domingo, 28 de dezembro de 2008

Gregor Samsa II

Ungeheures Ungeziefer não aponta diretamente pra barata, que acreditamos ter sido a meta da metamorfose de Gregor Samsa.

Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo de qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos. Franz Kafka - A Metamorfose

No jardim da Oma

Isso era uma cebola que germinou dentro da geladeira. Foi enterrada e deu flor, que tem um leve cheiro de cebola.
Na minha terra, limão tem essa cor e é azedo pra chuchu.
Eicheln que o meu tio plantou umas duas décadas atrás.
Adoro supermacro!
Gramado, cidade das hortênsias.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Presente de Natal

Meu grande irmão teve uma idéia genial: conversar com a Oma por Skype. Philip foi na casa dos pais da Julia e se conectou ao Skype da Sophia (irmã da Julia) e me escreveu. Enquanto eu digitava a resposta, a minha mãe telefonou e o Philip atendeu a minha chamada no Skype. Pronto. Eu estava em Gramado, na casa da minha vó, falando com os meus pais no telefone e com o meu irmão no Skype. Olha só que avanço tecnológico propiciando a união familiar!!!
Achei muito legal ver uma mulher de 89 anos de idade conversando com o neto via computador. Belo presente de Natal.

Vida urbana

Toda vez que viajo me dou conta de como levo uma vida urbana. Quando foi a última vez que bebi água da bica? Que escalei uma montanha? Que comi fruta do jardim de outra pessoa? Que vi vagalume ou estrela cadente? Que pisei com os pés descalços na grama? Que adormeci ao som dos sapos?

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

70 km pra comemorar


Quis comemorar o meu título de doutora com uma grande volta de bicicleta. Caldo, esse moço sorridente, quis fazer uma cicloviagem, pra ver como é que é. Sugeri o trajeto casa - Jaguariúna - Pedreira - Arcadas - Amparo - Morungaba - D. Pedro - casa. Pelos meus cálculos, daria 120km.
As subidas no trajeto não são suaves (subíamos a 9km por hora e descíamos a 50), não tem acostamento em boa parte do percurso, tem muito caminhão, um sol de chuva e uma secura danada na boca. Caldo é esportista e me acompanhou bem (média de 20km por hora), mas em Amparo (meio do caminho) mudamos os nossos planos: fomos do restaurante pra rodoviária.
O moço do guichê não quis nos vender passagem pra Campinas quando viu que estávamos de bicicleta. Disse que o ônibus vem de Ouro Fino e pode não haver espaço pras bicicletas no bagageiro. Duas caixas enormes foram desembarcadas e deram lugar às nossas magrelas. Da rodoviária de Campinas foram mais 10km, pedalados com muita força no pé e os olhos agoniados voltados pras nuvens escuras armando a chuva no céu.

Defesa

A defesa foi longa, a tese foi bastante elogiada, mas eu queria mostrar o evento através das fotos que o Ruy fez. Agradeço aqui pela força e pelo apoio de todo mundo que esteve lá e também de quem não pôde vir.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Bicicleta na nova rodoviária de Campinas

Quando fui à rodoviária pra comprar passagem, prendi a minha bicicleta na grade de frente pra entrada da rodoviária. Ninguém reclamou. Também, não tem lugar próprio pra bicicleta (paraciclo ou bicicletário), não tem por que reclamar mesmo.

Quando fui com a bicicleta pra Balneário Camboriú, fiquei muito preocupada com a bicicleta na nova rodoviária de Campinas. Tem que subir escada, depois descer escada. E pra descer pras plataformas de embarque, tem que passar por uma catraca onde tem alguém controlando a passagem (pra que não haja pessoas que não vão embarcar na plataforma). E tem gente uniformizada com walkie-talkie pra todo lado. Como vai ser, passar por tudo isso com a bicicleta?

Tranqüilo. A moça que aperta o botão do elevador sorriu pra mim, as pessoas lá em cima ficaram curiosas em relação à minha bicicleta, (talvez tenham feito planos de viajar com a bicicleta deles pralgum lugar), a moça na catraca abriu uma porta, como se todo dia houvesse pelo menos 20 ciclistas passando por ali com seus veículos.

