segunda-feira, 30 de outubro de 2023

XIII Congresso da Abralin

Começou o grande congresso da ABRALIN, em que a gente revê várias camadas do nosso passado estudantil/profissional. Sírio Possenti me reconheceu: 

- Rondônia, você é da Federal de Rondônia! 

- Não mais, agora estou em Brasília, no Ministério dos Povos Indígenas.

Na mesa de abertura, por exemplo, estava um representante do MEC que eu tinha visto recentemente na discussão pelas cotas de acesso à universidade. Na fala potente e de voz delicada da Adelaide, ela disse que a criação do Departamento de Línguas e Memórias no MPI foi induzida pela Associação. Eu acredito, já que existe o departamento, mas nenhuma Coordenação de Línguas Indígenas. 

Ao meu lado estava a Bia, com quem fiquei rememorando os tempos de USP, fila no terminal de ônibus, os congressos em que nos encontramos e depois os tempos de Unicamp.

Apresentei num simpósio de Linguística Cognitiva, onde encontrei discípulas da Dudu e ficamos lembrando daquelas meninas que sempre andavam juntas: Fernandinha Cruz, Jana Viscardi e Gabi Schumm. Como eu era orientanda da Rosana, acabei não acompanhando esse trio, mas eu sabia quem eram - até o que estudavam. 

Almocei no RU que em outros lugares chama "bandejão" por causa dessa bandeja-prato de metal. Depois fui tomar um café com a Natália, minha colega na UNIR que disse que conversamos muito mais nos congressos da vida do que no nosso local de trabalho.


Quando foi dito, por pessoas diferentes, que em Curitiba pode chover a qualquer momento, a reação dos não curitibanos era o riso. Mas choveu forte e fez sol. A cidade tem cheiro de musgo molhado.

sábado, 28 de outubro de 2023

Demarcação de território

Não precisa ir pra muito longe para aparecerem placas pintadas à mão anunciando que Jesus voltará, que Jesus te ama e que é fiel. São plaquinhas de PVC ou madeira presas a árvores ou postes. Alguma igreja demarca o seu território de ação.

Na Esplanada eu vi, outro dia, uma pipa sendo empinada no gramado do Eixo Monumental. A rabiola da pipa era um grande cartaz em que vinha escrito CONTRA o ABORTO. 

Surgiram, nessa semana, também na Esplanada, placas de papel presas em postes anunciando PENA de MORTE - plebiscito. 

Eu fiquei pensando: num país em que a pena de morte não é legal, só o fato de se anunciar o plebiscito a respeito dela já é um indicativo de quem está puxando a pauta: aqueles que querem proibir o aborto e legalizar a pena de morte (e se dizem evangélicos). A propaganda é a maior arma do fascismo porque se faz presente o tempo todo, para todos. Essa propaganda é um monotrilho colonizador, porque só mostra uma versão da questão. E não dá pra fazer propaganda por outra religião ou o ateísmo. Não adianta pregar a paz, não basta protestar. Teria que haver uma forma de desmontar, desvalorizar essas certezas.

Havia boatos de uma festa Halloween no MPI. Uns convidavam outros (com certa insistência) pra festa. A primeira vez que me dirigiram a palavra em relação à festa, perguntando se eu vou, respondi com outra pergunta: festa Halloween no Ministério dos Povos Indígenas? Por que vocês querem fazer uma festa americana importada e colonizadora no MPI? Com o passar dos dias, a festa se transformou em festa à fantasia. Os convites continuavam insistentes. Aí o meu colega pataxó anunciou que iria fantasiado de homem invisível. Pronto. Era a solução que todos precisavam pra declinar o convite: vou, sim, vou fantasiada de mulher invisível!

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

De volta à bicicletaria

Estudei o mapa pra saber onde era a bicicletaria mais perto de casa e levei a Amarilda lá. Queriam saber a marca da bicicleta pra botar na ordem de serviço: os adesivos já não permitem mais que se leia Canadian - que não é uma marca que teve vida longa. Disseram que fariam revisão geral e que taria pronta no dia seguinte, ao final do dia. 

