O Ministério dos Povos Indígenas trabalha com três conceitos-chave: aldear o Estado, reflorestar mentes e bem viver. Os indígenas que vêm dos movimentos têm clareza a respeito desses conceitos.
Para Joenia Wapichana, um exemplo de iniciativa de aldear o Estado é levar urnas eletrônicas para as aldeias, de modo que os indígenas no território não precisem viajar para participar do processo eleitoral. Esse é um exemplo apenas de trazer o Estado pra aldeia.
Reflorestar mentes tem a ver com mudança de paradigma. Como o MPI pode semear, nas mentes e corações do povo brasileiro, modos de vida coletiva, integração com todos os seres -vegetais, animais, espirituais - vivos ou não.
O meu chefe nos deu a tarefa de definir bem viver. O que a professora faz? Procura fontes, lê livros, acompanha entrevistas, faz anotações e sistematiza a informação num texto. O texto sobre bem viver que enviei ao meu chefe foi o seguinte:
Como lembra Ailton Krenak,
“bem viver” é um conceito elaborado pelos povos andinos (quéchua, que usam o
termo sumak kawsai) que foi traduzido para o espanhol como buen vivir
(no Equador) e vivir bien (na Bolívia) e adotado no Brasil como
bem viver. O conceito está ainda em construção porque é interpretado de
diferentes maneiras por povos diversos. Importante destacar que, sendo de
origem latino-americana, reflete experiências emancipatórias e descolonizadoras
pelo direito a uma vida digna. Mas o conceito também está em disputa, porque a economia verde tem usado o termo como usou "sustentável".
Bem viver é principalmente um contradiscurso
que vincula desenvolvimento a crescimento econômico e ideologia de progresso,
se opondo às práticas capitalistas de apropriação, consumo e destruição.
Neodesenvolvimentismo, neoextrativismo, financeirização da Natureza e economia
verde são categorias do capital que não dialogam com a ética da suficiência.
Bem viver não significa viver melhor (que envolve competividade,
individualismo), mas mudar padrões de produção e consumo. A proposta do
bem viver é deslocar o foco no antropocentrismo para o sociobiocentrismo. Se o
ser humano tem uma relação parasitária com a Natureza, é preciso aprender a
criar uma relação simbiótica, em que todos se beneficiam da relação.
Alberto Acosta é um dos mais
ativos proponentes do conceito, apontando para a íntima relação entre a crise
econômico-financeira e a crise ambiental. Para o equatoriano, a primeira
urgência é interromper o desflorestamento. Aprender com a Natureza e reconhecer
que as relações com os outros seres precisam ser recíprocas é o
contrário do ciclo de exploração capitalista que transforma tudo e todos em
mercadoria.
Visto que não somos os únicos
seres dotados de consciência, a proposta do bem viver é fundir Natureza com
Cultura, proporcionando a convivência com todos os seres, de forma equilibrada
e que garanta vida digna a todos os seres. Bem viver é para todos, não
só para os humanos ou elites econômicas.
Para implementar a filosofia do
bem viver, é preciso investir em relações de produção autônomas, renováveis e
autossuficientes. A ética da suficiência embasa relações comunitárias e vida
coletiva: o desperdício e excesso não fazem parte do plano de garantir um futuro
digno para gerações vindouras.
Através do conceito de plurinacionalidade
é possível conceder autonomias territoriais – a Bolívia inclui tanto bem viver
como plurinacionalidade em sua Constituição. Como alerta Silvia Rivera, não
basta estar escrito no documento, é preciso respeitar de fato a diversidade dos
povos. Bem viver é um exercício de integração com a diversidade, é escutar a
polifonia, é defender o direito igualitário.
Meu chefe recebeu diversas respostas, sendo a maioria pessoal (para mim, bem viver é...) e do tamanho de no máximo 4 linhas. A minha destoava no teor e extensão e ainda por cima surpreendia: contra o capitalismo... você quer fazer a revolução?
No evento de lançamento do Planejamento Estratégico do MPI - com apresentação da missão, visão e valores - Sonia Guajajara falou de políticas de
envolvimento como sendo o contrário do
desenvolvimento. Uma sementinha começou a brotar na minha mente: não adianta falar de capitalismo, neoextrativismo etc. e tal, nem adianta citar fontes e intelectuais. Entender a oposição entre desenvolvimento e envolvimento é mais fácil do que fazer a revolução.
Reflorestar mentes começa pelos servidores...