Pedalei os 9,8km (agora que tenho ciclocomputador, minha vida ficou mais divertida) até a rodoviária (em 32 minutos) e prendi a bicicleta na grade, de frente pra entrada. Depois de guardar a chave dos cadeados da Amarilda, um moço veio sorrindo, walkie-talkie na mão, dizendo que não podia botar a bicicleta ali. Avisei que só ia comprar passagem e já voltava. Se fosse por mim, não tinha problema, eu até olhava a sua bicicleta pra você, bonita, essa bicicleta! mas os hóme num dêxa, vai tudo perguntá de quem que é a bicicleta, e aí já viu. Mentalmente, construí uma cena paralela: Moça, isso aqui é uma igreja, não pode entrar de bicicleta. Tá certo que você é a noiva, e por mim tudo bem, eu até casava com você, mas o noivo não vai gostar de ver você assim, de bicicleta. Olhei em volta, procurando um poste mais distante da rodoviária, e ele propôs a solução: leva ela com você.

Subi de elevador com a bicicleta, atraí olhares curiosos, provoquei diálogos de passageiros sobre bicicleta, peguei olhares atentos na Amarilda. Espero ter incentivado um ou dois a pelo menos pensar em levar a bicicleta nas suas viagens.

Borboletário


Além de cultivar ervas, estamos encorajando a proliferação de borboletas. Sim, o maracujá azedo que nunca deu flor é o combustível preferido para um certo tipo de lagartas que depois dá nessas borboletas aí, que ficam borboleteando pelo nosso quintal, alegrando a minha vida.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Jimmy


Driving along on this highway
All these cars and upon the sidewalk
People in every direction
No words exchanged,
no time to exchange and when
All the little ants are marching
Red and black antennae waving
They all do it the same
They all do it the same way
Dave Matthews Band - Ants marching

Lewis McFly

Não, ele não podia descansar. 
Não podia se dar o luxo de sentar, sentir o coração desacelerando, as mãos recuperando sensibilidade, o peito parando de pulsar, a cabeça perder aquele calor ensurdecedor. 
Tinha que continuar alerta: a ameaça podia vir de qualquer lado. 
Que horas são? 
Sentou-se no canto frio e escuro, ali mesmo, no chão. 
Está tudo grudando. 
Isso tudo é suor? 
Estava tudo errado. 
As pernas doem. 
Não entende por que estavam caçando um cara simples e sem-graça como ele, um engenheiro que bate cartão e nas horas vagas gosta de escrever contos. 
O que tem aqui, que dói tanto? 
O pulmão vem até aqui? 
Não possuía nada, não planejava nada extraordinário, não achava que tinha talentos. 
O som de passos pesados o arrastou de volta para a poça de medo em que estava sentado no canto escuro e frio. 
Seu cérebro comandou os músculos do corpo mais rápido do que seria capaz de acompanhar, nem chegou a endireitar a coluna e já estava correndo de novo.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Gregor Samsa

Als Gregor Samsa eines Morgens aus unruhigen Träumen erwachte, fand er sich in seinem Bett zu einem ungeheueren Ungeziefer verwandelt. Franz Kafka, Die Verwandlung.

Na fila do Correio

Ultimamente tenho passado muito tempo em filas de Correio. Neste tempo ocioso, observei algumas coisas: o esforço para manter a crença das crianças no Papai Noel, um diálogo mínimo e um monólogo despropositado.

Reparei que existe, nas agências do Correio, uma caixa cheia de cartinhas ao Papai Noel. Crianças, não sei de onde, escreveram seus desejos em cartas endereçadas ao bom velhinho. Adultos parados nas filas do Correio por longos minutos substituem seu tédio por um divertido interesse por essas cartinhas escritas em letra redondinha, retiram uma qualquer da caixa e de repente são compelidos a realizar o desejo da criança. Outros adultos chegam com caixas grandes e empacotadas em papel presente, que são depositadas no interior da agência. E assim as criancinhas continuam acreditando em Papai Noel, sem saber por que comemoramos o Natal.

* * *

Vamos ao diálogo mínimo e à importância do contexto para a criação de coerência:

- A Paraty?
- Opa, sou eu.
- Vai lá, meu!