No dia seguinte voltei lá e me disseram que o mecânico tinha tentado me ligar pra pedir a chave do cadeado (da corrente que prende a bicicleta no poste) que estava em volta da mesa (conexão entre guidão e quadro). Como eu não tinha recebido ligação, verifiquei o número que eles tinham anotado na ordem de serviço. Tava tudo certo. Alguém reparou que o prefixo não é 61? Ah, então, pois é. Era hora de fechar a loja, o mecânico já não estava mais lá e me pediram pra voltar no dia seguinte no primeiro horário.

Na manhã seguinte, eu estudei o mapa pra entender como eu iria da biciletaria pro MPI. Quando cheguei na bicicletaria, dois funcionários estavam sentados na calçada, vendo celular. Sentei na calçada também e esperei a loja abrir. Procuraram a minha ordem de serviço e não acharam. Qual é a marca da sua bicicleta? O quadro é Canadian, mas não dá mais pra ler, então procura por uma bicicleta amarela. Tá. É essa daqui? Não. 

No andar de cima, o mecânico chamou. Ele estava remontando a Amarilda e se declarou responsável por ela. Mostrou as sapatas de freio desgastadas que tinham sistema de troca de refil. Explicou que na loja não tinha sapatas iguais, porque hoje em dia o suporte e a borracha estão integrados numa peça só. Foi falando das peças e das marcas das peças que compunham a minha bicicleta e eu fui lembrando de tempos remotos. Essa bicicleta tem mais de 25 anos, não é? Tomei um susto e calculei que são só 17. Ele elogiou coroa, câmbio, até os raios: eu troco tanta peça que não aguenta.

Quando me despedi, avisei que no outro mês vou levar a minha Caloi 10. O rosto dele se iluminou: essa é mais antiga ainda, não é? Quadro de ferro - que cor que é? É das azuis? Não... a minha dificuldade com ela sempre foi achar os pneus. Pode trazer que a gente tem.

O caminho que eu percorri até a Esplanada era um tanto diferente do que eu lembrava de ter visto no mapa e exige de fato um planejamento, porque algumas vias são difíceis de atravessar. Demorei 38 minutos pra chegar (quantos anos faz que não pedalo?) e voltei por outro trajeto (cujo início precisa ser repensado). O biciletário do Bloco C fica no subsolo, então a bike ficou na sombra e escondida. Uma vez lá dentro, descobri que posso sair por outra rua que entrei - o que me faz recalcular a rota de ida ao trabalho. 

Amarilda tá nova de novo!

domingo, 15 de outubro de 2023

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

O velho Madeira

As notícias que chegam do rio Madeira são assustadoras. Eu vi a cota máxima (19,74m) do Madeira em 2014, e agora estou desacreditando que o rio tenha chegado ao nível mínimo jamais registrado (1, 11m). Fiquei chocada com a chamada de um jornal que tratava do rio, mas mostrava a foto da usina. Santo Antônio parou de operar em outubro. Olhaí que maravilha: usina hidrelétrica num bioma com regime de chuva sazonal.

Voltei a consultar os boletins da ANA (Agência Nacional de Águas) e conferi coisas curiosas: 1) sim, a linha preta que representa a evolução do nível da água atingiu a mínima histórica;

2) Tanto Jirau como Santo Antônio estão com a água na cota mínima (lembrando: a cota de Jirau varia entre 82 e 90m e a cota de Santo Antônio era 70,5 em 2014 e foi aumentada com o acréscimo de outras turbinas). Jirau segue operando, enquanto Santo Antônio parou - mas repare que Santo Antônio não abriu as comportas: segue acumulando água no reservatório. Do outro lado da barragem, o Madeira em Porto Velho está com 1m de profundidade.

O argumento que move o (agro)negócio é o abastecimento. É preciso continuar navegando no rio apesar da escassez de água para abastecer outros municípios. A solução proposta sela o fim do rio: dragagem. Fazer do rio um canal navegável é desfigurar o velho Madeira.

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Abrir portas

A Lei de Cotas (12.711 de 2012) para ingresso nas instituições federais de educação superior e ensino técnico de nível médio seria avaliada dez anos depois de sua implementação. O fim dos 10 primeiros anos coincidiu com o governo Bolsonaro, que não levou adiante a discussão, de modo que o Projeto de Lei (PL 5384/2020) que avalia as cotas como positivas e amplia as cotas para quilombolas foi discutido agora, em 2023. Em primeiro lugar, as cotas são para alunos egressos de escolas públicas e estudantes com renda familiar inferior a 1,5 salários mínimos. Em seguida, abre-se para pretos, pardos e indígenas. 

