sábado, 21 de julho de 2012

Gafanhotos

O jardineiro chegou afobado, tropeçando e derrubando coisas. Naquela semana em que ele não tinha ido ao jardim, a terra tinha secado e rachado. As folhas de muitas plantas estavam amareladas, havia frutas podres esturricando nos pés. A vida no jardim se arrastava, minguando.

Tratou logo de regar tudo. Quando o cheiro de terra molhada invadiu suas narinas, conseguiu se acalmar. Quando o sentimento de culpa pela negligência do jardim foi lavado pela mangueira que segurava na mão, começou a organizar o discurso que faria.

Depois que as plantas tinham se saciado e as borboletas todas tinham mudado de lugar, o jardineiro começou a explicar onde tinha estado naquela semana. Tinha ido a outro jardim, muito mais moderno e desenvolvido. Relatou as maravilhas que as máquinas podiam fazer. Falou do cansaço que sentia, da dor nas costas que o trabalho automatizado poderia lhe poupar. Cantou números, prometeu progresso, contabilizou facilidades, contou piadas de mau gosto.

Todos os passarinhos silenciaram. Todos os insetos se aglomeraram aos pés do jardineiro. Como girassóis, todas as folhas e flores se voltaram na direção do homem que sonhava em voz alta com o conforto individual. Todos os seres viventes no jardim observaram que um inseto feio e desconhecido pousou no ombro do jardineiro. À medida que ele chacoalhava o corpo, rindo das próprias piadas, mais e mais gafanhotos pousavam em seus ombros.

Os gafanhotos olhavam para o jardim e seus habitantes. Seus olhos erráticos e inescrutáveis calculavam populações, anteviam pavimentos, vozes mecanizadas, fontes automatizadas e sombras artificiais. O jardineiro já estava inebriado, e em seu torpor, não via mais o jardim nem aqueles que foram seus companheiros durante anos. Pediu às flores que perfumassem o ambiente para impressionar as visitas, ordenou às abelhas que polenizassem as flores às pressas, mandou as árvores se balançarem sem vento.

Os passarinhos foram os primeiros a sair do estado de choque. Avançaram sobre os gafanhotos, mas logo perceberam que suas carapaças eram escudos e suas patas ágeis eram espadas. Queriam arrancar o jardineiro das garras dos gafanhotos, mas ele se sentiu atacado pelos pássaros.

As árvores mais altas viram que no horizonte se formava uma nuvem densa. Alertaram os outros no jardim, mas ninguém se mexeu. A nuvem crescia, ofuscando o sol nascente. As plantas não podiam se desenraizar. Os animais se confundiam tanto com a terra e as plantas - que eram suas moradias - que todos circundaram o jardineiro e esperaram a nuvem de gafanhotos devastar o lugar.


2 comentários:

Luis disse...

Uma alegoria oriental ou ultra-ocidental(Renato Ortiz). Um oriente que chega pelas costas do ocidente, que pousa nas costas. Cumpriste a promessa de falar tudo que viu, mas alegorizando. Muito bom.

iglou disse...

Fico feliz que tenha gostado. Nem tinha caracterizado o oriente, mas posso fazer isso ainda.