Oficialmente a UNIR aderiu à greve nacional dos docentes federais, mas isso não significa que todos os professores tenham paralisado suas atividades docentes. Alguns professores que estão em greve (e integram o comando de greve), estão agora impedindo a entrada das pessoas no Campus. Claro que há buracos na cerca da UNIR, afinal estamos em Rondônia. Comparando as duas greves, acho estranho que essa tentativa de inibir os fura-greve não tenha acontecido na greve passada, que foi contra a corrupção na UNIR e tinha um caráter moral. Agora, o comando de greve conta com aqueles que nos perseguiram na greve anterior. Os pelegos de antes são os revolucionários que agora trancam o Campus.
Os técnicos da UNIR, últimos a aderir à greve dos docentes, anunciaram que entrarão em greve na terça (no site há nota informando que será no dia 06, sexta). De qualquer maneira, a viagem a campo da disciplina Botânica IV, ministrada pelo prof. Narcísio, não poderia acontecer no sábado, dia 07, quando os técnicos estiverem em greve; porque é preciso que um funcionário (motorista) da UNIR conduza o ônibus da universidade. A aula de campo foi agendada para segunda-feira (ontem). Com o Campus fechado pelo comando de greve, haveria duas complicações: tirar o material de coleta (sacos, tesouras, podão) e o ônibus do Campus.
Quando cheguei na Unir-Centro às 7:30, o ônibus estava lá. Feliz, mandei mensagem tranquilizadora ao Narcísio. O motorista que havia nos levado na quarta passada passou por mim, me cumprimentou, entrou no ônibus e foi-se embora. Imaginei que ele tinha ido abastecer, mas não voltou mais. Narcísio conseguiu o telefone do motorista e perguntou o que estava acontecendo. O motorista não tinha sido convocado para nos levar e estava devolvendo o ônibus ao Campus. Narcísio ligou para o superior do motorista, que deveria ter reservado o ônibus. "Sinto muito, desculpa, perdão, vou resolver." Já havia passado das 9h e estávamos cansados de ver o Narcísio tentando ligar para o motorista ou o seu superior. Desmotivado, Narcísio dispensou a turma. Descemos todos rumo ao ponto de ônibus. O telefone toca no meio do caminho. "Daqui a 15 minutos outro motorista vai levar vocês."
Mas ainda faltava buscar o material no Campus. Narcísio e eu passamos pelo buraco na cerca, pelo comando de greve e voltamos com o material de coleta. Uma das manifestantes entrou no ônibus também e seguimos em direção a Guajará-Mirim.
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| Na estrada que vai pro garimpo |
Depois de almoçarmos enfileirados num tronco caído, entramos na floresta ombrófila aberta. A abundância de palmeiras frutíferas (açaí e buriti) e o fato da mata não ser densa indica manejo. Manejo provavelmente indígena. Isso vai ao encontro do que já escutei da Cynthia e de um título que vi no Lattes da orientadora intelectual da Cynthia: essa terra foi plantada. Em outras palavras: o que é
natural, cara pálida?
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| Unha de gato |
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| Buriti |
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| Sementinhas de uma trepadeira |
Narcísio me chamou atenção para uma obviedade: nas beiras de mata se vê exponencialmente muito mais flores que no meio da mata. Isso tem dois motivos: não vemos as flores nas copas das árvores altas; onde não há luz, não há flor.
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| Líquen cérebro |
Esse líquen, cuja formação lembra o desenho de um cérebro (com uma forcinha da imaginação), é indicador e característico de campina. Quem tiver dúvida se está no cerrado (por causa das árvores retorcidas), na campina ou campinarana (onde as árvores também são retorcidas, mas mais altas e onde o solo é arenoso), saberá que está na campina quando encontrar esse cérebro.
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| Família: Melastomataceae, gênero Tibouchina |
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| Ninho de beija-flor, segundo algumas alunas |
Narcísio confessou a inveja que sentiu da comoção geral que causou esse ninho. Nenhum aluno suspira quando vê uma monocotiledónea ou marantaceae, mas todos rejubilaram ao ver o ninho com ovo.
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| Mosca do Mal |
Esse inseto que parece uma mosca - mas provavelmente não é - tem uma ferroada do tipo que derruba cavalo. Uma guria foi picada no dedo que inchou pra caramba. Mais de um desses insetos foram coletados dentro do ônibus.
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| Rubiaceae, família do café |
Para memorizar o nome da família Rubiaceae, uma das alunas fez associação com a professora Rubiani, que bebe bastante café. Peguei carona na associação.
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| Liana |
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| Narcísio no alagado |
Quando já estávamos no ônibus, voltando para a cidade, Narcísio pediu pra descer. Queria coletar uma ninféia. Com as galochas cheias de água, desistiu da ninféia, coletou outra coisa e quase teve um treco. Encontrou a planta misteriosa que estudou no mestrado e que continua lhe tirando o sono. Nunca viu seus frutos, nem sabe quem poleniza a flor. Agora que coletou muitas amostras (inclusive com raízes), terá a chance de aprofundar seus estudos. Espremia as meias encharcadas feliz como uma criança que ganhou a primeira bicicleta no Natal: tinha encontrado seu objeto de estudo ao vivo e em cores.
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| Pera |
Na altura de Nova Mutum, o caminhão - que havíamos visto tombado na beira da estrada na ida - estava sendo retirado do barranco. A operação causou um mega congestionamento, que nos atrasou em mais ou menos uma hora. Enfim, sofremos com atrasos na saída e na volta, mas valeu a última viagem a campo. No meu cérebro, alguns nomes finalmente decantaram; no do Narcísio, tantas outras se revolveram.
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