sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Na fila do Correio

Ultimamente tenho passado muito tempo em filas de Correio. Neste tempo ocioso, observei algumas coisas: o esforço para manter a crença das crianças no Papai Noel, um diálogo mínimo e um monólogo despropositado.

Reparei que existe, nas agências do Correio, uma caixa cheia de cartinhas ao Papai Noel. Crianças, não sei de onde, escreveram seus desejos em cartas endereçadas ao bom velhinho. Adultos parados nas filas do Correio por longos minutos substituem seu tédio por um divertido interesse por essas cartinhas escritas em letra redondinha, retiram uma qualquer da caixa e de repente são compelidos a realizar o desejo da criança. Outros adultos chegam com caixas grandes e empacotadas em papel presente, que são depositadas no interior da agência. E assim as criancinhas continuam acreditando em Papai Noel, sem saber por que comemoramos o Natal.

* * *

Vamos ao diálogo mínimo e à importância do contexto para a criação de coerência:

- A Paraty?
- Opa, sou eu.
- Vai lá, meu!

Agora mais uma vez, com contexto:

Um cara foi atendido e deixou o balcão. Saiu da agência e voltou. Voltado para a fila de esperantes, perguntou em alto e bom som:
- A Paraty?
O cara que seria o próximo a ser atendido se contraiu num susto:
- Opa, sou eu.
Da porta da agência, o homem observou a hesitação do outro e mandou a ordem:
- Vai lá, meu!
O cara da ponta da fila trocou um olhar significativo com o seu seguinte, girou nos calcanhares e saiu. Ouvi barulho de motor, carro manobrando, porta batendo e o primeiro da fila voltou ao seu lugar, lá na frente.

Reparem que não há cortesia entre os motoristas. O cara que queria sair e estava com a passagem obstruída pela Paraty se sentiu lesado e fez questão de não ser simpático, restringindo-se ao mínimo necessário (a Paraty?). O motorista da Paraty identificou-se a si mesmo, por uma relação de metonímia, com o carro que dirige (sou eu). Isso também acontece quando motoristas relatam acidentes (aí o caminhão bateu na minha lateral = na lateral do carro!). Por fim, como um pai impaciente, o cara na porta deu direções ao motorista da Paraty. Não deu instruções (tira o teu carro da frente do meu, que eu quero sair), não fez um pedido (será que você poderia tirar o seu carro da frente do meu?), nem foi gentil.

* * *

Eu estava preenchendo um formulário que vai preso ao pacote que estava prestes a enviar, quando o atendente começou a conversar com um cliente parado na fila sobre futebol. Enquanto me atendia, o homem não conseguia deixar de brincar com o outro na fila. De repente, estava me explicando, em tom confidencial, por que qualquer hora passaria no bar lá pra acertar aquele esquema:
- A gente fez uma aposta. E eu perdi. Agora eu tenho que pagar o cara, mas eu tô enrolando ele. Mas uma hora eu pago ele.

Eu não tinha nada a ver com a estória, agora sei que o atendente do Correio é ruim de palpite, mau perdedor e mau pagador de dívidas. Quê que eu faço com essa informação?

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