quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Reflorestar mentes

O Ministério dos Povos Indígenas trabalha com três conceitos-chave: aldear o Estado, reflorestar mentes e bem viver. Os indígenas que vêm dos movimentos têm clareza a respeito desses conceitos. 


Para Joenia Wapichana, um exemplo de iniciativa de aldear o Estado é levar urnas eletrônicas para as aldeias, de modo que os indígenas no território não precisem viajar para participar do processo eleitoral. Esse é um exemplo apenas de trazer o Estado pra aldeia. 

Reflorestar mentes tem a ver com mudança de paradigma. Como o MPI pode semear, nas mentes e corações do povo brasileiro, modos de vida coletiva, integração com todos os seres -vegetais, animais, espirituais - vivos ou não. 

O meu chefe nos deu a tarefa de definir bem viver. O que a professora faz? Procura fontes, lê livros, acompanha entrevistas, faz anotações e sistematiza a informação num texto. O texto sobre bem viver que enviei ao meu chefe foi o seguinte:

Como lembra Ailton Krenak, “bem viver” é um conceito elaborado pelos povos andinos (quéchua, que usam o termo sumak kawsai) que foi traduzido para o espanhol como buen vivir (no Equador) e vivir bien (na Bolívia) e adotado no Brasil como bem viver. O conceito está ainda em construção porque é interpretado de diferentes maneiras por povos diversos. Importante destacar que, sendo de origem latino-americana, reflete experiências emancipatórias e descolonizadoras pelo direito a uma vida digna. Mas o conceito também está em disputa, porque a economia verde tem usado o termo como usou "sustentável".

Bem viver é principalmente um contradiscurso que vincula desenvolvimento a crescimento econômico e ideologia de progresso, se opondo às práticas capitalistas de apropriação, consumo e destruição. Neodesenvolvimentismo, neoextrativismo, financeirização da Natureza e economia verde são categorias do capital que não dialogam com a ética da suficiência. Bem viver não significa viver melhor (que envolve competividade, individualismo), mas mudar padrões de produção e consumo. A proposta do bem viver é deslocar o foco no antropocentrismo para o sociobiocentrismo. Se o ser humano tem uma relação parasitária com a Natureza, é preciso aprender a criar uma relação simbiótica, em que todos se beneficiam da relação.

Alberto Acosta é um dos mais ativos proponentes do conceito, apontando para a íntima relação entre a crise econômico-financeira e a crise ambiental. Para o equatoriano, a primeira urgência é interromper o desflorestamento. Aprender com a Natureza e reconhecer que as relações com os outros seres precisam ser recíprocas é o contrário do ciclo de exploração capitalista que transforma tudo e todos em mercadoria.

Visto que não somos os únicos seres dotados de consciência, a proposta do bem viver é fundir Natureza com Cultura, proporcionando a convivência com todos os seres, de forma equilibrada e que garanta vida digna a todos os seres. Bem viver é para todos, não só para os humanos ou elites econômicas.

Para implementar a filosofia do bem viver, é preciso investir em relações de produção autônomas, renováveis e autossuficientes. A ética da suficiência embasa relações comunitárias e vida coletiva: o desperdício e excesso não fazem parte do plano de garantir um futuro digno para gerações vindouras.

Através do conceito de plurinacionalidade é possível conceder autonomias territoriais – a Bolívia inclui tanto bem viver como plurinacionalidade em sua Constituição. Como alerta Silvia Rivera, não basta estar escrito no documento, é preciso respeitar de fato a diversidade dos povos. Bem viver é um exercício de integração com a diversidade, é escutar a polifonia, é defender o direito igualitário.

Meu chefe recebeu diversas respostas, sendo a maioria pessoal (para mim, bem viver é...) e do tamanho de no máximo 4 linhas. A minha destoava no teor e extensão e ainda por cima surpreendia: contra o capitalismo... você quer fazer a revolução?

No evento de lançamento do Planejamento Estratégico do MPI - com apresentação da missão, visão e valores - Sonia Guajajara falou de políticas de envolvimento como sendo o contrário do desenvolvimento. Uma sementinha começou a brotar na minha mente: não adianta falar de capitalismo, neoextrativismo etc. e tal, nem adianta citar fontes e intelectuais. Entender a oposição entre desenvolvimento e envolvimento é mais fácil do que fazer a revolução.

Reflorestar mentes começa pelos servidores...

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