantas. Juntamos pedras da rua e montamos o nosso jardim. Temos pimenteiras, laranjeiras, flor de mel, onze horas, boldo, alcachofra, gengibre, salsinha, cebolinha e coentro.
Como o sujeito que mora no quarto andar costuma ligar o ar condicionado todo dia depois do almoço, e como a aguinha do ar condicionado dele pinga nas caixas para ar condicionado dos apartamentos dos outros andares espalhando as gotas de água, não é preciso se preocupar muito em regar as plantas.
Logo que havia mais de quatro mudas na nossa flora de apartamento, começaram a aparecer indivíduos da fauna: primeiro mosquitinhos coloridos, depois grilos, agora temos uma família de sapinhos fazendo festa de noite.
Como o sujeito que mora no quarto andar costuma ligar o ar condicionado todo dia depois do almoço, e como a aguinha do ar condicionado dele pinga nas caixas para ar condicionado dos apartamentos dos outros andares espalhando as gotas de água, não é preciso se preocupar muito em regar as plantas.
Logo que havia mais de quatro mudas na nossa flora de apartamento, começaram a aparecer indivíduos da fauna: primeiro mosquitinhos coloridos, depois grilos, agora temos uma família de sapinhos fazendo festa de noite.
sábado, 2 de fevereiro de 2013
Como aprendemos
Será que aprendemos alguma coisa nas aulas? Será que somos capazes de debulhar um problema sob diversos aspectos a partir da fala do professor? Será que somos estimulados a reconhecer como conhecimento - e reter tal conhecimento - as informações apresentadas durante o tempo da aula?
Eu aprendi mais quando tive que ensinar. Aprendi inglês quando virei professora de inglês, aprendi a caminhar no campo da Linguística quando virei tutora lá em Bremen, aprendi a ver a Linguística de fora quando dei aula de Linguística Geral em Porto Velho (foi epifânico). Lembro ainda de um seminário espetacular que demos em grupo na USP sobre tópico discursivo. A professora nos deu zero. O fato é que aprendemos tanto sobre o assunto, que vimos os limites do modelinho que ela nos tinha proposto e o extravazamos. Paradoxalmente, o trabalho que eu recordo como sendo o mais produtivo na minha vida de graduanda foi premiado com uma nota zero.
Flusser afirma que escrever é uma forma de pensar. Luis, meu quase-marido, se deu conta de que está aprendendo sobre o seu objeto de estudo durante o processo de escrita. Escrever uma tese, a meu ver, é ensinar ao público leitor sobre o objeto de estudo.
Em todo caso, para se aprender, é preciso fazer, não basta ouvir e ver, copiar e repetir.
Eu aprendi mais quando tive que ensinar. Aprendi inglês quando virei professora de inglês, aprendi a caminhar no campo da Linguística quando virei tutora lá em Bremen, aprendi a ver a Linguística de fora quando dei aula de Linguística Geral em Porto Velho (foi epifânico). Lembro ainda de um seminário espetacular que demos em grupo na USP sobre tópico discursivo. A professora nos deu zero. O fato é que aprendemos tanto sobre o assunto, que vimos os limites do modelinho que ela nos tinha proposto e o extravazamos. Paradoxalmente, o trabalho que eu recordo como sendo o mais produtivo na minha vida de graduanda foi premiado com uma nota zero.
Flusser afirma que escrever é uma forma de pensar. Luis, meu quase-marido, se deu conta de que está aprendendo sobre o seu objeto de estudo durante o processo de escrita. Escrever uma tese, a meu ver, é ensinar ao público leitor sobre o objeto de estudo.
Em todo caso, para se aprender, é preciso fazer, não basta ouvir e ver, copiar e repetir.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
Documentário para os ouvidos
Descobri, meio que por acaso (dirigido), uma excelente fonte de documentários sonoros sobre grandes figuras da música brasileira. Em doses homeopáticas e ao longo de muitos dias, ouvi a ópera para os ouvidos que é o documentário sobre Jorge Ben Jor.
