sexta-feira, 15 de abril de 2011

Dias de fúria

A agenda pra segunda-feira estava cheia, apesar de conter apenas um item: mudança. Fazer mudança envolve muito deslocamento de papel: tem que buscar documento lá, trazer documento pra cá, entregar documento ali, reconhecer firma, recuperar segundas vias, vasculhar comprovantes.

Zerei o velocímetro e pedalei até a minha nova moradia, pra acompanhar a vistoria de saída da filha da proprietária e já assinar a minha vistoria de entrada.  Entre as duas casas, rodei 4 km. Quando fui liberada da vistoria, pedalei de volta. O caminhão de mudança (carreto, vai) já estava me esperando. Conseguiu passar pela portaria sem o papel autorizando a minha mudança porque eu já tinha conversado com os guardas.

Os dois homens que carregaram as minhas coisas no caminhão foram super camaradas: recolheram todas as coisas que eu considerava parte integrante da paisagem (vassouras, escada, caixinha da Akari). Enquanto eles faziam força e suavam, eu desmontei o guarda-roupa (que eu ainda não montei por pura preguiça mental). Ninno apareceu de moto, trouxe o carro da Cynthia, encheu o carro e ajudou a decidir o que ia no caminhão e o que iria numa segunda viagem de carro. O sol já estava a pino e nem sinal de chuva.

Partimos os três veículos em caravana: Amarilda na frente, Ninno no carro lotado da Cynthia e o carreto atrás. Não vou dizer que eu cheguei primeiro. Depois que descarregamos o carro da Cynthia, Ninno e eu voltamos pra Vila, deixando os dois descarregando os móveis. Voltamos quando estavam descarregando o sofá, última peça. A borrachinha que calça o pezinho da Caloi 10 foi recuperada pelos caras, o que prova que eles são gente boa. Ninno devolveu o carro da Cynthia (atrasado) e pegou a moto de volta. Eu fiquei na casa nova, olhando praquele monte de coisa amontoado na sala.

De tarde, Cynthia encontrou a minha nova casa, me pegou e levou na casa da Vila da Eletronorte. Escova de dente, a louça no escorredor, a toalha pendurada no banheiro, o ventilador e a Akari foram recuperados nessa última viagem.

A casa nova tem três quartos. Num deles, coloquei a Amarilda e a Caloi 10. Tinha uma fralda envolvendo a maçaneta da porta daquele quarto. Achei aquela fralda ali muito feia e tirei. Fechei a porta e não consegui mais abrir. Entendi por que aquela fralda feia tava lá: a lingueta estava quebrada e não voltava.

De noite choveu uma daquelas chuvas torrenciais.  Pro meu desgosto, descobri que tem duas (pequenas) goteiras na casa nova. Além disso, descobri que tem muito mosquito nessa casa e muitos gatos no forro. Miam, pulam e fazem cambalhotas. Akari, coitada, ficava vagando pela casa apavorada. De fora, vinha um barulho agudo. No começo, não soube se era passarinho ou gato. Era um filhote de gato se abrigando na minha varanda numa noite de tempestade. Levei comida, que ele ignorou solenemente. Entendi que a comida não era apropriada pra ele e dividi um pacote de “comidinha mole” entre ele e a Akari. Ela ficou feliz, ele não entendeu. Botei o gatinho, as comidas e água numa caixa de papelão. Dormiu e não miou mais. Em compensação, Akari me acordou às 3:55 da madrugada e não parou mais de miar.

Dia 12 era o dia em que eu deveria entregar a casa, conforme o combinado com a proprietária por telefone. Eu tinha que achar um chaveiro que me devolvesse a minha melhor bicicleta, daí eu poderia limpar e entregar as chaves da casa. O chaveiro veio, olhou, futricou e concluiu que eu só tinha duas opções: ou quebrar, ou então quebrar. Preferi a segunda opção. Ele deu dois chutes, cobrou dez reais e disse que não gostava de resolver as coisas assim. Eu achei ótimo ter a minha bicicleta de volta.

De Laranja Mecânica, voltei na Vila. A vassoura tinha ficado lá, assim como alguns potes de plantas. Limpei a casa, colhi os últimos maracujás, botei tudo na bicicleta e levei as minhas plantas pra passear.

O cara que instala telefone veio logo depois de mim. Demorou até acharmos a tomada do telefone na casa, depois demorou pra ele identificar por que o fio tava morto. Todavia, ele era bom observador. Reparou que a única coisa que eu tinha ajeitado era a estante de livros. Quando voltou das alturas do poste, onde tinha instalado um fio novo, me perguntou qual era a minha profissão. Eu disse que era professora, mas ele já tinha se ligado, porque estava com o esquema montado: “pois a gente nunca acaba de aprender. O problema todo não era o fio, mas um cabinho solto na caixa lá em cima”.

De Amarilda, fui na imobiliária, entregar as chaves. Tomei chuva e cheguei totalmente molhada. A moça lá disse que não podia aceitar as chaves, porque o protocolo mandava que houvesse uma vistoria de saída. Argumentei que a proprietária tinha planos de demolir a casa, mas não adiantou. Marcamos a vistoria pro dia seguinte, de manhã.

O vistoriador chegou meia hora atrasado. Me encontrou azeda. Disse que tinha tido um probleminha com a moto. Eu também tinha calculado mal o tempo: cheguei dez minutos antes do horário marcado - de bicicleta. Depois da vistoria silenciosa, fomos pra imobiliária: ele de moto, eu de camelo.