Meu chefe perguntou no grupo whats se alguém poderia acompanhá-lo ao Senado. Eu me dispus e fui conversar com ele. Ao lado dele estava um assessor instruindo-o acerca da matéria a ser discutida em audiência pública. Éramos três, então. Apesar de ser ali embaixo, fomos de táxi, já que o calor está alto e a umidade extremamente baixa. Chegando no Anexo 2 do Senado, o segurança informou que a audiência pública na CCJ estava lotada. Como Eliel Benites era palestrante, ele passou. Gabriel Zanatta insistiu que Eliel precisava de assessoria e permitiram a entrada de só um. Eu fiquei de fora.

Os dois ficaram do lado de dentro, perto da porta, acionando contatos e tentando me trazer pra dentro. Veio chegando uma fila de parentes. Ouvia-se o canto e os maracás. Pararam na porta, em silêncio. O segurança ficou tenso e com o rosto enrubescido, foi falar com a primeira da fila. Iam pra outra audiência, do outro lado do prédio.

Recebi comunicado de que eu podia entrar. A assessora do senador Paulo Paim tinha liberado a minha entrada. Chegando na sala, reparei que as mesas e cadeiras estavam predominantemente vazias. Depois do primeiro pronunciamento, o Senador Paim pediu aos seguranças que liberassem a entrada de quem quisesse participar da audiência pública (mas quem tinha sido barrado antes não foi chamado de volta). As portas da audiência pública se abriram (um pouco tarde) porque alguém as tinha fechado antes.

Turbante e cocar
A mesa foi composta, de um lado, com palestrantes que defendiam (com dados) tanto a continuidade da vigência da lei de cotas como a ampliação para quilombolas; e de outro lado, por indivíduos que eram contra cotas raciais. Acompanhando as discussões, entendi que fora a Nação Mestiça, não havia entidades, instituições ou organizações que defendessem o abandono das cotas. Eram pessoas que citavam seus próprios estudos, sua própria situação e condição que percebiam que a disputa era entre conservadores (eles mesmos) e progressistas (que, segundo eles, tinham maior dificuldade para compreendê-los que vice-versa). Enrolado, né?

O principal argumento era a discriminação maior ainda que o negro sofria dentro da instituição de ensino, porque a cor de sua pele denunciaria que era cotista (como se não houvesse também concorrência entre os cotistas e como se as notas e rendimentos escolares fossem mais baixos). Eu fiquei pensando como o indígena é específico em relação ao negro: além de ser fisicamente identificável, o indígena vem de um outro mundo. Nesse outro mundo, a língua é outra, a moradia, comida, tempo, cultura são outros. E cada povo é um povo, com sua língua, cultura e cosmologia.

A fala do Eliel Benites apontou para possíveis transformações da própria instituição de ensino ao acolher estudantes indígenas. E isso faz toda a diferença. É o "envolvimento" de que fala Sonia Guajajara, é reflorestar mentes. As portas não se abrem só para as pessoas diversas (do branco classe média), mas também para os seus modos de ser.

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Xikiña

As mulheres indígenas que vieram dos territórios pra acompanhar a Marcha ofereceram artesanato e pintura corporal. Eu não tinha dinheiro (notas, moedas) pra pagar, nem elas não tinham maquininha em que eu pudesse usar o meu cartão (plastic money). No local não havia caixa eletrônico e eu entendi que eu não podia sair e voltar depois. Elas conversaram entre si na sua língua e uma delas disse pra mim que o marido podia receber pix.

Caminhamos em bloco (bem umas dez pessoas) pelo acampamento até localizar o marido. Anunciei que eu queria fazer um pix e ele disse que o celular dele tinha descarregado. Até tentei argumentar que eu só precisava da chave dele pra fazer a operação, mas depois entendi que, sem o celular dele ligado, ele não tinha como monitorar se a operação tinha sido realizada ou não. Talvez ele também não soubesse a chave pix dele... Em todo caso, entendi que, além de ter que ter um celular, o indígena precisava ter conta em banco pra receber pagamentos. Diante do impasse, o marido sugeriu que fôssemos até o motorista do ônibus.

