sábado, 7 de janeiro de 2012

Parida e desaparecida

No dia seguinte ao episódio da gata com os três filhotes, fui no posto de saúde, por desencargo de consciência. Eu já tinha sido mordida por cachorro quando era pequena e tinha levado injeção em seguida, mas isso foi há mais de 20 anos. Além disso, eu não suspeitava que a gata que mastigou as minhas mãos tivesse raiva, já que moramos no mesmo pedaço faz quase um ano e ela sempre se mostrou calma. Mas a consciência pedia sossego.

No posto, ralharam comigo e disseram que eu deveria ter tomado vacina imediatamente, porque raiva em humanos não tem cura. A pessoa morre de raiva. As mordidas mais profundas estavam inchadas, havia pus e deixar o braço pendente doía. A enfermeira preencheu o meu prontuário: agredida por gata parida e desaparecida.

Eu já tinha ouvido sertanejo falar em "vaca parida", mas não tinha me dado o esforço de distinguir as vacas normais que, como todos os outros animais, vieram ao mundo através de parto, das vacas paridas. Sentada na cadeira do posto de saúde, entendi que estava talvez diante de um fenômeno de gramaticalização: "gata que tinha parido" se transformou em "gata parida", sendo que o particípio "parido" assume a função de adjetivo. Há perda de material fonológico, reorganização semântica, mudança de categoria gramatical.

No entanto, foi a parte do "desaparecida" que mais me deu dor de cabeça. Porque se desse para observar o animal, eu não teria que tomar todas as injeções que já tomei e ainda terei de tomar. É preciso tomar vacina anti-rábica, que vem em cinco doses alternadas (no dia zero, três, sete, catorze e vinte e um). Como a vacina só faz efeito a partir da terceira dose, é preciso tomar, juntamente com a primeira dose, um soro. Mas soro é só um nome para uma bateria de injeções que tive que tomar no Cemetron.

A primeira dose de vacina eu tomei no posto mesmo. Na fila havia crianças de colo e mães que conversavam com desconhecidos sobre intimidades que eu preferia não ter ouvido. O padrão se repetia: entrava meia família, a porta se fechava. Silêncio por um longo período, depois o berro de uma criança recém-vacina. A porta se abria e um novo ciclo começava. Um senhor na fila comentou que criança sofre muito com injeção. Respondi: a gente também, mas nóis num chora.

No Cemetron todos usavam máscara protegendo nariz e boca. Até o guardinha. Pedi uma máscara pra enfermeira, mas ela riu. Mais tarde fui saber que no Cemetron são tratadas as doenças contagiosas (tuberculose, AIDS, malária etc.), por isso as máscaras. Passei três horas naquele lugar. Tomei injeção num braço, noutro braço, numa nádega, noutra nádega, na coxa e glicose na veia. Seis agulhas me picaram no hospital das doenças contagiosas. Agora ainda faltam as quatro outras doses de vacina.

2 comentários:

Mônica disse...

Mas, Lou, vc não levou a gata com os filhotes para o pet-shop? Não dava para buscar a gata?

iglou disse...

Então, a pet shop não aceitava mais doações de gatos. Deixei a família num bairro tranquilo, onde passa pouco carro e tem vegetação. De lá, desapareceu.