Muitas pessoas batutas são entrevistadas, são resgatadas histórias pontuais e panos de fundo gerais. Enfim, aprendi tanto sobre o artista e sua música como sobre a música (o pensamento musical).
A Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, oferece também outros documentários (Luiz Gonzaga, João Gilberto e Noel Rosa estão ao lado de Jorge Ben Jor). Pretendo ouvi-los todos na rede.
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Caminhada branca
Confesso que me surpreendi quando encostei no balcão de passagens em Porto Alegre e a moça atrás do vidro me vendeu uma passagem pra Santa Maria dali a 10 minutos. Isso significava que, no dia depois da tragédia, o fluxo já não era mais em direção a Santa Maria.
Quando desci do ônibus em Camobi (bairro em que fica a UFSM e que fica a 10km da cidade), o silêncio me assustou. Cheguei a pensar que de agora em diante havia um acordo tácito de que era proibido rir, fazer barulho, cantar.
De noite havia uma caminhada marcada pra sair da praça Saldanha Marinho no centro e chegar no ginásio onde os corpos tinham sido velados. Não era pra levar velas, mas era pra vestir branco. No ônibus que peguei no Camobi quase todos estavam de branco. Aliviada, reparei que a alegria não tinha morrido. Os que estavam de branco desceram todos no mesmo ponto, subiram todos a mesma rua e se juntaram todos na mesma praça.
Na praça havia um mar de gente. Conversavam pouco. O máximo que saía era um "e aí" que obtinha como resposta outro "e aí" na mesma entonação. Registrei mais abraços e olhares tristes do que conversas, bandeiras, cartazes e protestos. Ondas de palmas vinham e se iam; não sei o que aplaudiam. Balões brancos foram soltos, mas eles voltavam e estouravam. Ouvi murmúrios diluídos do Pai Nosso e ouvi como cantavam (mais de uma vez) o hino gaúcho com fervor:
Mostremos valor constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra
A massa branca se pôs em movimento. No trajeto, reparei que havia pouca gente nas janelas. Isso me deu a sensação de que a cidade inteira estava de branco e na rua. A massa branca caminhou até o ginásio. Lá de dentro ouvimos gritos e palmas. A massa respondeu e dispersou. Não caberia todo mundo dentro do ginásio e não era o propósito incomodar os remanescentes com a nossa presença.
Quando desci do ônibus em Camobi (bairro em que fica a UFSM e que fica a 10km da cidade), o silêncio me assustou. Cheguei a pensar que de agora em diante havia um acordo tácito de que era proibido rir, fazer barulho, cantar.
De noite havia uma caminhada marcada pra sair da praça Saldanha Marinho no centro e chegar no ginásio onde os corpos tinham sido velados. Não era pra levar velas, mas era pra vestir branco. No ônibus que peguei no Camobi quase todos estavam de branco. Aliviada, reparei que a alegria não tinha morrido. Os que estavam de branco desceram todos no mesmo ponto, subiram todos a mesma rua e se juntaram todos na mesma praça.
Na praça havia um mar de gente. Conversavam pouco. O máximo que saía era um "e aí" que obtinha como resposta outro "e aí" na mesma entonação. Registrei mais abraços e olhares tristes do que conversas, bandeiras, cartazes e protestos. Ondas de palmas vinham e se iam; não sei o que aplaudiam. Balões brancos foram soltos, mas eles voltavam e estouravam. Ouvi murmúrios diluídos do Pai Nosso e ouvi como cantavam (mais de uma vez) o hino gaúcho com fervor:
Mostremos valor constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra
A massa branca se pôs em movimento. No trajeto, reparei que havia pouca gente nas janelas. Isso me deu a sensação de que a cidade inteira estava de branco e na rua. A massa branca caminhou até o ginásio. Lá de dentro ouvimos gritos e palmas. A massa respondeu e dispersou. Não caberia todo mundo dentro do ginásio e não era o propósito incomodar os remanescentes com a nossa presença.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
A tragédia de Santa Maria
Fiquei sabendo da notícia pelo rádio. Na manhã de domingo, o delegado (ou bombeiro?) entrevistado anunciava cerca de 30 mortos. Comentava com calma que seria feita uma perícia e que ele ainda não podia divulgar números antes das investigações. Ao longo da manhã, o número de vítimas aumentava drasticamente.
