segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Desperdiçados

Não é que eu tenha perdido o meu tempo, mas a sensação de frustração vem da intuição de que o autor desperdiçou as boas ideias de sua obra por não manipulá-las bem. A obra costuma contar com recursos formais muito interessantes, o que prende a atenção do público, mas no geral a condução dos elementos é mal orquestrada.
Sem limites (2011) serve como primeiro exemplo. Neste filme americano, uma droga que potencializa o cérebro é o vértice em torno do qual tudo gira. Potencializar o cérebro não significa ficar inteligente, mas disponibilizar memórias. Tudo que já foi lido, visto, ouvido ou experienciado se torna acessível. Só que no filme, quem toma a droga se sente invencível e consegue escapar das situações mais apertadas. Moral da estória: tudo que você precisa está dentro de você mesmo. Outro ponto negativo é que, segundo Iván Izquierdo, especialista em memória, a melhor coisa que a memória faz por nós é o esquecimento: ficaríamos presos ou loucos se não pudéssemos esquecer. Mas o filme é uma ficção, portanto vamos recorrer a outra obra de ficção para minar essa ideia de que o cérebro é memória e muita memória é bom. Funes, o memorioso de Borges é outro exemplo de que memórias prodigiosas não são desejáveis.

Os recursos plásticos do filme são bastante interessantes, mas não se bastam. Quando as pessoas tomam a droga, seus olhos brilham e as cores da cena são mais vívidas. A diferença entre tomadas opacas e cinzas e cenas brilhantes e coloridas não é tão notória como os contrastes entre o preto-e-branco e o colorido (para diferenciar a percepção do anjo Cassiel e a percepção do anjo caído) que apreciamos em Der Himmel über Berlin (Asas do desejo), mas é visível. Quando o escritor frustrado toma a droga e se senta para escrever seu livro, letras caem do teto e se depositam ao seu redor. Quando ele entende que o lance é ganhar dinheiro especulando na bolsa, o teto se transforma num letreiro tipo de aeroporto. Quando ele passa mal e sai correndo para vomitar, a imagem vira de ponta-cabeça. Esses ferramentas cinematográficas não valem a trama do filme, porque o grande objetivo não é mais escrever livros inspirados, mas ser presidente dos Estados Unidos. Isso é brochante: o sujeito tem superpoderes e quer ser presidente? Que imagem de presidente é essa que os estadunidenses têm?

Sem limites é um filme de ação. Talvez não devesse ser. Inception (A origem, 2010), cujo objeto de reflexão é o sonho, parece ser um filme de ação mais bem-sucedido que este. O diferencial possivelmente está na vontade de passar uma lição de moral: drogas têm efeitos colaterais indesejáveis e drogas são atalhos que cortam caminhos árduos, portanto desonestas.

Outro filme que me dá a sensação de ter desperdiçado uma ótima ideia é A pele que habito, mas como sei muito pouco de Almodóvar e de cinema, não sei apontar para o que me causa incômodo. Mais fácil é lembrar da autobiografia mal resolvida de Maitê Proença (preciso me desculpar: não havia nada mais interessante na estante na época). As ferramentas literárias se fazem presentes: os capítulos são escritos alternadamente em tinta preta e vermelha para diferenciar memórias inventadas de memórias verossímeis. A curiosidade de flaneur pela vida pessoal de uma pessoa famosa e as estórias de amantes movem o leitor para um final decepcionante. A autora perde o ritmo, não consegue amarrar as pontas e solta os fios da trama. Tem-se a impressão que ela desistiu do livro.

Essa leitura já está bem distante de mim no tempo. O último romance que li foi A noiva do tigre. Comprei na livraria do aeroporto porque achei a capa bonita e o título legal. Percebo agora que preciso rever meus critérios para escolher livros, apesar de saber que o livro recebeu o Orange Prize.

As duas estórias de fundo (do Homem Sem Morte e da Noiva do Tigre, ambas contadas à personagem principal por seu avô) se entrelaçam com a atualidade, em que a personagem principal atravessa fronteiras de países em guerra para recuperar os pertences de seu avô que se escondeu para morrer. Como marca característica da pós-modernidade, o texto é fragmentado. No entanto, há um descompasso enorme entre as estórias do avô e a atualidade que se expressa na histeria. As estórias do avô recebem um certo tratamento literário, ao passo que a história da personagem principal se aproxima mais de um relato. Esse relato é, em certa medida, histérico porque o leitor tem dificuldade de acompanhar a narrativa, imaginar o espaço ou mesmo o problema. E as duas estórias, tecidas como fios de cores diferentes, em certo ponto da narrativa se entrelaçam, mas logo se soltam. Novamente tenho a impressão que a autora abandonou a obra, não conseguiu amarrar as pontas, não concluiu o texto.

Talvez pela prática de revisar textos e corrigir redações, sinto-me frustrada por não poder ajudar a editar o texto, ajudar a pensar. O tempo dirá se Maitê Proença e Téa Obreht se tornarão escritoras (além de autoras).

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