terça-feira, 3 de julho de 2012

Última chance

Oficialmente a UNIR aderiu à greve nacional dos docentes federais, mas isso não significa que todos os professores tenham paralisado suas atividades docentes. Alguns professores que estão em greve (e integram o comando de greve), estão agora impedindo a entrada das pessoas no Campus. Claro que há buracos na cerca da UNIR, afinal estamos em Rondônia. Comparando as duas greves, acho estranho que essa tentativa de inibir os fura-greve não tenha acontecido na greve passada, que foi contra a corrupção na UNIR e tinha um caráter moral. Agora, o comando de greve conta com aqueles que nos perseguiram na greve anterior. Os pelegos de antes são os revolucionários que agora trancam o Campus. 

Os técnicos da UNIR, últimos a aderir à greve dos docentes, anunciaram que entrarão em greve na terça (no site há nota informando que será no dia 06, sexta). De qualquer maneira, a viagem a campo da disciplina Botânica IV, ministrada pelo prof. Narcísio, não poderia acontecer no sábado, dia 07, quando os técnicos estiverem em greve; porque é preciso que um funcionário (motorista) da UNIR conduza o ônibus da universidade. A aula de campo foi agendada para segunda-feira (ontem). Com o Campus fechado pelo comando de greve, haveria duas complicações: tirar o material de coleta (sacos, tesouras, podão) e o ônibus do Campus.   

Quando cheguei na Unir-Centro às 7:30, o ônibus estava lá. Feliz, mandei mensagem tranquilizadora ao Narcísio. O motorista que havia nos levado na quarta passada passou por mim, me cumprimentou, entrou no ônibus e foi-se embora. Imaginei que ele tinha ido abastecer, mas não voltou mais. Narcísio conseguiu o telefone do motorista e perguntou o que estava acontecendo. O motorista não tinha sido convocado para nos levar e estava devolvendo o ônibus ao Campus. Narcísio ligou para o superior do motorista, que deveria ter reservado o ônibus. "Sinto muito, desculpa, perdão, vou resolver." Já havia passado das 9h e estávamos cansados de ver o Narcísio tentando ligar para o motorista ou o seu superior. Desmotivado, Narcísio dispensou a turma. Descemos todos rumo ao ponto de ônibus. O telefone toca no meio do caminho. "Daqui a 15 minutos outro motorista vai levar vocês."

Mas ainda faltava buscar o material no Campus. Narcísio e eu passamos pelo buraco na cerca, pelo comando de greve e voltamos com o material de coleta. Uma das manifestantes entrou no ônibus também e seguimos em direção a Guajará-Mirim.
Na estrada que vai pro garimpo
Depois de almoçarmos enfileirados num tronco caído, entramos na floresta ombrófila aberta. A abundância de palmeiras frutíferas (açaí e buriti) e o fato da mata não ser densa indica manejo. Manejo provavelmente indígena. Isso vai ao encontro do que já escutei da Cynthia e de um título que vi no Lattes da orientadora intelectual da Cynthia: essa terra foi plantada. Em outras palavras: o que é natural, cara pálida?
Unha de gato

Buriti

Sementinhas de uma trepadeira

Narcísio me chamou atenção para uma obviedade: nas beiras de mata se vê exponencialmente muito mais flores que no meio da mata. Isso tem dois motivos: não vemos as flores nas copas das árvores altas; onde não há luz, não há flor.
Líquen cérebro
Esse líquen, cuja formação lembra o desenho de um cérebro (com uma forcinha da imaginação), é indicador e característico de campina. Quem tiver dúvida se está no cerrado (por causa das árvores retorcidas), na campina ou campinarana (onde as árvores também são retorcidas, mas mais altas e onde o solo é arenoso), saberá que está na campina quando encontrar esse cérebro.

Família: Melastomataceae, gênero Tibouchina 

Ninho de beija-flor, segundo algumas alunas
Narcísio confessou a inveja que sentiu da comoção geral que causou esse ninho. Nenhum aluno suspira quando vê uma monocotiledónea ou marantaceae, mas todos rejubilaram ao ver o ninho com ovo.
Mosca do Mal
Esse inseto que parece uma mosca - mas provavelmente não é - tem uma ferroada do tipo que derruba cavalo. Uma guria foi picada no dedo que inchou pra caramba. Mais de um desses insetos foram coletados dentro do ônibus.
Rubiaceae, família do café
Para memorizar o nome da família Rubiaceae, uma das alunas fez associação com a professora Rubiani, que bebe bastante café. Peguei carona na associação.
Liana

Narcísio no alagado
Quando já estávamos no ônibus, voltando para a cidade, Narcísio pediu pra descer. Queria coletar uma ninféia. Com as galochas cheias de água, desistiu da ninféia, coletou outra coisa e quase teve um treco. Encontrou a planta misteriosa que estudou no mestrado e que continua lhe tirando o sono. Nunca viu seus frutos, nem sabe quem poleniza a flor. Agora que coletou muitas amostras (inclusive com raízes), terá a chance de aprofundar seus estudos. Espremia as meias encharcadas feliz como uma criança que ganhou a primeira bicicleta no Natal: tinha encontrado seu objeto de estudo ao vivo e em cores.
Pera
Na altura de Nova Mutum, o caminhão - que havíamos visto tombado na beira da estrada na ida - estava sendo retirado do barranco. A operação causou um mega congestionamento, que nos atrasou em mais ou menos uma hora. Enfim, sofremos com atrasos na saída e na volta, mas valeu a última viagem a campo. No meu cérebro, alguns nomes finalmente decantaram; no do Narcísio, tantas outras se revolveram.

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