Minha mãe ligou no meu celular lá de Bruchhausen-Vilsen, minha tia e vó me ligaram pra confirmar que eu não frequento boates. Todos os familiares ficaram aliviados quando disse que estava passando o fim de semana no Rio de Janeiro.
Os programas de TV (vimos Globo Esporte, um rabinho do Faustão e o início do Fantástico) que acompanhei nas horas de refeição com o Luis - que também não tem televisão - incorporavam notícias sobre a tragédia de Santa Maria em sua programação. O Fantástico foi quase todo sobre a tragédia de Santa Maria. Dilma largou tudo no Chile e foi a Santa Maria. Essa tragédia alimentou a mídia por um dia inteiro. E as pessoas consumiam os números crescentes de mortos, comentavam a notícia e se indignavam dentro e fora do país: recebi e-mails de amigos em Rondônia, Paraíba, Campinas e Holanda. Todos pediam notícias e adivinhavam que talvez algumas das vítimas tenham sido meus alunos. Não eram: li as listas, não reconheci os nomes.
Na tarde do domingo, a UFSM decretou luto por 3 dias. No fim do dia, divulgou uma lista de 114 vítimas fatais do incêndio que eram alunos da universidade. Em seguida, o luto foi estendido até 4 de fevereiro (o que implica em novas alterações no calendário acadêmico).
Todas as notícias apontavam como a sequência de erros, falhas e faltas de entendimento/orientação na boate tinha sido assustadora. No rádio, ouvimos que os seguranças impediram a saída dos jovens por 8 minutos, com a alegação de que tinham que pagar a conta antes de sair. Fica evidente que os seguranças não foram treinados para lidar com situações de emergência, apenas com pessoas que tentam consumir sem pagar. No Fantástico, ouvimos o especialista dizer que as pessoas devem ter morrido asfixiadas em 4, 5 no máximo 6 minutos.
Muitos morreram amontoados na região dos banheiros, provavelmente procurando uma saída alternativa (banheiros costumam ter janelas). Oferecer apenas uma saída para uma capacidade de 1.500 pessoas me parece criminoso. Os primeiros extintores usados para apagar as chamas no teto de isopor não funcionaram. Li no jornal (que ofereceram no avião do Rio a Porto Alegre) que o alvará da boate tinha vencido, mas que estavam providenciando um novo. Mesmo assim, o papel não resolve: é preciso que o alvará corresponda a condições reais de segurança. Não adianta ter alvará para um estabelecimento que só tem uma porta e extintores vencidos. Lembro do laudo de vistoria técnica dos bombeiros quando inspecionaram as condições de segurança na UNIR. As irregularidades eram tantas, que os bombeiros concluíam que a vida das pessoas e a integridade do patrimônio da universidade estavam em risco. No entanto, não interditaram a UNIR. Adianta ter alvará? Nem o laudo dos bombeiros nos adiantou.
Quando vi as imagens das pessoas abrindo as paredes com marretas, reparei que os homens estavam sem camiseta. Logo imaginei que teriam morrido mais mulheres do que homens na boate, porque duvidei que as mulheres tenham tirado suas blusas para criar uma espécie de filtro e assim inalar menos fumaça tóxica. Os números de homens e mulheres mortos são semelhantes, invalidando a minha hipótese. E ouvi no rádio, no caminho da casa do Luis ao aeroporto, que botar a camiseta na frente do nariz e boca alivia, mas não salva. Além de quente, a fumaça era altamente tóxica.