Seguimos em bloco na direção do estacionamento. No caminho, algumas foram atraídas por uma banca de artesanatos. Como um corpo, de repente todas as mulheres indígenas estavam olhando artesanato, só Agnes e eu tínhamos ficado paradas no meio do caminho. Uma delas percebeu o destacamento, chamou as outras e chegamos no ônibus. O motorista tinha ido banhar, disse o homem deitado na rede esticada entre dois ônibus. Ele mesmo era motorista também, e se ofereceu pra receber o pix. Levantou da rede, entrou no ônibus, achou a carteira e tirou uma nota de 50. 

O valor que eu devia pra mulher era 40. Essa nota de 50 causou outro impasse. O grupo já tinha dispersado e restávamos só 5 pessoas: o motorista, duas mulheres, Agnes e eu. Uma foi conversando com a outra, lembrando quais notas ela tinha recebido de quem. Juntas, foram reconstruindo o inventário de notas recebidas e calcularam que ela podia receber a nota marrom de 50 se devolvesse uma nota vermelha de 10. A outra abriu a capinha do celular e retirou dali uma nota de 10. Eu fiz o pix de 40 pro motorista e quando terminei, já estava sozinha com Agnes. 

Eu não sei qual é o sistema numérico na língua daquelas mulheres, mas lembro que em tupi se contava 1, 2, 3, 4 muitos, um cacho, um enxame, um cardume etc. Além de entender a minha língua, as minhas possibilidades de pagar (cartão ou pix, que são muito mais abstratos que notas de dinheiro), ela tinha que entender as notas e que 50 - 10 = 40. 

Elas transitam entre dois mundos. 

Quando estávamos no MEC, na Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena, uma pessoa indígena tinha ficado de editar o texto que aparecia projetado na parede. Essa pessoa escreveu Chiquinha com a ortografia adotada pra grafar os nomes dos povos (x para os chiantes, k em vez de qu e ñ em vez de nh). Eu achei Xikiña uma solução surpreendente.

Estou lendo o último livro do Márcio Seligman sobre tradução decolonial com grande entusiasmo. Ele aponta que Walter Benjamin "escreveu sobre a tradução como uma “arcada”, que permite ver a outra língua, em oposição à tradução como “muro”, que barra a visão do outro, reduzindo-o aos padrões de gosto da língua de chegada."

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Marcha das Mulheres Indígenas

Eu estava quieta no meu canto, sentadinha na frente do computador no MPI, quando ouvi o chamado. Era a Marcha das Mulheres Indígenas passando. Muita gente desceu, se acumulou na calçada, viu a marcha imensa passando e fez registros pelo celular. O som dos maracás dava o ritmo. Um grupo atravessou a avenida pra fotografar mais de perto. Eu atravessei e me misturei na massa.
Falas potentes foram proferidas no alto do carro de som. Cantos foram entoados no gramado.
Desde Agnes, eu choro facinho, facinho. Enxuguei muitas lágrimas, mas senti que não estava só na comoção.

domingo, 10 de setembro de 2023

14 anos

No dia 10 de setembro de 2009 eu, Narcísio, Fátima Molina e outros (que eu não lembro) tomamos posse na UNIR. 14 anos depois, continuo vinculada à UNIR, mas em exercício em Brasília.

Hoje começa a Marcha das Mulheres Indígenas em Brasília. Agnes e eu fomos lá na Funarte, ver o que isso significa. Muitas barracas, muitas tendas de artesanato, até mesmo rostos conhecidos. Chirley Pankará e Altaci Kokama eu vejo também no MPI, mas rever Márcia Mura foi uma surpresa.

Agnes ganhou pintura corporal - que Márcia Mura logo reconheceu como Kayapó. Eu fiquei impressionada: tu reconhece o povo pelo grafismo? Depois, caminhando pelo acampamento, fui entendendo os padrões.

As mulheres levantavam poeira. Senti a energia delas.


sábado, 9 de setembro de 2023

Contador de histórias

Oito de setembro caiu numa sexta-feira depois do feriado de 7 de setembro. As escolas enforcaram, mas a Esplanada, não. Na verdade, foi um vai e volta de declarar o dia 6 como ponto facultativo (por questões de segurança) que no fim das contas não teve ponto facultativo nenhum. Agnes não tinha escola, então, na sexta, mas tanto Luis como eu precisávamos trabalhar.

