terça-feira, 5 de abril de 2011

Sobre a fragilidade

Yehuda Moon
- Sai do caminho! Alguns de nós precisam ir ao trabalho.
- Eu estou a caminho do meu trabalho!

Eu tava pedalando hoje de tarde na Carlos Gomes, a mais movimentada avenida do centro de Porto Velho. Ia pela direita, ao longo dos carros estacionados. Reparei que um carro branco emparelhou comigo. Por uns três giros de pedal, seguiu na mesma velocidade que eu. Depois ligou o pisca e foi me fechando. Era um taxi. Estávamos no meio da quadra, não entendi logo o que aquele taxista queria.

Fui obrigada a frear, porque o guidão não cabia mais entre a fila dos carros estacionados e o taxi que me fechava. Arranquei, dei a volta no taxi e gritei pra dentro da janela aberta:
- O senhor por acaso quer me matar?
- Só assustar.
Foi a resposta. Como eu tava muito furiosa com a agressão do taxista contra a minha segurança, não continuei o diálogo. Que direito esse cara tem de me fechar no meio da quadra? Ele queria estacionar numa vaga. Custava pisar no freio, me deixar passar e então entrar na vaga? Ele ia estacionar! Precisava me ultrapassar antes?

Eu me estresso (e muito) com as imprudências dos outros que arriscam suas vidas no trânsito ou colocam a vida dos outros em risco. Numa bicicleta, sou mais frágil que num carro: estou exposta. No entanto, motociclistas, que igualmente não são protegidos pela lataria do carro - e portanto são tão frágeis quanto eu - vivem tirando fina de mim.

Parece haver um princípio darwiniano na cabeça oca das pessoas: tamanho é documento e motor é rei.  O taxista que quis me "assustar" me esmagando entre dois carros não tem noção da minha fragilidade. Se eu não tivesse freado, eu teria me machucado mais que a lataria do carro dele. Se o guidão de uma moto mais rápida que eu relar no guidão da minha bicicleta, eu caio.

Código de Trânsito existe no dia da prova pra tirar/ renovar a carteira de habilitação. Esses caras devem achar que bicicleta é brinquedo, que seu lugar é na calçada, que progresso é ter o carro maior e mais potente. Cada um por si na batalha que é o trânsito.

Me parece que não está claro pras pessoas que compõem o trânsito que ele é um sistema regrado. E que as regras de trânsito valem pra todos, justamente para que não haja mecanismos de "segregação natural".

3 comentários:

Fábia disse...

Não imagino você gritando!!!

odir disse...

bem vinda ao clube. aqui é todo dia. ando bolando uma forma de prender a u-lock no guidão pra ficar fácil de puxar e quebrar uns vidros de carros. a raiva é imensa. mas é todo dia, todo santo dia.

Joilson Arruda disse...

foi muito sadismo do taxista. imagina, fechar alguém só pra assustar? o transito está cheio desses loucos.