A banda era conhecida por seus efeitos pirotécnicos. E provavelmente a banda costumava se apresentar em lugares abertos. Não ser capaz de se adaptar à nova situação de boate fechada com teto baixo e cheio de revestimento acústico me parece se enquadrar numa espécie de darwinismo cruel: adapt or die.
Me chamou atenção que a notícia da tragédia e suas primeiras imagens tenham sido veiculadas pela internet (arrisco adivinhar: Facebook). Esse público está profundamente imerso no mundo digital/ virtual. Ouvi depoimentos de que durante a retirada dos corpos, o som dos celulares tocando era atordoante. Li no jornal o depoimento de uma mãe que ligou pro celular do filho. Quem atendeu foi um policial que informou que o rapaz estava morto. Pareceu tão irreal, que demorou pra mulher entender.
É preciso aprender com os erros. Como era possível uma casa noturna funcionar com apenas uma porta, pela qual entram até 1.500 pessoas? Como era possível os seguranças não entenderem a gravidade da situação e se escorarem no famoso "ordens são ordens, fui treinado para controlar o fluxo de consumidores, não de pessoas"? Como pode não haver leis nem fiscalização?
Um contra-exemplo de leis e fiscalização rígidas (demais) eu ouvi no rádio do taxi que me levou ao aeroporto: no mesmo domingo de pré-carnaval carioca, 156 foliões foram presos por mijarem na rua. Mijar na rua dá prisão; oferecer condições precárias de segurança dá em tragédia.
Onde estão os equipamentos de lazer para essa juventude? Não há parques na cidade, onde estão as praças de eventos, as casas de shows? Não vejo em Santa Maria o agito da vida cultural de Barão Geraldo, por exemplo.
Minha mãe ligou no meu celular lá de Bruchhausen-Vilsen, minha tia e vó me ligaram pra confirmar que eu não frequento boates. Todos os familiares ficaram aliviados quando disse que estava passando o fim de semana no Rio de Janeiro.
Os programas de TV (vimos Globo Esporte, um rabinho do Faustão e o início do Fantástico) que acompanhei nas horas de refeição com o Luis - que também não tem televisão - incorporavam notícias sobre a tragédia de Santa Maria em sua programação. O Fantástico foi quase todo sobre a tragédia de Santa Maria. Dilma largou tudo no Chile e foi a Santa Maria. Essa tragédia alimentou a mídia por um dia inteiro. E as pessoas consumiam os números crescentes de mortos, comentavam a notícia e se indignavam dentro e fora do país: recebi e-mails de amigos em Rondônia, Paraíba, Campinas e Holanda. Todos pediam notícias e adivinhavam que talvez algumas das vítimas tenham sido meus alunos. Não eram: li as listas, não reconheci os nomes.
Na tarde do domingo, a UFSM decretou luto por 3 dias. No fim do dia, divulgou uma lista de 114 vítimas fatais do incêndio que eram alunos da universidade. Em seguida, o luto foi estendido até 4 de fevereiro (o que implica em novas alterações no calendário acadêmico).
Todas as notícias apontavam como a sequência de erros, falhas e faltas de entendimento/orientação na boate tinha sido assustadora. No rádio, ouvimos que os seguranças impediram a saída dos jovens por 8 minutos, com a alegação de que tinham que pagar a conta antes de sair. Fica evidente que os seguranças não foram treinados para lidar com situações de emergência, apenas com pessoas que tentam consumir sem pagar. No Fantástico, ouvimos o especialista dizer que as pessoas devem ter morrido asfixiadas em 4, 5 no máximo 6 minutos.