De manhã ela foi pro CNDH e depois do almoço ela me acompanhou no MPI. Como a minha mesa é muito no cantinho e o meu vizinho estava lá, Agnes ficou na mesa do Daniel, que estava em missão. Todo mundo que via a criança loura na sala do Ministério dos Povos Indígenas procurava quem poderia ser responsável por ela e me encontrava sorrindo: é minha. Agnes pediu cola emprestada pra moça que senta na minha frente e foi fazendo bloquinhos de anotações. O meu vizinho ganhou um, a moça que emprestou a cola ganhou um também, até o Seu Jecinaldo ganhou um bloquinho. No final do dia, quando juntamos as nossas coisas, vi que a minha agenda estava toda recortada.

No final da tarde, Altaci pediu uma reunião pra nos explicar o conceito de língua-espírito. Agnes estava imersa no tablet. A certa altura, Eliel comentou que de manhãzinha ouvia na casa dele o canto de um pássaro que o transportava de volta pra aldeia. Urutau? Perguntei. Vendo que Agnes tinha tirado os fones e desgrudado os olhos da tela, ele contou a história dos irmãos Sol e Lua e do urutau: não pode imitar o canto do urutau, porque ele leva a pessoa embora, como aconteceu com a Lua.

Sol e Lua dormiram na margem do rio. Quando acordaram, de madrugada, com o canto do urutau, Lua imitou o canto do pássaro. Sol ficou dizendo que não podia, mas Lua achava graça. Sol adormeceu de novo e quando acordou, Lua não estava mais lá. Tentou atravessar o rio, procurou um lugar, mas o rio estava cheio de jacarés. Andou pra cima e pra baixo, procurando um jeito de atravessar o rio, até que um jacaré falou pro Sol que levava ele nas costas. Sol teve medo do jacaré, mas o jacaré prometeu que não o comeria. No meio do rio, o jacaré pediu pro Sol xingar ele: fala que o meu casco é duro, que eu sou espinhoso e que meus olhos são grandes demais. Sol respondeu que o jacaré era lindo, que ele se encaixava perfeitamente nas costas dele e que os olhos do jacaré eram os meis belos que já tinha visto. O jacaré seguiu carregando Sol até a outra margem, onde Sol logo pulou num galho e seguiu pelas copas das árvores. Depois de muito caminhar, encontrou o irmão Lua magro, faminto, abanando carnes de caça. O urutau tinha dito que Lua tinha que espantar as moscas, mas não podia comer a carne. Sol derramou farinha de mandioca por cima das carnes e quando o urutau chegou e viu as carnes cobertas de pontinhos brancos, achou que eram larvas e foi-se embora furioso. Lua e Sol se refestelaram e depois foram procurar o urutau. O pássaro estava embaixo de um pé de frutas, esperando as frutas caírem. Sol subiu nos galhos, chacoalhou bem e as frutas caíram na cabeça do urutau, amassando a cabeça dele. Por isso ele tem a cabeça chata.

No carro, voltando pra casa, perguntei pra Agnes se ela tinha gostado da história que o meu chefe tinha contado. Agnes ficou perplexa: Você ACREDITOU nas histórias dele???

terça-feira, 5 de setembro de 2023

A hierarquia e o ponto

Descobri recentemente - porque eu fui lá e perguntei - que eu sou obrigada a bater ponto no Ministério. A jornada é de oito horas diárias, sendo que uma hora (no mínimo) de intervalo é obrigatória. Isso significa que eu preciso fazer 4 registros: entrada, início do intervalo, fim do intervalo e saída. Professor universitário não bate ponto. Eu tinha dó das estagiárias da EDUFRO que tinham que bater ponto - mas rapidinho elas descobriram maneiras de burlar o sistema. Eu não terei parceiro pra burlar o ponto, tenho apenas um chefe que homologa o meu ponto.

Considerando que Agnes fica na escola em tempo integral (8h a 18h dá 10 horas), seria de se esperar que eu fosse capaz de cumprir 8h de trabalho. Mas não são 8h que eu dedico ao MPI: são 9, por causa do intervalo de 1 hora no mínimo. Eu, que desço pra almoçar no refeitório às 11h40 e volto pra minha mesa às 12h, preciso esperar dar 12h40 pra registrar o fim do intervalo. Agnes estuda numa escola localizada no alto de uma colina, a 20km da nossa casa. Isso significa que eu preciso de meia hora pra levá-la pra escola e depois preciso de mais meia hora pra buscar a menina. Pra fazer esses 80km diários, eu gasto uma hora do meu tempo de trabalho. Moramos perto do trabalho, mas longe da escola.

