Oito de setembro caiu numa sexta-feira depois do feriado de 7 de setembro. As escolas enforcaram, mas a Esplanada, não. Na verdade, foi um vai e volta de declarar o dia 6 como ponto facultativo (por questões de segurança) que no fim das contas não teve ponto facultativo nenhum. Agnes não tinha escola, então, na sexta, mas tanto Luis como eu precisávamos trabalhar.
De manhã ela foi pro CNDH e depois do almoço ela me acompanhou no MPI. Como a minha mesa é muito no cantinho e o meu vizinho estava lá, Agnes ficou na mesa do Daniel, que estava em missão. Todo mundo que via a criança loura na sala do Ministério dos Povos Indígenas procurava quem poderia ser responsável por ela e me encontrava sorrindo: é minha. Agnes pediu cola emprestada pra moça que senta na minha frente e foi fazendo bloquinhos de anotações. O meu vizinho ganhou um, a moça que emprestou a cola ganhou um também, até o Seu Jecinaldo ganhou um bloquinho. No final do dia, quando juntamos as nossas coisas, vi que a minha agenda estava toda recortada.
No final da tarde, Altaci pediu uma reunião pra nos explicar o conceito de língua-espírito. Agnes estava imersa no tablet. A certa altura, Eliel comentou que de manhãzinha ouvia na casa dele o canto de um pássaro que o transportava de volta pra aldeia. Urutau? Perguntei. Vendo que Agnes tinha tirado os fones e desgrudado os olhos da tela, ele contou a história dos irmãos Sol e Lua e do urutau: não pode imitar o canto do urutau, porque ele leva a pessoa embora, como aconteceu com a Lua.
Sol e Lua dormiram na margem do rio. Quando acordaram, de madrugada, com o canto do urutau, Lua imitou o canto do pássaro. Sol ficou dizendo que não podia, mas Lua achava graça. Sol adormeceu de novo e quando acordou, Lua não estava mais lá. Tentou atravessar o rio, procurou um lugar, mas o rio estava cheio de jacarés. Andou pra cima e pra baixo, procurando um jeito de atravessar o rio, até que um jacaré falou pro Sol que levava ele nas costas. Sol teve medo do jacaré, mas o jacaré prometeu que não o comeria. No meio do rio, o jacaré pediu pro Sol xingar ele: fala que o meu casco é duro, que eu sou espinhoso e que meus olhos são grandes demais. Sol respondeu que o jacaré era lindo, que ele se encaixava perfeitamente nas costas dele e que os olhos do jacaré eram os meis belos que já tinha visto. O jacaré seguiu carregando Sol até a outra margem, onde Sol logo pulou num galho e seguiu pelas copas das árvores. Depois de muito caminhar, encontrou o irmão Lua magro, faminto, abanando carnes de caça. O urutau tinha dito que Lua tinha que espantar as moscas, mas não podia comer a carne. Sol derramou farinha de mandioca por cima das carnes e quando o urutau chegou e viu as carnes cobertas de pontinhos brancos, achou que eram larvas e foi-se embora furioso. Lua e Sol se refestelaram e depois foram procurar o urutau. O pássaro estava embaixo de um pé de frutas, esperando as frutas caírem. Sol subiu nos galhos, chacoalhou bem e as frutas caíram na cabeça do urutau, amassando a cabeça dele. Por isso ele tem a cabeça chata.
No carro, voltando pra casa, perguntei pra Agnes se ela tinha gostado da história que o meu chefe tinha contado. Agnes ficou perplexa: Você ACREDITOU nas histórias dele???
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