Muitos morreram amontoados na região dos banheiros, provavelmente procurando uma saída alternativa (banheiros costumam ter janelas). Oferecer apenas uma saída para uma capacidade de 1.500 pessoas me parece criminoso. Os primeiros extintores usados para apagar as chamas no teto de isopor não funcionaram. Li no jornal (que ofereceram no avião do Rio a Porto Alegre) que o alvará da boate tinha vencido, mas que estavam providenciando um novo. Mesmo assim, o papel não resolve: é preciso que o alvará corresponda a condições reais de segurança. Não adianta ter alvará para um estabelecimento que só tem uma porta e extintores vencidos. Lembro do laudo de vistoria técnica dos bombeiros quando inspecionaram as condições de segurança na UNIR. As irregularidades eram tantas, que os bombeiros concluíam que a vida das pessoas e a integridade do patrimônio da universidade estavam em risco. No entanto, não interditaram a UNIR. Adianta ter alvará? Nem o laudo dos bombeiros nos adiantou.
Quando vi as imagens das pessoas abrindo as paredes com marretas, reparei que os homens estavam sem camiseta. Logo imaginei que teriam morrido mais mulheres do que homens na boate, porque duvidei que as mulheres tenham tirado suas blusas para criar uma espécie de filtro e assim inalar menos fumaça tóxica. Os números de homens e mulheres mortos são semelhantes, invalidando a minha hipótese. E ouvi no rádio, no caminho da casa do Luis ao aeroporto, que botar a camiseta na frente do nariz e boca alivia, mas não salva. Além de quente, a fumaça era altamente tóxica.
A banda era conhecida por seus efeitos pirotécnicos. E provavelmente a banda costumava se apresentar em lugares abertos. Não ser capaz de se adaptar à nova situação de boate fechada com teto baixo e cheio de revestimento acústico me parece se enquadrar numa espécie de darwinismo cruel: adapt or die.
Me chamou atenção que a notícia da tragédia e suas primeiras imagens tenham sido veiculadas pela internet (arrisco adivinhar: Facebook). Esse público está profundamente imerso no mundo digital/ virtual. Ouvi depoimentos de que durante a retirada dos corpos, o som dos celulares tocando era atordoante. Li no jornal o depoimento de uma mãe que ligou pro celular do filho. Quem atendeu foi um policial que informou que o rapaz estava morto. Pareceu tão irreal, que demorou pra mulher entender.
É preciso aprender com os erros. Como era possível uma casa noturna funcionar com apenas uma porta, pela qual entram até 1.500 pessoas? Como era possível os seguranças não entenderem a gravidade da situação e se escorarem no famoso "ordens são ordens, fui treinado para controlar o fluxo de consumidores, não de pessoas"? Como pode não haver leis nem fiscalização?
Um contra-exemplo de leis e fiscalização rígidas (demais) eu ouvi no rádio do taxi que me levou ao aeroporto: no mesmo domingo de pré-carnaval carioca, 156 foliões foram presos por mijarem na rua. Mijar na rua dá prisão; oferecer condições precárias de segurança dá em tragédia.
Onde estão os equipamentos de lazer para essa juventude? Não há parques na cidade, onde estão as praças de eventos, as casas de shows? Não vejo em Santa Maria o agito da vida cultural de Barão Geraldo, por exemplo.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
O riso dos outros
Achei esse documentário de Pedro Arantes (que foi encontrado no Docverdade) surpreendente. Fiquei positivamente impressionada com a reflexão de alguns comediantes sobre o humor e seu trabalho (Laerte dá um show) e fiquei negativamente impressionada com a ausência de reflexão sobre o efeito de seu trabalho por parte dos comediantes mais em evidência no momento (destaque pro Gentili).
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
A garagem
Desde que as minhas bicicletas foram pra garagem, elas meio que deixaram de existir pra mim. Pra mim bicicleta é, antes de mais nada, meio de transporte. Como eu consigo realizar meus caminhos diários a pé, não preciso delas. Nem passo pela garagem, portanto nem as vejo. Entraram numa dimensão paralela: a garagem.
Recentemente houve mudanças no prédio em que moro: uma galera saiu, outra entrou e apareceu um cartaz na entrada do prédio, pregado na parede externa da minha sala. No cartaz está anunciado que a moradora do apartamento tal tem interesse em alugar uma vaga de garagem. Algo me diz que o cartaz foi pregado ali porque se dirige a mim, a única moradora do prédio que não tem carro.