Nunca, desde que cheguei, consegui registrar 8h de trabalho.

Eu cheguei num Ministério em que todos - menos eu - são caciques (possuem cargo ou função paga). Eu sou assessora técnica e estou subordinada a uma coordenadora, um diretor, uma secretária e a ministra. Sou demandada com pouca frequência pelos meus superiores e essa ausência de plano ou tarefas me incomoda (apesar de, por outro lado, ser bom ter tanto tempo pra estudar). Quando decidi tomar a iniciativa de articular contatos e estabelecer agendas, a minha superior avisa que qualquer comunicação com instituições externas deve ser feita em nome do/a coordenador(a) ou diretor(a), e sempre em sua presença. 

Esse tipo de hierarquia é, pra mim, tão contraproducente quanto a obrigatoriedade do registro do ponto. Mas quem sou eu?

sábado, 26 de agosto de 2023

Amarelou

 De repente todos os ipês amarelos decidiram florir juntos.


domingo, 20 de agosto de 2023

... e ponto final?


Saiu o podcast em que Renato Basso e Yan Masetto me entrevistaram sobre os sinais de pontuação.

Dá pra ouvir aqui.

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Reflorestar mentes

O Ministério dos Povos Indígenas trabalha com três conceitos-chave: aldear o Estado, reflorestar mentes e bem viver. Os indígenas que vêm dos movimentos têm clareza a respeito desses conceitos. 


Para Joenia Wapichana, um exemplo de iniciativa de aldear o Estado é levar urnas eletrônicas para as aldeias, de modo que os indígenas no território não precisem viajar para participar do processo eleitoral. Esse é um exemplo apenas de trazer o Estado pra aldeia. 

Reflorestar mentes tem a ver com mudança de paradigma. Como o MPI pode semear, nas mentes e corações do povo brasileiro, modos de vida coletiva, integração com todos os seres -vegetais, animais, espirituais - vivos ou não. 

O meu chefe nos deu a tarefa de definir bem viver. O que a professora faz? Procura fontes, lê livros, acompanha entrevistas, faz anotações e sistematiza a informação num texto. O texto sobre bem viver que enviei ao meu chefe foi o seguinte:

Como lembra Ailton Krenak, “bem viver” é um conceito elaborado pelos povos andinos (quéchua, que usam o termo sumak kawsai) que foi traduzido para o espanhol como buen vivir (no Equador) e vivir bien (na Bolívia) e adotado no Brasil como bem viver. O conceito está ainda em construção porque é interpretado de diferentes maneiras por povos diversos. Importante destacar que, sendo de origem latino-americana, reflete experiências emancipatórias e descolonizadoras pelo direito a uma vida digna. Mas o conceito também está em disputa, porque a economia verde tem usado o termo como usou "sustentável".

Bem viver é principalmente um contradiscurso que vincula desenvolvimento a crescimento econômico e ideologia de progresso, se opondo às práticas capitalistas de apropriação, consumo e destruição. Neodesenvolvimentismo, neoextrativismo, financeirização da Natureza e economia verde são categorias do capital que não dialogam com a ética da suficiência. Bem viver não significa viver melhor (que envolve competividade, individualismo), mas mudar padrões de produção e consumo. A proposta do bem viver é deslocar o foco no antropocentrismo para o sociobiocentrismo. Se o ser humano tem uma relação parasitária com a Natureza, é preciso aprender a criar uma relação simbiótica, em que todos se beneficiam da relação.

Alberto Acosta é um dos mais ativos proponentes do conceito, apontando para a íntima relação entre a crise econômico-financeira e a crise ambiental. Para o equatoriano, a primeira urgência é interromper o desflorestamento. Aprender com a Natureza e reconhecer que as relações com os outros seres precisam ser recíprocas é o contrário do ciclo de exploração capitalista que transforma tudo e todos em mercadoria.

Visto que não somos os únicos seres dotados de consciência, a proposta do bem viver é fundir Natureza com Cultura, proporcionando a convivência com todos os seres, de forma equilibrada e que garanta vida digna a todos os seres. Bem viver é para todos, não só para os humanos ou elites econômicas.

