terça-feira, 12 de junho de 2012

Parte 2: a televisão


Hans Weingartner lançou, em 2004, o famoso Die fetten Jahre sind vorbei (Edukators). Em 2007, deu sequência ao projeto de mostrar na tela revoluções provocadas pelos jovens, com o Free Rainer: dein Fernseher lügt (Reclaim your brain). Os paralelos entre os dois filmes são evidentes: no fim de Die fetten Jahre sind vorbei, os três vão a uma ilha onde estão instaladas antenas de TV para desligá-las por alguns minutos. Se no filme de 2004 a intenção era interromper o sistema por um breve momento e assim chocar e assustar os que confiam na perenidade, no filme de 2007 os jovens partem para a ação: manipulam os índices de audiência televisiva e assim forçam a mudança da programação da TV alemã.

Em Die fetten Jahre sind vorbei, o cara que foi sequestrado pelos garotos promete não denunciá-los, mas acaba invadindo o lugar onde eles moram com a cavalaria montada. Em Free Rainer, o antigo empregador do nosso heroi igualmente tenta surpreender os revolucionários com a polícia armada. Em ambos os filmes, os jovens já estão longe e os conservadores ficam com cara de tacho.

Nos dois filmes, os personagens principais (o trio de Die fetten Jahre sind vorbei e Rainer, Philip, Pegah mais os "funcionários" que "contratam" em Free Rainer) são socialmente desajustados. Por terem ideais, por lutarem contra a desigualdade social, por desacreditarem na força do capital, Jan Jule e Peter vivem à margem da sociedade de consumo. Rainer, ao contrário, é um produtor economicamente bem-sucedido de um canal de TV que basicamente só passa novelas, reality shows e talk shows. As drogas, a mulher linda e as ideias estúpidas de programas de sucesso não saciam. Ele se pergunta como pode o público engolir todo aquele besteirol. Quando bola um programa que ele acha interessante, os índices de audiência do canal caem. Rainer passa a se interessar pelo elemento que controla os índices de audiência. Já sua antagonista, Pegah, foi criada pelo avô, que cometeu suicídio após ter sido difamado por um programa de TV elaborado por Rainer. Abandonada à própria sorte, decide tirar a vida de Rainer. Outro tipo de desajustado é Philip, o típico nerd que curte literatura e informática e parece sofrer de fobia social. Trabalha como segurança no IMA (Institut für MedienAnalyse), que Rainer vai invadir. Com a ajuda de Philip, Rainer e Pegah descobrem que a audiência é calculada por amostragem: cada clique de uma certa pessoa responde por 15 mil telespectadores. Os cliques dos escolhidos são registrados por uma caixa especial. O plano é conseguir os endereços dessas pessoas-controle e trocar as caixas. Para isso é preciso uma equipe. Os "funcionários contratados" são os que se demoram na fila dos desempregados.

O último elo de ligação entre os dois filmes de Weingartner é uma referência direta e explícita no Free Rainer ao Die fetten Jahre sind vorbei: aparece, na tela da TV, a cena da garotinha que encontra a carta deixada pelos "edukators" na pilha de móveis no meio da sala, em que se lê: "Die fetten Jahre sind vorbei".

Do pouco contato que eu tenho com o cinema alemão, diria que os dois melhores atores são Moritz Bleitreu (Lola rennt, Das Experiment, Soul Kitchen, Elementarteilchen, Solino, The Keeper: The Legend of Omar Khayyam) e Daniel Brühl (Goodbye Lenin, Die fetten Jahre sind vorbei, Salvador (Puig Antich), Ein Freund von mir, Krabat, A Condessa, Bastardos inglórios, Der ganz grosse Traum). Sempre um prazer ver um desses dois fazendo a revolução. O que me espanta, no entanto, é como esse segundo filme de Weingartner (de 2007) não atingiu a fama que o de 2004 alcançou.

Percebo algumas inconsistências no Free Rainer:
(i) Nas primeiras cenas, Rainer se entope de álcool e cocaína. No meio do filme, nenhuma alusão às crises de abstinência. Mais pro final, uma cena em que ele quer comemorar uma pequena vitória com um pouco de pó branco, mas joga tudo na pia. Se largar as drogas fosse tão fácil, não haveria tanta gente sofrendo.
(ii) Pegah espreita Rainer com uma arma na mão. Não tem coragem, sai correndo. Em seguida, ela acelera o carro pra cima do carro dele e os dois vão parar no hospital. No fim do filme, são um casal. Ah, o amor e o ódio...
(iii) Philip corre atrás do sujeito que sai correndo da empresa que ele deve guardar. Rainer tinha roubado uma daquelas caixas, mas promete explicar tudo. No fundo da cena, os colegas de Philip chamam-no pelo primeiro nome (na Alemanha, o código de postura e bons costumes não permite isso).
(iv) Philip se deixa convencer por Pegah quando ela lhe diz que a situação é como em Admirável Mundo Novo. Ele testa a garota, perguntando quando o livro foi publicado pela primeira vez. Ah, se pessoas versadas em literatura fossem incondicionalmente confiáveis...
(v) Philip entra no carro, os colegas no encalço. Pra onde ele, praticamente na condição de sequestrado consentido, leva os dois desconhecidos que anunciaram uma explicação, mas até o momento só demonstraram conhecimentos literários? Pra casa dele. Justo o cara que sofre de fobia social!
(vi) Já na segunda semana de troca de caixas, acaba o dinheiro de Rainer, porque um dos "funcionários" colidiu, bêbado, contra uma parada de ônibus, foi preso e resgatado mediante fiança. Quando Rainer paga os 50 mil euros para soltar o Bernd, todos os "funcionários" decidem trabalhar de graça. E Bernd descobriu que não era preciso entrar nas casas e trocar as caixas, bastava manipular a caixa de telefone que fica na rua. Não fica claro, no filme, o que Rainer fez com as mil caixas que ele tinha comprado e que agora são obsoletas, e de onde saiu o dinheiro para pagar os custos (gasolina, estadia, comida) de se manipular caixas de telefone espalhadas no país inteiro.

