As mulheres indígenas que vieram dos territórios pra acompanhar a Marcha ofereceram artesanato e pintura corporal. Eu não tinha dinheiro (notas, moedas) pra pagar, nem elas não tinham maquininha em que eu pudesse usar o meu cartão (plastic money). No local não havia caixa eletrônico e eu entendi que eu não podia sair e voltar depois. Elas conversaram entre si na sua língua e uma delas disse pra mim que o marido podia receber pix.
Caminhamos em bloco (bem umas dez pessoas) pelo acampamento até localizar o marido. Anunciei que eu queria fazer um pix e ele disse que o celular dele tinha descarregado. Até tentei argumentar que eu só precisava da chave dele pra fazer a operação, mas depois entendi que, sem o celular dele ligado, ele não tinha como monitorar se a operação tinha sido realizada ou não. Talvez ele também não soubesse a chave pix dele... Em todo caso, entendi que, além de ter que ter um celular, o indígena precisava ter conta em banco pra receber pagamentos. Diante do impasse, o marido sugeriu que fôssemos até o motorista do ônibus.
Seguimos em bloco na direção do estacionamento. No caminho, algumas foram atraídas por uma banca de artesanatos. Como um corpo, de repente todas as mulheres indígenas estavam olhando artesanato, só Agnes e eu tínhamos ficado paradas no meio do caminho. Uma delas percebeu o destacamento, chamou as outras e chegamos no ônibus. O motorista tinha ido banhar, disse o homem deitado na rede esticada entre dois ônibus. Ele mesmo era motorista também, e se ofereceu pra receber o pix. Levantou da rede, entrou no ônibus, achou a carteira e tirou uma nota de 50.
O valor que eu devia pra mulher era 40. Essa nota de 50 causou outro impasse. O grupo já tinha dispersado e restávamos só 5 pessoas: o motorista, duas mulheres, Agnes e eu. Uma foi conversando com a outra, lembrando quais notas ela tinha recebido de quem. Juntas, foram reconstruindo o inventário de notas recebidas e calcularam que ela podia receber a nota marrom de 50 se devolvesse uma nota vermelha de 10. A outra abriu a capinha do celular e retirou dali uma nota de 10. Eu fiz o pix de 40 pro motorista e quando terminei, já estava sozinha com Agnes.
Eu não sei qual é o sistema numérico na língua daquelas mulheres, mas lembro que em tupi se contava 1, 2, 3, 4 muitos, um cacho, um enxame, um cardume etc. Além de entender a minha língua, as minhas possibilidades de pagar (cartão ou pix, que são muito mais abstratos que notas de dinheiro), ela tinha que entender as notas e que 50 - 10 = 40.
Elas transitam entre dois mundos.
Quando estávamos no MEC, na Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena, uma pessoa indígena tinha ficado de editar o texto que aparecia projetado na parede. Essa pessoa escreveu Chiquinha com a ortografia adotada pra grafar os nomes dos povos (x para os chiantes, k em vez de qu e ñ em vez de nh). Eu achei Xikiña uma solução surpreendente.
Estou lendo o último livro do Márcio Seligman sobre tradução decolonial com grande entusiasmo. Ele aponta que Walter Benjamin "escreveu sobre a tradução como uma “arcada”, que permite ver a outra língua, em oposição à tradução como “muro”, que barra a visão do outro, reduzindo-o aos padrões de gosto da língua de chegada."
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