Agora mais uma vez, com contexto:

Um cara foi atendido e deixou o balcão. Saiu da agência e voltou. Voltado para a fila de esperantes, perguntou em alto e bom som:
- A Paraty?
O cara que seria o próximo a ser atendido se contraiu num susto:
- Opa, sou eu.
Da porta da agência, o homem observou a hesitação do outro e mandou a ordem:
- Vai lá, meu!
O cara da ponta da fila trocou um olhar significativo com o seu seguinte, girou nos calcanhares e saiu. Ouvi barulho de motor, carro manobrando, porta batendo e o primeiro da fila voltou ao seu lugar, lá na frente.

Reparem que não há cortesia entre os motoristas. O cara que queria sair e estava com a passagem obstruída pela Paraty se sentiu lesado e fez questão de não ser simpático, restringindo-se ao mínimo necessário (a Paraty?). O motorista da Paraty identificou-se a si mesmo, por uma relação de metonímia, com o carro que dirige (sou eu). Isso também acontece quando motoristas relatam acidentes (aí o caminhão bateu na minha lateral = na lateral do carro!). Por fim, como um pai impaciente, o cara na porta deu direções ao motorista da Paraty. Não deu instruções (tira o teu carro da frente do meu, que eu quero sair), não fez um pedido (será que você poderia tirar o seu carro da frente do meu?), nem foi gentil.

* * *

Eu estava preenchendo um formulário que vai preso ao pacote que estava prestes a enviar, quando o atendente começou a conversar com um cliente parado na fila sobre futebol. Enquanto me atendia, o homem não conseguia deixar de brincar com o outro na fila. De repente, estava me explicando, em tom confidencial, por que qualquer hora passaria no bar lá pra acertar aquele esquema:
- A gente fez uma aposta. E eu perdi. Agora eu tenho que pagar o cara, mas eu tô enrolando ele. Mas uma hora eu pago ele.

Eu não tinha nada a ver com a estória, agora sei que o atendente do Correio é ruim de palpite, mau perdedor e mau pagador de dívidas. Quê que eu faço com essa informação?

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Que puxa!

Abriram inscrições pra concurso na Unipampa, unidade de Bagé, lá no fim do Brasil. A vaga pra profesor de Língua Portuguesa e Lingüística era de professor assistente (pré-requisito mínimo: mestrado), não adjunto (pré-requisito mínimo: doutorado). Aceitavam inscrições via Sedex e queriam ver um Memorial. Achei o nome da universidade engraçado e fui subitamente atraída pela idéia de morar numa cidade com densidade populacional de 29 habitantes por quilômetro quadrado.

Mesmo sem saber ao certo o que é um memorial, sentei e escrevi 15 páginas de memorial, inclusive com proposta concreta de trabalho na Unipampa (vixe!). Viu? Deu. Tentei me inscrever pela internet, não deu. Escrevi pro cara da Unipampa, ele mandou eu me inscrever de novo e pronto, deu. Fui no banco, pagar a taxa de inscrição, mas nenhum caixa eletrônico da minha agência quis fazer o pagamento de R$ 110,00. Fui noutra agência e pedi pra atendente de caixa fazer o pagamento. Deu. Fui no correio, postar o currículo, comprovante de pagamento da taxa, xerox do RG e uma declaração de que eu tinha lido o edital direitinho e entendido tudo, assinada por mim. Fila de gente querendo mandar presentes de Natal pelo correio. Chegou na minha vez e o atendente disse que não tinha mais envelopes de Sedex. Eu também não tinha envelope, então tive que adiar o envio da documentação. No dia seguinte comprei envelope na papelaria e fui no correio, mandar um sedex pra Bagé. Deu. Cheguei em casa e escrevi praquele cara da Unipampa, perguntando quando seriam as provas (escrita, didática, argüição e defesa do memorial). Ele me respondeu, com toda a confiança do mundo que as provas acontecerão entre os dias 15 e 19 de dezembro. Fodeu. Rezei pra dar zica e adiarem as provas pra janeiro. Eu defendo dia 18 de dezembro e não tem jeito de começar a fazer prova dia 15 achando que estarei em Campinas dia 18. E outra: em janeiro eu estaria em Gramado ou Gravatal, seria um pulo até Bagé.