Só que eu não tenho interesse em alimentar a carrodependência dela, cobrando aluguel pela minha vaga. Mesmo que eu não as use, as minhas bicicletas estão bem guardadas lá. Até pensei em usar o espaço da garagem para acomodar a escada e o ventilador (120v num lugar em que tudo é 220v) que ficam encostados aqui no escritório, entulhando a paisagem do apartamento apertado.
A minha garagem é quase como o porão de Dieter Nuhr.
Recentemente houve mudanças no prédio em que moro: uma galera saiu, outra entrou e apareceu um cartaz na entrada do prédio, pregado na parede externa da minha sala. No cartaz está anunciado que a moradora do apartamento tal tem interesse em alugar uma vaga de garagem. Algo me diz que o cartaz foi pregado ali porque se dirige a mim, a única moradora do prédio que não tem carro.
Só que eu não tenho interesse em alimentar a carrodependência dela, cobrando aluguel pela minha vaga. Mesmo que eu não as use, as minhas bicicletas estão bem guardadas lá. Até pensei em usar o espaço da garagem para acomodar a escada e o ventilador (120v num lugar em que tudo é 220v) que ficam encostados aqui no escritório, entulhando a paisagem do apartamento apertado.
A minha garagem é quase como o porão de Dieter Nuhr.
domingo, 6 de janeiro de 2013
Twists and turns along the way
| Cachoeiro de Itapemirim: a cidade em que Roberto Carlos nasceu |
Passamos um dia agradável em Cachoeiro e embarcamos para o Rio na manhã seguinte. Quando chegamos no Rio sob chuva, nos separamos: eu fui ao apartamento do Luis buscar blusa de frio pra ele (havia uma frente fria vindo do sul), ele foi na biblioteca, renovar um livro. Mantivemos contato por telefone, e cheguei a estranhar a pressa dele em me encontrar na rodoviária. Logo depois de nos encontrarmos na rodoviária do Rio que carece de assentos, ele já quis ir pra plataforma, entrar no ônibus. Antecipou a partida em 2 horas dessa vez.
| Curitiba com o céu tipicamente prateado |
| Ainda no Jardim Botânico |
Com algumas voltas e reviravoltas, voltamos pra casa.
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
Espírito Santo, Amém
| Itabira, o símbolo de Cachoeiro de Itapemirim |
| Areia preta |
| Ponta do Siri lá longe, Marataízes aqui |
A água do mar parece não ser poluída, já que se vê muitas (mesmo!) tartarugas marinhas bem perto dos banhistas. Fiquei feliz de ver tantas colocando a cabecinha de fora pra respirar.
|
| Maria-mijona |
| Pesca artesanal: com linha e caramujo na isca |
Luis pegou dois peixes, mas o mar os pegou de volta quando uma onda derrubou o potinho em que eles estavam.
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| O primeiro peixe pescado |
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| Olha o céu |
| Peixinho do tipo tainhazinha |
| Me senti muito corajosa pegando esse bicho |
| Feliz 2013 pra todos nós! |
sábado, 22 de dezembro de 2012
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Biguá
![]() |
| Imagem coletada em algum canto da internet |
Todos ali na mesa (editora, diretor, bolsista e eu) ficamos bem impressionados com a qualidade do livro e ficamos admirando as cores e formas dos pássaros. Quando meu olho bateu no biguá, exclamei: "já comi biguá!" Senti que desviei a atenção de todos e expliquei que a minha vida em Rondônia tinha sido uma aventura.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Paralelos
Percebo alguns paralelos entre Porto Velho e Santa Maria: (i) ambas têm fortes bases militares (tanto é que quando eu estava procurando transportadora pra fazer a minha mudança e anunciava que ia pra Santa Maria, um tanto de gente adivinhou - mas não acertou - que eu era militar); (ii) em ambas, a universidade fica a 10 km da cidade (com o diferencial que em Santa Maria existe um bairro em volta da UFSM); (iii) dizem que em Santa Maria faz tanto calor como em Porto Velho, mas eu não acredito. Vejo as pessoas reclamando de calor aqui, mas pro meu corpo chegar a sofrer é pouco.