Para implementar a filosofia do bem viver, é preciso investir em relações de produção autônomas, renováveis e autossuficientes. A ética da suficiência embasa relações comunitárias e vida coletiva: o desperdício e excesso não fazem parte do plano de garantir um futuro digno para gerações vindouras.

Através do conceito de plurinacionalidade é possível conceder autonomias territoriais – a Bolívia inclui tanto bem viver como plurinacionalidade em sua Constituição. Como alerta Silvia Rivera, não basta estar escrito no documento, é preciso respeitar de fato a diversidade dos povos. Bem viver é um exercício de integração com a diversidade, é escutar a polifonia, é defender o direito igualitário.

Meu chefe recebeu diversas respostas, sendo a maioria pessoal (para mim, bem viver é...) e do tamanho de no máximo 4 linhas. A minha destoava no teor e extensão e ainda por cima surpreendia: contra o capitalismo... você quer fazer a revolução?

No evento de lançamento do Planejamento Estratégico do MPI - com apresentação da missão, visão e valores - Sonia Guajajara falou de políticas de envolvimento como sendo o contrário do desenvolvimento. Uma sementinha começou a brotar na minha mente: não adianta falar de capitalismo, neoextrativismo etc. e tal, nem adianta citar fontes e intelectuais. Entender a oposição entre desenvolvimento e envolvimento é mais fácil do que fazer a revolução.

Reflorestar mentes começa pelos servidores...

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Ainda nos instalando

Eu cheguei em Brasília um dia depois que o caminhão de mudança tinha chegado de Porto Velho. Meu voo chegou às 6h (da manhã) e às 8h começou a função de carregar as coisas pro novo apartamento. Eu só não fui direto do aeroporto pro apartamento vazio porque Agnes e Luis ainda estavam no Centro Estigmatino e estávamos com saudades recíprocas.

Dessa vez foram cinco homens pra subir e desembalar as coisas. Não me deixaram fazer nada e me censuraram quando montei a cama da Agnes.

Ainda não conseguimos abrir todas as caixas por falta de tempo. Luis esteve em Belém pra Cúpula da Amazônia, e eu, na função de levar Agnes pra escola, ir pro trabalho, buscar a menina no fim da tarde e ainda cozinhar de noite não permitiu grandes avanços. Teremos que providenciar mais estantes de livros, porque nem todas vieram na mudança (ou porque eram muito frágeis ou porque extrapolava a metragem do caminhão).
No Ministério, ainda não sei bem qual é o meu trabalho. Os membros da equipe a que pertenço estão todos em salas diferentes, então a gente só se vê em reunião, corredor ou quando alguém pede ajuda. As ajudas são de diversas ordens, mas até o momento todas envolvem texto: interpretação, escrita, leitura, sistematização de informação.

Os copeiros (que trazem o copo às 8h enchem o copo com água às 10h30 e oferecem café ou chá e depois retornam às 14h30 com água, café ou chá) têm personalidade marcante, comentam o que pedimos e vão adivinhando nossas preferências. Eu estou instalada numa sala dominada pelo pessoal da gestão, então os papos são valores, processos SEI, senha, liberação e bens tipo microondas no gabinete. Todos usam colares, anéis e pulseiras indígenas. Eu estou ressuscitando os meus adornos.

No segundo dia de aula da Agnes na escola pública, ela teve uma desavença com a professora. Teve bilhete na agenda e ida pra diretoria porque Agnes desafiou a professora. No dia seguinte teve jogo da seleção e a manhã foi cancelada. Nesse dia, veio mensagem da Escola da Árvore de que havia surgido uma vaga no 1. ano Fundamental. Essa escola fica numa chácara na zona rural do Lago Norte (moramos na asa sul) e o acesso é por estrada de terra (muita poeira agora que a umidade relativa do ar está na casa dos 10%). Fora a viagem e o valor exorbitante, a escola tem uma proposta muito bacana de bem-viver.