Na imobiliária, pude devolver as chaves – finalmente eu me livrava da casa! Ligamos pra proprietária pra confirmar que eu não precisava fazer reforma (pintura e reparos) – já que ela pretendia demolir a casa. Pra moça da imobiliária, ela disse que ainda não tinha o projeto da casa que ia construir no lugar, que tinha decidido ocupar a casa por uns três meses enquanto preparava tudo e que sim, era pra eu pintar a casa. Pedi o telefone. Conversei com a mulher e expliquei que eu tava saindo daquela casa porque ela tinha dito que ia derrubar e que não fazia sentido eu pintar uma casa que seria demolida. Pra mim, ela disse que não era pra pintar, mas que se tivesse alguma torneira quebrada, ou coisa assim, então ela me cobraria os reparos. Expliquei que a casa estava perfeitamente habitável e que mesmo uma janela quebrada não era ameaça à segurança, afinal de contas se trata da Vila da Eletronorte (altamente vigiada). “Então tá bom, não precisa fazer mais nada” foi a decisão final. 

Antes de sair da imobiliária, a moça me incumbiu de ir na Ceron (Eletrobras), pra tirar o meu nome da casa na R. Venezuela. Eu tinha mesmo reparado que o meu nome constava em dois endereços: na Vila da Eletronorte (ativa) e na R. Venezuela (desligada). Já na porta da imobiliária, fui chamada pelo vistoriador que fez a entrada na casa da Rua Murici. Disse que no ato da vistoria, tinha esquecido a máquina fotográfica e que queria voltar pra fotografar os mofos (tem!), vazamentos de torneira e portão de correr que é uma aula de musculação.

Dali fui na Ceron, peguei senha e constatei que havia 83 pessoas na minha frente. Desencanei, atravessei a cidade, voltei pra casa e fui na Unir, dar aula. Tomei chuva e desmontei da Amarilda pingando. Cheguei no banheiro, abri o alforje e cadê a minha muda de roupa? Olhei trezentas vezes, mas não achei. Fui departamento, deixando um rastro molhado . Até pedi a chave do carro do meu chefe, mas não dava tempo de voltar em casa e trocar de roupa. Os três homens presentes ali ficaram negociando o que me emprestariam e acabei ganhando a camiseta do Laércio (um sujeito muito alto) emprestada. Fui de bermuda de ciclismo e a camiseta do Laércio pra sala de aula. Avisei que aquilo não era normal. Eles riram. Nesse dia, o velocímetro registrou 47 km rodados.

Pela terceira vez consecutiva, acordei com a Akari apavorada no meio da madrugada e os gatos dando cambalhotas no forro. Liguei na Oi e perguntei quando vinha a Internet. “Hein? A senhora tem interesse?” Plano de ação: ligar todos os dias na Oi e perguntar quando vão transferir a internet. Inferno!

Preparei a aula de hoje sentada numa das cadeiras verdes da Ceron, enquanto esperava as 20 pessoas na minha frente serem atendidas. Pior do que ter o nome em contas de energia em dois endereços, foi saber que a conta da R. Venezuela estava gerando débito desde janeiro de 2010, quando saí de lá. Tinha R$ 699,76 numa conta desligada. “Mas não cortou?” A moça atrás do balcão levantou a sobrancelha e disse: “cortou, mas tem alguém usando.” Pois é, eu sempre achei esse papo de mundos possíveis uma piração, mas uma conta desligada que gera débito é delírio. Em todo caso, eu não tinha o papel que a moça queria ver pra tirar o meu nome da Venezuela: um documento em que estivesse escrito que eu saí de lá. Eu saí de lá correndo, fugindo dos alagamentos. Não teve rescisão de contrato, entrega de chaves, nada.

Voltei na imobiliária e passei a batata quente pra elas. Fiquei sabendo que a proprietária da casa na Vila assinou um documento me eximindo de fazer qualquer coisa pela casa. Capítulo encerrado.
Cheguei na Unir debaixo de chuva pesada e demorei a chegar na sala de aula. Rios de lama nos impediam de sair do bloco de departamentos. Quando finalmente consegui me encaminhar pra sala de aula, um ex-aluno me parou pra conversar: os alunos que me esperavam tinham seminário pra apresentar e não sabiam se eu vinha ou não. Rafael explicou que eu nunca faltava. Apontaram pra chuva e perguntaram se eu vinha mesmo com aquela chuva. Ela vem.

Depois da aula, vesti as minhas roupas molhadas e frias e encarei o anoitecer com vento na cara. Cheguei em casa querendo um banho quente. Pra isso, tive que instalar o chuveiro elétrico. Liguei os fios, rezei pra não ser corrente de 220 num chuveiro de 120 e tomei banho morno.

3 comentários:

Mônica disse...

UAU! Que aventura! Mas fiquei na dúvida: vc ficou com o gatinho? Por falar nisso, aqui apareceu mais um...

rsrs

francismarys disse...

O chaveiro que cobra por chute, a conta encerrada que custa R$600, a pintura da casa que será demolida, a camisa emprestada para dar aula... Que guerra!

Ma disse...

HalloLou! Und wo sind die Bilder?!?
Versuche ruhig zu bleiben bei allem Wahnsinn. Und fehle ruhig auch mal in der Uni, wenn du die Zeit brauchst. Nimm dir doch einfach mal ein paar Tage frei!
Wir denken an Dich!!
Machs gut. Schade, dass ich heute nicht da war, als du mich per Skype kontaktieren wolltest! Hoffentlich bekommst du bald Internet.
Liebe Grüße von deiner Ma