Recebi hoje notícia de que a minha inscrição foi homologada (aceita) e que as provas serão mesmo entre os dias 15 e 19 de dezembro. Oh, vida... Torci pra ser a única inscrita num concurso que vai acontecer no fim do Brasil, numa cidade de aproximadamente 100 mil habitantes. Se fosse, talvez conseguisse negociar a data das provas. Fui conferir a lista de candidatos homologados e quase caí da cadeira: 51 candidatos para uma vaga.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Self made Jardineira


Muito bem, você quer plantar umas ervas pra chá e tempero em casa e não quer gastar dinheiro em jardineiras. Nem nós. Passamos a manhã produzindo duas jardineiras e meia. Caixas de feira são a base. Mas como os vãos entre uma tabuinha e outra são grandes, completamos a caixa com mais tábuas.
Terra foi peneiradada e medida. Sim, Régis cortou o cabelo.Usamos cinco medidas de terra pra uma de cal, uma de areia, uma de cimento, água conforme a necessidade e fibra de bambu pra dar a liga depois na jardineira.
A cal é cruel: tranca a garganta.
Cal com terra: musculação.
Cal com terra e água: um nível mais puxado de musculação.
Massa de cal com terra, água e fibra: só para quem tem fibra.
"Meter a mão na massa" seria "bobinho", porque a cal não faz bem pra pele. Como não temos mais as luvas que a Renata usava pra lavar louça, usamos sacolas de supermercado mesmo.
Descobri que se não amarrava a sacola no punho, eu sujava menos a mão, porque eu não rasgava o plástico fino da sacola. Cada qual com os seus caracol.
Revestimos a estrutura de madeira das caixas de feira reforçadas com a mistura de terra que fizemos.
Voilá! Ela vai secar por umas duas semanas, rachar algumas vezes e ser remendada por algum de nós e então nos servirá de jardineira. Insisto em lembrar que Régis, Renato e Andréia trabalham com isso e podem ser contactados através do Equilibrius (http://www.equilibrius.com.br/).

Telhado pra composteira

Junior e Ruy tinham feito a estrutura de bambu. Serraram, cortaram, furaram, praguejaram, arroxaram arames, testaram a armação e se deram por satisfeitos. Fui chamada pra substituir o Ruy e puxar o plástico sobre a estrutura. Cortamos dois sacos de lixo ao meio e grampeamos o plástico no bambu.Agora pode chover à vontade, que a gente não vai mais sair correndo pra tirar a composteira da chuva.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Achei

Tá no www.bikeseadventures.com.br

Intensificadores preposicionados

Tava frio (adjetivo)

à beça
pra burro
pra caramba
pra caralho
pra danar
pra dedéu
de verdade

Fazia um calor (substantivo não-quantificável)

dos infernos
do caralho
do caramba
de rachar o côco
sem noção

Aqui tem tampinhas de garrafa (subst. quant.)

a rodo
a dar com pau
à beça
de monte
pra chuchu
pra caralho

Nadei (verbo de ação)

à beça
até não mais poder
de monte
pra caralho
pra caramba
pra chuchu

Detesto cachorros (verbo psicológico)

à beça
de paixão
com todo o meu ser

sábado, 6 de dezembro de 2008

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Bicicletada interplanetária

Dia 6 de dezembro uma galera vai descer a Imigrantes até Santos. Mais informações aqui.

Formação de palavras

Estudar morfologia é muito divertido. Existem diversos processos de formação de palavras (derivação, composição, onomatopéia, reduplicação, acrônimo), cada qual uma aventura particular. Os que eu acho mais empolgantes são as composições por cruzamento de lexemas e os acrônimos (pelo fato de muitas vezes não sabermos que se trata de siglas):

construções lexicais

malufioso (Maluf + mafioso = abra o olho)
imprevilho (imprevisto + empecilho = danou-se)
democradura (democracia + ditadura = faça alguma coisa)
namorido (namorado + marido = recém-casado)
chafé (chá + café = café fraco)
optatória (optativa + obrigatória = Tupi Antigo)
bótimo (bom + ótimo = supimpa)
familionário (família + milionário = família grande)

acrônimos

transistor (transfer resistor)
laser (light amplification by stimulated emission of radiation)
radar (radio detecting and ranging)
modem (modulator/demodulator)
vip (very important person)

No Encontro de Cicloturismo em Camboriú tinha um moço que atendia pelo seu acrônimo, FES (Fábio Eduardo Silva, se não me engano). Na boca da Léia, carioca da gema, /fêz/ soava chiado, como /fêich/ (não consegui inserir aqui o símbolo do alfabeto fonético). FES reclamou: meu nome não é com 'x'. É Silva, não Xilva!!!

