terça-feira, 5 de setembro de 2023

A hierarquia e o ponto

Descobri recentemente - porque eu fui lá e perguntei - que eu sou obrigada a bater ponto no Ministério. A jornada é de oito horas diárias, sendo que uma hora (no mínimo) de intervalo é obrigatória. Isso significa que eu preciso fazer 4 registros: entrada, início do intervalo, fim do intervalo e saída. Professor universitário não bate ponto. Eu tinha dó das estagiárias da EDUFRO que tinham que bater ponto - mas rapidinho elas descobriram maneiras de burlar o sistema. Eu não terei parceiro pra burlar o ponto, tenho apenas um chefe que homologa o meu ponto.

Considerando que Agnes fica na escola em tempo integral (8h a 18h dá 10 horas), seria de se esperar que eu fosse capaz de cumprir 8h de trabalho. Mas não são 8h que eu dedico ao MPI: são 9, por causa do intervalo de 1 hora no mínimo. Eu, que desço pra almoçar no refeitório às 11h40 e volto pra minha mesa às 12h, preciso esperar dar 12h40 pra registrar o fim do intervalo. Agnes estuda numa escola localizada no alto de uma colina, a 20km da nossa casa. Isso significa que eu preciso de meia hora pra levá-la pra escola e depois preciso de mais meia hora pra buscar a menina. Pra fazer esses 80km diários, eu gasto uma hora do meu tempo de trabalho. Moramos perto do trabalho, mas longe da escola.

Nunca, desde que cheguei, consegui registrar 8h de trabalho.

Eu cheguei num Ministério em que todos - menos eu - são caciques (possuem cargo ou função paga). Eu sou assessora técnica e estou subordinada a uma coordenadora, um diretor, uma secretária e a ministra. Sou demandada com pouca frequência pelos meus superiores e essa ausência de plano ou tarefas me incomoda (apesar de, por outro lado, ser bom ter tanto tempo pra estudar). Quando decidi tomar a iniciativa de articular contatos e estabelecer agendas, a minha superior avisa que qualquer comunicação com instituições externas deve ser feita em nome do/a coordenador(a) ou diretor(a), e sempre em sua presença. 

Esse tipo de hierarquia é, pra mim, tão contraproducente quanto a obrigatoriedade do registro do ponto. Mas quem sou eu?

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