sábado, 14 de julho de 2012

Compartilhar a faixa

Porto Velho é uma cidade bem mal servida de ciclofaixas e ciclovias.

Na cidade, tem uma única ciclofaixa (a separação é resolvida por uma faixa pintada no chão) na Av. Raimundo Cantuária. Quando a Raimundo Cantuária desemboca na Nações Unidas, a faixa se desfaz. É comum que haja carros estacionados na ciclofaixa e motos transitando nos dois sentidos.

Tem também uma ciclovia (segregando o tráfego dos ciclistas) que começa no meio da Estrada de Santo Antônio e vai até o cemitério. Como não tem manutenção, é intransitável.

Com tão poucas opções para trafegar em segurança, o ciclista é obrigado a compartilhar a faixa com os veículos motorizados. E compartilhar a faixa significa submeter-se às regras de trânsito. Por mais estranho que pareça, vejo mais ciclistas pedalando na contramão ou calçada em São Paulo do que aqui. Suspeito que esse comportamento tenha a ver com o sentimento de ser minoria ou não. Aqui há muitos ciclistas, porque aqui bicicleta é coisa de pobre. E pobre (ciclista) não é minoria aqui.

Não tenho medo de pedalar no trânsito daqui. Procuro antever fechadas e finas, ocupo o meu lugar na faixa, me posiciono à vista do motorista. Mas, nessa disputa por espaço que é o trânsito compartilhado, acontecem fatos marcantes.

Eu tava parada no farol, corpo na altura da frente de uma pickup. Farol fechado, o cara avança o carro. Olhei na direção do motorista, vi vidros escuros. Avançou mais, até a frente do carro dele emparelhar com o meu guidão. Medi a distância de 15 cm entre o meu guidão e a lataria do carro dele e ostensivamente mostrei aquela distância pro motorista. Parou de avançar. Quando o farol abriu, ele esperou eu sair primeiro.

Na outra situação, parei no farol, no meio da faixa, antes da faixa de pedestres. Estando no meio da faixa, só moto ou bicicleta poderia emparelhar comigo. Um carro parou atrás de mim. Mas parou pousando, não foi nada devagar. O farol de lá abria, o fluxo diminuía e o motorista atrás de mim viu a possibilidade de furar o farol. Buzinou. Ignorei, olhando pro farol fechado. Eis que de trás ouço um  "querida" e "meu amor". Não era comigo. Jura que ele ia me pedir pra dar uma licencinha? Ignorei, observando o quarto tempo do farol. Quando o farol de lá ficou amarelo, me preparei para pedalar. O motorista atrás de mim decolou soltando vento turbinado. Passou muito rápido muito perto de mim, com muito rancor no coração.

Com motoristas desse naipe, que se enxergam como mais gente que os outros quando estão em seus carros caros, é difícil compartilhar a faixa.

3 comentários:

Mônica disse...

Com motoristas como este último, até os outros motoristas de carro acham difícil compartilhar a faixa, Lou.

Esse tipo de motorista deveria ter sua carteira suspensa sempre que apresentasse esse comportamento.

odir disse...

em são paulo, andar na calçada ou na contramão é medo mesmo. na calçada pra ficar longe dos carros, na contra-mão, a ilusão de vê-los e poder desviar de um choque. se bem que nos últimos tempos, mais do que carros, paulista tá com medo é da polícia mesmo.

iglou disse...

Odir,

insisto. O trânsito daqui é mil vezes mais faroeste do que aí. Vejo muito mais motociclista morto por dia do que aí. Quando eu estou atrás do volante, passo muita raiva. Na bicicleta, tomo finas constantes, principalmente de moto. E mesmo assim os ciclistas de Porto Velho não trafegam pela contramão ou calçada. Que seja o medo que leva os ciclistas paulistas a não se adequarem às regras de trânsito, mas, a meu ver, esse medo tem a ver com o número de ciclistas. Quanto menos ciclistas nas ruas, mais medo cada ciclista tem de enfrentar o trânsito.