Diversão na biblioteca

Retirei o 'Morfologia Portuguesa', do Monteiro, da estante, abri o manual, sentei no chão, dei uma folheada e dei altas gargalhadas. Sei que a biblioteca é lugar de silêncio, mas não consegui me conter:

"FORMAÇÃO DE ANTROPÔNIMOS

Como existe liberdade para atribuição de nomes aos filhos, é esperável que se cometam atentados à dignidade da pessoa humana. A propósito, Afrânio Peixoto (ap. Martins, 1991) apresenta uma lista de nomes estrambóticos encontrados no Diário Oficial, dos quais destacamos os seguintes:

(...) Céu Azul do Céu Potente, Esparadrapo Clemente de Sá, (...) Graciosa Rodela de Alho, Himeneu Casamentício das Dores Conjugais, (...) José Casou de Calças Curtas, (...) Rolando de Alto Abaixo da Estrada, (...)." (p. 206)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Samarcanda

Amin Maalouf escreveu um livro chamado Samarcanda sobre a trajetória de um livro chamado Manuscrito. Já de cara somos informados que o livro, exemplar original dos Rubáiyát de Omar Khayyam, afundou no Atlântico, dentro do Titanic.

O escritor conta a história de Omar Khayyam, poeta, filósofo e astrônomo persa, que no século XI recebe de presente (não lembro se do vizir, sultão, príncipe, cádi ou xá) um livro com páginas em branco. Khayyam passa a escrever poemas (rubay) no livro, exaltando o pensamento livre, o amor, o vinho e a vida. Envolve-se em questões políticas, tendo que fugir da Ordem dos Assassinos, constituída por seu velho amigo Hassan, que quer tomar o poder de Nizam-el-Molk, o xá protetor de Khayyam. Envolve-se com Djahane, poetisa e bela amante da corte.

Depois da morte de Omar Khayyam, o livro continua sendo elaborado por desenhistas e cronistas. O livro, iniciado em Samarcanda, viaja por toda a Pérsia. Quando não há mais espaços em branco nas páginas do livro, as invasões mongóis provocam o desaparecimento do Manuscrito. Durante séculos o tesouro fica eclipsado. Da memória coletiva surgem referências a Omar Khayyam, seus poemas são reinventados, editados e espalhados pela Pérsia.

O narrador, Benjamin Omar Lesage, interessa-se, no século XX, pelo Manuscrito, porque a história do encontro dos seus pais está marcada pelos versos de Khayyam. Em sua primeira visita à Pérsia, ouve dizer que o Manuscrito existe. O resto de sua vida se transforma numa grande obsessão para encontrar o Manuscrito e ler, no original, os versos do poeta e admirar as iluminuras e segurar nas mãos tesouro tão precioso. Envolve-se na política do império, que está diante da decisão entre adotar a Constituição ou continuar sendo regido por figuras religiosas. Envolve-se com a neta do xá, a princesa Chirine, que tem a posse do Manuscrito.

Separei duas passagens:

O tempo tem duas faces, diz Khayyam consigo mesmo, tem duas dimensões; o comprimento segue o ritmo do sol, a densidade segue o ritmo das paixões. (p. 39)

Os viajantes são realmente muito apressados em nossos dias; apressados em chegar; chegar a todo preço; mas não é apenas no final do caminho que se chega. A cada etapa, chega-se em algum lugar; a cada passo pode-se descobrir uma face oculta de nosso planeta; basta olhar, desejar,
crer, amar. (p. 235)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Misturança

Manga cortada numa tigela com iogurte faz parte do café da manhã.
Morango com suco (de caixinha) de uva tem gosto de framboesa.
Abacaxi com suco (de caixinha) de uva vira abacaxuva.
Fígado acebolado vem acompanhado de maçã refogada.
Salada de camarão vem com pedaços de abacaxi.
Pêra cozida em suco de uva esprimida e coada fica exótico.
Molho de milho é feito com suco da laranja que sobrou da salada.
Frango refogado em tiras de damasco seco tem um gosto orientalista.
Abacate amassado e salgado é servido com pão pra janta.