Fora essas pequenas distorções, gostei bastante do filme. Gostei da questão do círculo vicioso que se instala em relação à TV: a qualidade dos programas é determinada pela audiência. Só que a audiência não parece ser calculada de maneira justa: uma minoria decide o que a totalidade vai ver na TV.

Ao manipular os índices de audiência, Rainer e seus companheiros (porque na revolução, todo mundo que milita do mesmo lado é companheiro) tiram pontos de programas que eles consideram trash e dão pontos para programas que eles consideram edificantes (documentários, jornais, filmes cult). Como a mídia vive da audiência, todos os canais passam a investir em programas que dão muitos pontos. Quando a TV alemã passa quase só conteúdos intelectualizados, acontecem duas coisas: metade das pessoas elogia a programação da TV e a outra metade deixa de ver TV. Ou seja, quando a programação finalmente melhora, as pessoas preferem passear no parque, ler livros, escutar música, brincar com os filhos. Daí eu me pergunto qual é o papel social da televisão: entreter? informar? A resposta do filme é pacificar, anestesiar, emburrecer. Só por isso, já ganhou pontos comigo, que parei de assistir TV há 10 anos.

3 comentários:

Karin und Walter disse...

HalloLou,
dein Eintrag fängt mit "Parte 2..." an. Wo ist "Parte 1?"
Ich fand es sehr interessant und spannend zu lesen, was du über den Film schreibst, von dem ich noch nie etwas gehört hatte.
Interessant auch deshalb, weil ich zu etwas anderen Schlüssen gekommen bin (ohne den Film gesehen zu haben, wie gesagt).
Aber wenn der Film so aufhört, wie du ihn beschreibst, dann liefert er für die, die das Fernsehen betreiben und für die, die es gern weiterhin so haben wollen kein wünschenswertes Resultat: Die "eine Hälfte der Menschheit" hätte dann ein gutes Fernsehprogramm und "die andere Häfte der Menschheit" müsste sich nach anderen Unterhaltungsmedien umschauen. (Sie würden kein Buch lesen und auch nicht mit ihren Kindern spielen, denn sie wollen unterhalten werden, passiv bleiben). Das Fernsehprogramm ist nicht deshalb so schlecht, weil es die Menschen verdummen will, sondern weil man damit viel Geld verdienen will und das kann man nur, wenn man etwas bringt, was der Mehrheit (nicht der Hälfte) gefällt.
In Deutschland gibt es das öffentlich rechtliche Fernsehen - das hat einen Bildungsauftrag neben der Unterhaltung und wird von allen FernsehbesitzerInnen bezahlt. Deswegen muss es auch allen zu gefallen versuchen. Und es gibt die privaten Sender. Die haben keine anderen Geldquellen, als die Werbung und die Mehrheit der Zuschauer.
Da man aber in Deutschland sehr gut mit den ö.r. Sendern auskommt, brauchen die anspruchsvolleren Zuschauer die privaten Sender ja nicht anzuschauen. Deswegen macht der Film mit seinem Revolutionsvorschlag nicht viel Sinn. Jedenfalls nicht in Deutschland.
Liebe Grüße
von Ma

iglou disse...

Ma,

talvez eu não tenha deixado suficientemente claro que eu considero que o "Free Rainer" é uma espécie de continuação do "Die fetten Jahre sind vorbei", por isso o título "Parte 2".
Ja, ich gebe dir recht, dass die Leute, die in den Park gehen und lesen anstatt fern zu sehen, nicht die Leute sind, die hauptsächlich novelas, talk shows und reality shows sehen.
Sind ö. r. Sender ARD und ZDF? Hat irgend jemand nur ARD und ZDF?

Karin und Walter disse...

Lou, deixou claro, sim. Eu é que não me liguei.
Ja, aber nicht nur. Alle sogenannten dritten Programme sind öffentl. rechtlich: NDR, WDR, HR, MDR, BR, SWR
(Norddeutscher Rundfunk, Westdeutscher..., Hessischer...Mitteldeutscher..., Bayerischer..., Südwestdeutscher...)
Dazu auch noch Arte und 3Sat (Österreichischer Sender)Außerdem gibt es neuerdings auch noch viele weitere "Ableger" von ARD und ZDF.
Heutzutage hat glaube ich keiner mehr nur die beiden ersten. Aber das Fernsehen ist ja eine freiwillige Angelegenheit. Man schaut sich an, was man möchte und solange man möchte.