Hoje o meu diretor me pediu que eu escrevesse um texto definindo esse conceito que foi trazido do quéchua e, pelas traduções (buen vivir, vivir bien) e adaptações (bem-viver, vida boa), está em construção. Tive que pedir referências bibliográficas pro Luis, mas consegui. Fora a parte do pagamento de mensalidade, a escola procura a integração com a natureza, o exercício da reciprocidade, a ética da suficiência. Mas a relação com o capitalismo é inescapável. A escola tem um grupo de whats de desapegos. Eu tinha entendido que era pras pessoas trocarem coisas que ficaram pequenas ou fora de lugar, mas reparei que (i) é um grupo muito ativo que enche a biblioteca de imagens do meu celular de fotos de objetos alheios, (ii) que as coisas vêm com preço e (iii) que as justificativas são também coisas do tipo comprei 2, mas só precisava de 1. As crianças aprendem a exercer o bem-viver enquanto os pais administram a cultura do excesso.

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Vintage tem não

Passei uma semana em Porto Velho ocupada com a mudança e encerramento do aluguel do apartamento em que moramos 4 anos. Não coube tudo no caminhão de mudança, então precisei distribuir muitos móveis e objetos. Tentei vender algumas coisas, outras foram de grátis porque tenham um valor (emocional, artesanal) tão alto, que ninguém compraria.

Levei o meu Mac sucata (o segundo de 2011, cuja bateria morreu) que ficou sem o cabo porque o pessoal da mudança jogou o cabo numa caixa, mas deixou o computador, e ofereci as peças. Ele não sabia quanto vale e pediu que eu sugerisse um valor. 300? Pago 250. Fechou. 

Aí veio a vistoria de saída do apartamento. O vistoriador testou todas as lâmpadas (mas quando entramos no apartamento, não havia energia pra constatar que 7 lâmpadas estavam queimadas ou ausentes, que o chuveiro 110 estava ligado na rede 220 e causando curto), abriu e filmou todas as torneiras pra comprovar que não havia vazamentos (mas quando pedimos pra proprietária trocar as torneiras, ela disse que podíamos levar as nossas quando saíssemos), abriu todas as portas e gavetas, fotografou todas as janelas. 

O laudo de vistoria pedia pra eu repor aquela decoração que cobre a lâmpada, mas a lâmpada era do tipo que tem um reator - que não se fabrica mais, então eu não acharia uma lâmpada chata e redonda o suficiente pra colocar o vidro decorativo em cima. Pedia pra trocar maçaneta e fechadura de porta - que não existe mais também. Rodei várias lojas de porta e uma loja só de fechaduras pra ouvir que não existe mais fechadura desse tamanho faz uns 30 anos. Achei uma menor, mas com furação compatível que eu mesma instalei com a minha chave philips. O laudo pedia a substituição dos tampos de vaso - adivinha? que não existem mais naquele material que racha e quebra com o tempo (3 assentos quebrados!) e cuja furação na cerâmica não é compatível com qualquer assento disponível no mercado. O laudo pedia a colocação de pastilhas de vidro na parede do chuveiro (caíram 24) - que saíram de linha há 2 anos.

O esposo da proprietária entendeu que o tempo passou e que consertar essas coisas implica em mudanças mais drásticas (trocar os vasos sanitários, trocar o azulejo do chuveiro etc.), mas a proprietária pediu que o pintor colocasse tinta sulvinil no orçamento de pintura. As paredes não estão vestindo a tinta mais cara do mercado. A agente imobiliária pediu um segundo orçamento e a discrepância entre os dois orçamentos é de quase 3 mil reais.

Nos primeiros quatro dias, passei a maior parte do tempo no apartamento: distribuindo coisas, chamando eletricista, chaveiro, vidraceiro; apertando parafusos. Depois eu fui na Heloisa. Teve um dia que ela foi buscar o som (minissistem, olha o nome do 3 em 1) que ela tinha mandado pra conserto, mas que não foi consertado porque o homem não achou a peça do leitor de CD. Tinha datashow, caixa de som e outros equipamentos antigos no pacote. O cara que não consertou indicou outro. Fomos lá, mas acabamos encontrando um consertador de TV. Ele mesmo conserta TV, mas quer comprar um projetor bom, porque as TVs de hoje em dia estão durando 2 ou 3 anos. Deu conselhos pra Heloisa de como consertar as coisas vintage dela: vá pra São Paulo de carro. Na Santa Ifigênia, na parte de cima, cê vai achar quem tem as peças que os seus objetos precisam. Ninguém mais conserta som. 

Curioso que ao me desligar de Porto Velho e da profissão de professora, eu tenha passado por tantos objetos do passado que não tem mais como recuperar.