quarta-feira, 4 de julho de 2012

Isso é arte

A estória me voltou esses dias, mas o fato se deu muito tempo atrás. Eu estava na Unicamp, cursando uma disciplina de Estética no IFCH (mais especificamente na Filosofia, com Marcos Nobre - eh, saudade), outra disciplina de Estética no IA (Artes Plásticas) e uma terceira disciplina de Estética no IEL (na Letras). Na Letras, o texto-base era um do Bakhtin, sobre responsabilidade/respondibilidade. Ainda no início do curso, o professor (Wanderley Geraldi) nos perguntou quando foi a primeira vez em nossas vidas que tínhamos ouvido a sentença: "Isso é arte!"

Não me manifestei na hora, mas conto aqui o que me veio na lembrança. A primeira vez que eu ouvi alguém dizer "Isso é arte!", eu ainda era criança. A pessoa que disse isso era colega da minha mãe, outro artista plástico. Ele tinha vindo em casa, viu uma folha colorida e exclamou: Isso é arte!

O que ele segurava na mão era um desenho meu. Acho que a minha mãe ainda tem o desenho infantil, meio desbotado, mas ainda todo preenchido de cor. Não sei ao certo o que o artista plástico viu no meu desenho, mas algo certamente o deslocou de lugar.

Duchamp é considerado um artista ao deslocar objetos comuns para o museu.

Neil Gaiman (na minha opinião), um dos maiores contadores de estória contemporâneos, desloca o nosso olhar em A short film about John Bolton. O curta parece um documentário caseiro sobre um pintor, John Bolton, que pinta mulheres vampiras. John é um sujeito pouco simpático, retraído, contraído e sem sal que afirma que somente pinta o que vê. No entanto, suas obras são um sucesso de público e de vendas. O documentarista recebe permissão para acompanhar o processo criativo do artista. O ateliê de John Bolton é uma cripta no meio do cemitério. O pintor e o documentarista esperam a inspiração chegar, mas ela não vem. O documentarista desiste da filmagem, se despede do homem que, desde o início, não tem nenhuma pinta de artista plástico. Ao caminhar desiludido pelo cemitério, vê as vampiras chegando. Em suma, quem vê o curta, fica, até o fim, procurando ver em John Bolton o artista, quando a arte deve ser creditada a Neil Gaiman, o contador da estória.

2 comentários:

Mônica disse...

Aaaamooooo Neil Gaiman e principalmente sua obra-prima: Sandman!

Tenho a coleção completa!

Ma disse...

Na arte e no amor conhecemos isto: enquanto nos falta o envolvimento direto temos dificuldade em descrevê-la. Somente quando somos diretamente afetados sabemos como é e que é.
Sagenhafte Fotos aus der floresta!
Abraço