O Camobi, bairro que se desenvolveu em volta da UFSM é comparável a Barão Geraldo. Ambos são autossuficientes em relação à cidade e ambos são predominantemente habitados por pessoas ligadas à universidade. Isso significa que há muitas repúblicas, kitnets, bicicletas e porções pequenas de alimentos nos supermercados. Mas enquanto a Unicamp era bem vazia nos finais de semana (e por isso eu me refugiava lá), a UFSM vira parque - tipo Ibirapuera - nos fins de semana.
No domingo, saí de casa às 20:00 e fui caminhar na UFSM. Escurece às 20:30 aqui. Enquanto o céu se coloria de cores quentes, vi meninas treinando andar de bicicleta sem as mãos, meninos andando de patins, rapazes jogando futebol, moças jogando vôlei, famílias fazendo piquenique, gente lendo sentada em cadeira de praia. Acho que não erro muito se disser que um terço da população que vi ali estava tomando chimarrão. Mesmo as pessoas que caminhavam, carregavam sua térmica e cuia. Esse hábito de tomar chima não tem paralelo com outro lugar que eu conheça fora do Rio Grande do Sul.
O Camobi, bairro que se desenvolveu em volta da UFSM é comparável a Barão Geraldo. Ambos são autossuficientes em relação à cidade e ambos são predominantemente habitados por pessoas ligadas à universidade. Isso significa que há muitas repúblicas, kitnets, bicicletas e porções pequenas de alimentos nos supermercados. Mas enquanto a Unicamp era bem vazia nos finais de semana (e por isso eu me refugiava lá), a UFSM vira parque - tipo Ibirapuera - nos fins de semana.
No domingo, saí de casa às 20:00 e fui caminhar na UFSM. Escurece às 20:30 aqui. Enquanto o céu se coloria de cores quentes, vi meninas treinando andar de bicicleta sem as mãos, meninos andando de patins, rapazes jogando futebol, moças jogando vôlei, famílias fazendo piquenique, gente lendo sentada em cadeira de praia. Acho que não erro muito se disser que um terço da população que vi ali estava tomando chimarrão. Mesmo as pessoas que caminhavam, carregavam sua térmica e cuia. Esse hábito de tomar chima não tem paralelo com outro lugar que eu conheça fora do Rio Grande do Sul.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Um pouco de filologia
Uma das disciplinas que me foram atribuídas é completamente nova pra mim: oficina de produção e edição de livros. Como meu conhecimento a respeito desse universo é de consumidora de livros, não de editora ou impressora, colorista ou qualquer outra pessoa que conhece de perto as etapas da confecção de um livro, recorri à literatura especializada.
Fiquei encantada com a clareza e simplicidade de Emanuel Araújo, em A construção do livro. Apesar de ter sido editado em 1986 (e apenas reimpresso, não reeditado, portanto não alterado) - e justamente por isso não tratar de impressoras coloridas, scanners, que dirá e-books e softwares de editoração - apresenta toda a engrenagem do processo.
Um paralelo que posso fazer é com a fotografia. Mesmo que eu me interesse apenas por fotografia digital, qualquer curso de fotografia vai me ensinar a revelar fotos no modo analógico. Não sabemos mais o que acontece no mundo digital: apertamos botões sem entender a mecânica da coisa (acho que é por isso que eu gosto de bicicletas: entendo como funcionam e sei consertar - se tiver as ferramentas).
Lendo sobre as quatro (principais) formas de impressão, entendi como funciona a máquina de xerox! Mais que isso, vislumbrei como funcionam a tipografia, rotogravura e offset. Ao contrário do xerox, essas três maneiras implicam na geração de "chapas" em que o texto/ a imagem é gravado/a para depois ser passado/a ao papel. Na seção sobre tipografia, lê-se:
Quem diria que o conceito de 'esterótipo', que a Semântica explora muito bem, na verdade vem de outro campo orbitando em volta da linguagem: a confecção de livros.
