quarta-feira, 25 de julho de 2012

Dito e não dito

Umberto Eco trata, entre outros assuntos, do tempo da narrativa em Seis passeios pelo bosque da ficção. Algumas narrativas são rápidas e exigem do leitor o preenchimento das lacunas. Outras são lentas, preenchendo todas as lacunas que o leitor sequer enxerga. Para ilustrar uma narrativa absurdamente lenta, ele traz um exemplo de narrativa (não lembro de quem) em que um homem pede a um cocheiro que o leve a um lugar, mas não pode revelar que lugar é esse, pois está numa missão secreta. O cocheiro pressiona, ele revela o nome do lugar. Dada a hora, o cocheiro se recusa a levá-lo naquele dia, porque o destino é longe. Combinam de se encontrar na manhã do dia seguinte, no mesmo local. Ao se despedir, o homem lembra ao cocheiro de trazer a carroça. E o cavalo!

Dizer essas obviedades causa um efeito de absurdo (eu ri pacas lendo o trechinho). Mas se os personagens e o cenário fossem diferentes, dizer obviedades pode provocar ambiguidades. Eis o cenário que imaginei:

Joaquina bateu na porta do ateliê do artista plástico. Ouviu o som dos seus ossos batendo na madeira e sentiu a dor da expectativa. Do outro lado da porta, ouviu-se um ruído. A mulher não entendeu as palavras, mas concluiu que era um ruído humano. Forçou a maçaneta e entrou.

Durval estava sentado numa cadeira de balanço perto da janela, fumava cachimbo e se balançava. Joaquina identificou o artista e passeou os olhos pelo recinto. Havia quadros, tintas, telas, cavaletes, mesas, tecidos e cacarecos por toda parte. Tudo era colorido, misturado e desencontrado: parecia não haver qualquer possibilidade de ordem ali.

Sem demonstrar qualquer reação, o pintor encarou a mulher. Ela explicou o motivo de sua visita. Queria encomendar um quadro.

- Sim, mas que tipo de quadro?
- Não posso falar. 
- Como não?
- Tenho vergonha.
Durval reacendeu o cachimbo, deu duas baforadas e esperou. Como ela não levantava o olhar, arriscou:
- Entendo. Trata-se de um retrato da senhora?
- Sim.
- Muito bem. Sinta-se à vontade. Como vai ser?
- Mas não pode ser aqui. Não posso posar aqui para o senhor.
- Sem problema. Onde vai ser, então?
- No jardim japonês.
- Pois não. 
- Podemos combinar na ponte perto do sino amanhã às 9 da manhã?
Durval pensou um pouco sobre sua agenda livre e acenou.
- Combinado.
- Então nos vemos amanhã. E não se esqueça de trazer a tela, pincéis e tintas!

3 comentários:

Luis disse...

Uma dúvida: essa senhora não confia muito lá nesse retratista, ou faz questão demais dele, apesar de sua desordem?

iglou disse...

Pois é...
A ambiguidade foi proposital.

Luis disse...

Jardim japonês, ponte perto do sino.
Ok, tela, tinta, pincél.
Ei, não esqueça de levar seu corpo,rosto!