terça-feira, 20 de abril de 2010

Lavagem cerebral

Como descobri que tenho poder em sala de aula, escolho assuntos que eu considero polêmicos e que me interessam, para usá-los como matéria-prima pros textos deles. Ano passado foram as sacolinhas plásticas de supermercado, esse ano é a TV. Passei o filme Farenheit 451, uma música da Vanessa da Mata (Fugiu com a novela) e outra do Teatro Mágico (Xanéu n. 5) como fontes de inspiração para debates.

Hoje pedi que escrevessem um texto argumentativo a favor ou contra a implantação de televisores nos ônibus de Porto Velho. Algumas linhas já têm TV a bordo, mas a programação é restrita a propagandas de supermercado, papelaria, açougue etc. em PVH e assuntos aleatórios como receitas, horóscopo, piadinhas etc. Pedi que nesse texto considerassem que a programação das TVs nos ônibus seria a programação normal da TV aberta (Globo, SBT, Rede TV, Record etc.).

O advento da TV digital no Brasil e o projeto de transmissão de programas da Globo nos ônibus de São Paulo geraram polêmica no ano passado. Pra quem se interessar pelo lado B dessa história, sugiro estes belos textos, todos reunidos no apocalipse motorizado:
Sorria, você está sendo manipulado
TV no ônibus, a comercialização das mentes e a Cidade Limpa
Televisão no meu busão, não!

Os meus alunos da Unir não sabem dessa polêmica, nem nunca pensaram sobre a questão. Dos que usam o sistema de transporte coletivo na cidade, nem todos chegaram a ver essas TVs nos ônibus de Porto Velho. O Campus Unir, por exemplo, não tem TV. Mas como eles são destemidos, botaram a cabeça pra funcionar e escreveram seus textos posicionando-se a favor ou contra, explicando suas posições e fornecendo exemplos que ilustrassem seus argumentos.

Uma aluna se comportou de maneira diferente. Olhava pros lados, falava sozinha, suspirava e brincava com o lápis. Quando mais da metade dos colegas dela já tinha entregado o seu texto, ela não se conteve:
- Professora, eu não sei como escrever isso.
- Começa pela sua posição. Você é a favor ou contra a TV com programação da rede aberta nos ônibus? Explica por que e dá exemplos.
- Mas aí é que tá. Eu sou a favor, mas quando eu penso nos prós e nos contras, só tenho argumentos contra!
- Mas então por que você é a favor da TV aberta nos ônibus?
- Porque sim, mas eu não sei explicar por que.
- Então muda de lado: seja contra, já que os argumentos contra pesam mais.
- Não, eu sou a favor, mas não sei por que. Difícil escrever isso.
- Se você não sabe justificar a sua opinião, então você não tem opinião.
- Ai, professora.

Todo mundo fala mal da programação da televisão. Todo mundo diz que a TV hipnotiza, faz ficar sedentário, acaba com a comunicação entre as pessoas. Mas todos têm TV e acham que não conseguem viver sem ela. Como dizia meu amigo Paulo Punk, "às vezes eu acho que os meus alunos não têm vida interior": reproduzem o discurso da Globo, se vestem de acordo com a moda ditada pela novela, sabem da verdade, não duvidam de nada, não questionam nada, não lêem nada que não lhes for imposto. São canais por onde passam imagens e palavras desconectadas de suas vidas.

5 comentários:

daniela70 disse...

Meu professor de literatura do segundo grau dividia a turma em 2 e atribuía Contra ou A Favor aos grupos. Não interessava sua opinião pessoal, você tinha que ser capaz de argumentar contra e a favor de qualquer assunto. Ele criava debates no auditório, as outras turmas assistiam, era o máximo!
Não sei se fui a última geração a cavar argumentos com base na opinião própria. Só fui ter televisão em casa aos 5 anos (nasci em 70) e meus pais sempre estimulavam muito a nossa liberdade de pensamento. Enfim, só com educação -- em casa e na escola -- poderemos ter alguma esperança. Você está fazendo a sua parte, queria poder fazer a minha.
Beijo, adoro seu blog e não perco nenhum post!

Ulla disse...

Oi, Lou, o método do professor da Daniela me parece mais apto para o fim desejado porque teria dado para aluna em questão mais liberdade de expressar e defender sua posição do que o teu. As razões para ser a favor da TV no onibus não são comumente elogiáveis e certamente é defícil explorá-las e confessá-las diante da professora, que deixa sua posição bem clara, se a estudante tiver que argumentar em próprio nome. Ela quer ser boazinha e isso bloqueia.
Eu admiro imensamente a seriedade com que exerces a profissão (em alemão eu diria "Berufung")mas tome cuidado de não se tornar um guru (será que existe em qualquer língua um feminino de gurú?) altamente inalcançável.
Aber mach weiter so, ich bin richtig stolz auf Dich.
Abraços, Ulla

iglou disse...

Obrigada, vocês duas, pelos comentários. Percebo a minha dificuldade de me colocar na pele dos meus alunos.

Fernando disse...

De meu lado, afirmo que uso a televisão apenas para receber imagens que engrandecem o gênero humano, como os jogos do Corinthians...

iglou disse...

Fer,
só quem te conhece sabe que você está sendo irônico e maldoso. Corinthiano sofre, coitado.