sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Everest: companheiros e clientes

Sempre gostei de literatura de expedição, apesar de ainda não ter lido os relatos de Amundsen, Scott ou Shackleton, os mais clássicos desse gênero. Pois acabo de ler No ar rarefeito, de Jon Krakauer, sobre "a tragédia no Everest em 1996" (pus entre aspas porque é o que está escrito na capa do livro).
Antes de abrir o livro, tive a mesma sensação que me acometeu quando estava fila do cinema para ver Titanic: "quatro horas na fila e três horas de filme para ver um navio afundar." Já pelo título eu podia imaginar que muita gente ia morrer. Mas eu não podia imaginar que ao fim do livro eu teria a sensação de conhecer grandes alpinistas. De fato, Jon escreve muito bem e desenha com habilidade o cenário gélido que é o topo do mundo. O livro é muito bem planejado: cada capítulo é uma etapa da expedição, com títulos como, por exemplo,  Acampamento 1, 13 de abril de 1996, 5943m ou Crista sudeste, 10 de maio de 1996, 8400m. E cada capítulo tem como epígrafe um trecho retirado de outra peça de literatura de expedição que casa com o conteúdo do capítulo. O narrador é um sobrevivente que carrega para o livro um rastro de culpa pela morte de outros que chegaram ao cume junto com ele.
Imagem veio junto com o filme EVEREST

Krakauer é um montanhista relativamente experiente (em rocha) que foi ao Everest para fazer uma matéria para uma revista (Outside) sobre a comercialização do Everest. Escreveria não somente sobre a montanha de lixo acumulado no Himalaia, mas também sobre a relação que os diletantes pagantes têm com a montanha mais alta do mundo. Tornou-se integrante de uma expedição que contava com guias, sherpas (nativos que trabalham basicamente como burros de carga) e clientes. Tanto na revista como no livro retrata sua percepção de que mesmo que os guias fossem companheiros entre si ou do líder da expedição, havia uma relação de trabalho norteando a escalada. A missão era claramente levar os clientes ao topo do mundo. E os clientes queriam subir o Everest não porque fossem qualificados, mas porque tinham dinheiro e a ideia fixa de cometer uma extravagância. Só que o topo do Everest (8.848m acima do nível do mar) é apenas a metade do caminho.

"Grande parte do tempo eu atribuía meu desconforto crescente ao fato de que nunca tinha escalado junto com um grupo tão grande - ainda por cima um grupo de completos estranhos. (...) Numa escalada, ter confiança nos parceiros é uma das principais preocupações. As ações de um único alpinista podem afetar o bem-estar de toda a equipe. As consequências de um nó malfeito, de um tropeção, de uma pedra deslocada ou qualquer outra ação descuidada afetam a todos, não só àquele que cometeu o erro. (...) Todavia, confiança nos companheiros é um luxo impossível para os que participam como clientes de uma subida guiada; resta pôr toda a fé no próprio guia." (p. 49)
Imagem veio junto com o filme EVEREST

Cinco expedições são descritas no livro: a de Rob Hall, líder neozelandês que guiava a expedição da qual o autor fazia parte; a expedição de Scott Fischer, americano e rival (comercialmente falando) de Rob Hall; a expedição de Ed Viesturs, que estava filmando com a equipe da IMAX; a expedição dos taiwaneses nonsense; e a expedição dos sul-africanos mal amparados. Rob Hall tinha clareza de que guias, clientes e sherpas pertenciam a classes diferentes. Scott Fischer incentivava uma certa autonomia dos clientes. Ed Viesturs escalava com seus pares, os taiwaneses eram todos diletantes e os sul-africanos duvidosos. A diferenciação entre sherpas, guias e clientes faz com que o narrador não reconheça seu guia desorientado como parceiro (e se sente culpado por não ter controlado o oxigênio do outro), nem o pagante - que ressuscitou dos mortos e foi deixado sozinho na barraca durante uma tempestade. Tampouco o sherpa preocupado em carregar nas costas a cliente milionária e fraca (quando deveria guiar o grupo fixando as cordas) é reconhecido como companheiro. Falta o sentimento de responsabilidade pelo parceiro ou pelo grupo quando apenas o cume interessa (desculpe a piadinha cacofônica).

Parte da tragédia foi o mau tempo. Na minha interpretação, Krakauer atribui parte da tragédia à falta de companheirismo entre os que estavam lá em cima. Outra parcela significativa foi o volume de gente causando congestionamento na montanha. No dia 10 de maio, três expedições - em que havia mais clientes do que guias ou sherpas - subiram. Parar para esperar os outros era dureza: o corpo começava a congelar se não estivesse em movimento.
Imagem veio junto com o filme EVEREST

Já convivi com montanhistas, já escalei em academia (na Holanda) e em rocha (Agulhas Negras, Prateleiras e Pico da Bandeira), mas eu não tinha noção do que é o Everest, uma escalada no gelo ou essas alturas em que há um terço do oxigênio que tem aqui. Durante a leitura, o título do livro foi ganhando sentido. E durante a leitura, fui caçando imagens em movimento no Youtube, para entender por que era tão difícil respirar, dormir, comer e pensar ali, quase na estratosfera. Baixei Everest, da IMAX, e fiquei maravilhada.
Imagem veio junto com o filme EVEREST

O filme foi feito pela expedição de Viesturs e Breashears e tinha como objetivo documentar a subida (não ao cume) de um geólogo que instalaria medidores que monitoram a atividade sísmica da montanha, além de documentar a subida da primeira espanhola ao topo do Everest. Bem à la National Geographic, o filme é lindo. Esta expedição socorreu os sobreviventes das três expedições que subiram ao topo (e isso está no filme) e atacou o cume uma semana depois da tragédia narrada por Krakauer.

Se algum dia tive vontade de escalar montanhas muito altas, essa vontade já passou. Porque é muito sofrimento.

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