Fiquei encantada com a clareza e simplicidade de Emanuel Araújo, em A construção do livro. Apesar de ter sido editado em 1986 (e apenas reimpresso, não reeditado, portanto não alterado) - e justamente por isso não tratar de impressoras coloridas, scanners, que dirá e-books e softwares de editoração - apresenta toda a engrenagem do processo.
Um paralelo que posso fazer é com a fotografia. Mesmo que eu me interesse apenas por fotografia digital, qualquer curso de fotografia vai me ensinar a revelar fotos no modo analógico. Não sabemos mais o que acontece no mundo digital: apertamos botões sem entender a mecânica da coisa (acho que é por isso que eu gosto de bicicletas: entendo como funcionam e sei consertar - se tiver as ferramentas).
Lendo sobre as quatro (principais) formas de impressão, entendi como funciona a máquina de xerox! Mais que isso, vislumbrei como funcionam a tipografia, rotogravura e offset. Ao contrário do xerox, essas três maneiras implicam na geração de "chapas" em que o texto/ a imagem é gravado/a para depois ser passado/a ao papel. Na seção sobre tipografia, lê-se:
Os chineses, na realidade, desde cedo já usavam chapas às quais se fixavam os tipos (...). (...) obtido o número desejado de exemplares, as chapas eram facilmente guardadas para o caso de reimpressão.
Embora confinado em território chinês, esse processo era de fato aquilo que os europeus do século XVIII chamariam de 'estereotipia' (do grego stereós, 'sólido', i.e., 'firme, compacto, estável, imóvel, constante', e typos, 'sinal, imagem, molde, representação' (...).
Até a introdução das impressoras rotativas, na década de 1840, muitos pesquisadores desenvolveram a noção moderna de estereotipia, processo através do qual uma fôrma de composição tipográfica é reproduzida numa superfície única que contém uma página ou um conjunto de páginas para impressão. Essa superfície, em fins do século XVIII, passou a ser conhecida como 'clichê', do vocábulo francês cliché, particípio passado do verbo clicher, que no sentido tipográfico, empregado pela primeira vez em 1785 por Joseph Carez (1753-1801), significa 'estereotipar', designando o ato específico de coar matéria derretida (metálica ou não) sobre a matriz de uma página composta, o que resulta em uma placa sólida, da qual se tira grande número de exemplares (...). (p. 546)
Quem diria que o conceito de 'esterótipo', que a Semântica explora muito bem, na verdade vem de outro campo orbitando em volta da linguagem: a confecção de livros.
domingo, 2 de dezembro de 2012
A mudança chegou
No domingo, o meu contato na Transportadora me ligou confirmando que a mudança chegaria na sexta. Na sexta, passei a manhã inteira esperando e ligando pra saber do caminhão. Às 14:00, o motorista me ligou do trevo da saída da cidade. Disse que arrumaria dois ajudantes e já viria. Suspeito que eu tenha entendido o que significa aquela placa anunciando "chapa" nessa hora. E entendi que desse jeito a Transportadora economiza custos.
Alguns minutos depois, vi o caminhão na esquina e o polegar levantado do motorista.
| Escritório com tudo embalado |
| Escritório mais funcional |
| Tudo amontoado na sala |
| Sala um pouco mais habitável |
| Cozinha impraticável |
Achei que eu não fosse soltar um pio sobre o fato de não ter pia na cozinha, mas tá difícil viver assim. Como não tem onde colocar o escorredor, não tem onde colocar a louça que lavo no tanque. Daí tenho que secar cada item logo depois de enxaguar, o que significa que só solto cada peça depois de alocada seca numa das caixas que se amontoam por falta de armários.
| Cozinha do jeito que está |
| Eh, saudade! |
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