segunda-feira, 25 de junho de 2012

O fio fantástico

Segundo a mitologia grega, Teseu tinha sido oferecido como sacrifício ao Minotauro e lançado ao labirinto complexo em que habitava o monstro. Ariadne deu-lhe uma das pontas de um fio, para que seu amado pudesse achar o caminho de volta. E assim o fio de Ariadne entrou pras estórias que contamos uns aos outros.

O mestre dos labirintos é Jorge Luis Borges. Num conto curto, chamado Os dois reis e os dois labirintos, um rei da Babilônia mandou construir um labirinto fabuloso, que maravilhava e confundia qualquer um que se aventurasse a entrar naquela paisagem de portas, escadas e muros. Um rei árabe visitante foi convidado a aceitar o desafio de encontrar a saída daquele labirinto complexo. Vagou, desorientado, o dia inteiro por entre suas paredes. Quando finalmente foi resgatado, disse ao seu anfitrião que também tinha um labirinto em suas terras. O rei árabe regressou ao lar, juntou seus exércitos, devastou o reino da Babliônia, aprisionou o rei e o vendou. Cavalgaram por três dias no deserto e então o rei árabe o soltou. Disse ao outro que aquele deserto era o seu labirinto.

Se Ariadne quisesse sair deste labirinto, não teria onde prender o seu fio.

Outro autor fantástico é José Saramago. Não li o conto Embargo, mas vi o filme baseado no conto. Numa época de embargo petrolífero, a gasolina passa a valer mais que ouro. Os postos de gasolina não a vendem mais, apenas mãos sujas manipulam garrafões plásticos cheios do combustível no mercado negro. Nuno está a caminho de uma reunião de negócios que promete mudar sua vida, quando subitamente perde o controle sobre a direção do carro. Tenta sair do carro parado, mas não consegue. Parece haver uma parede invisível que o impede de sair do veículo. Enclausurado, desespera-se ao ver que todas as suas tentativas de interação falham. Seu Alvez lhe vende uma peça de máquina por 3 litros de gasolina, a mulher não entende por que ele dorme na garagem, o caixa eletrônico engole seu cartão, os homens de negócios se escandalizam com uma reunião no estacionamento.

Se Ariadne prendesse o fio ao volante e jogasse o novelo em todas as direções, ele voltaria como um bumerangue - e faria o desenho de uma Margarida (por coincidência, o nome da esposa de Nuno).

A Julio Cortázar tomo emprestados dois tipos de personagens: cronópios e famas. Cronópios contam com o acaso, não se constrangem, explicam como se complicam e fazem festa. Famas premeditam, desenham, calculam, antecipam e preparam. Pois bem, não se pode dizer que a cronópio que me trazia para casa sofra de absoluta falta de orientação espacial, mas ela se perdeu bonito num bairro que frequenta há mais de ano. Quando, mais tarde, a fama escolheu um caminho pouco ortodoxo, a cronópio reclamou durante o caminho inteiro, que - para infelicidade dos passageiros - se prolongou devido ao imprevisto de obras na pista, desvios, chuva e lama.

Se Ariadne tentasse traçar com um fio vermelho os caminhos que cronópios e famas fizeram na cidade, não passaria no exame psicotécnico.

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