quinta-feira, 14 de junho de 2012

Outra ida a campo


Ontem teve outra aula de campo da disciplina de Fitogeografia. Havia bem menos alunos dessa vez, o que me espantou, já que as aulas de campo me soam mil vezes mais atraentes que as aulas em sala de aula. Na aula de campo passada, tínhamos visto manchas de cerrado na floresta amazônica. Dessa vez vimos campinas, campinaranas (falsas campinas), floresta de transição e floresta.
Achei a flor parecida com uma orquídea
A Ruisterana nos acompanhou em todos os biomas, sempre com portes diferentes: alta na beira de estrada e na floresta, quase um arbusto na campina.
O caule estava seco, as folhas caídas. Nas pontas, apenas algumas flores.
Nosso caminho nos levou em direção a Guajará-Mirim, sempre margeando o Rio Madeira. Passamos, assim, pelas duas usinas hidrelétricas no Rio Madeira. Isso significa, também, que praticamente toda a paisagem ao longo da estrada está condenada a ser alagada. Havia obras em todo o trecho, subindo o nível da estrada.
Trilho da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré
As campinas são formadas em antigos leitos de rio. O curso do Rio Madeira tem mudado ao longo dos anos, até encostar na serra. Por onde passou, deixou manchas de campinas e campinaranas.
Bicho geográfico?
A floresta amazônica, então, não é uma floresta homogênea, mas um mosaico de biomas, em que ocorrem, dentre outras formações vegetacionais, cerrados, campinas, campinaranas, mata aberta e mata fechada.
Inseto zoiudo
Tanto o solo do cerrado quanto o da campina são arenosos, mas somente o cerrado tem solo argiloso, o que impede a drenagem da água. Com a água empoçada, há baixos teores de oxigênio no solo. Na campina, a drenagem da água é alta, porque o solo é composto por areia (branca), sem argila. A vegetação da campina é mais densa que a do cerrado, apesar dos indivíduos serem recorrentes nos dois biomas.

Tronco retorcido

Maracujá nativo: Passiflora Araujoi
Eu vi a flor vermelha de relance pela janela do ônibus. Quando Narcísio pediu pro motorista parar, desci junto pra ver aquela flor grande. Era uma passiflora linda, com frutos que pareciam mini-melancias.

Sol que morde a cara da gente, ar condicionado no ônibus, a umidade da mata e a falta de movimento ao ouvir explicações foram um pouco torturantes, mas as piadas, as risadas e a maravilha que é a natureza compensaram o desconforto causado pelo calor.
Jardim de formigas
A diversidade de cada um desses biomas é relativamente baixa, mas sempre aparecem pequenos tesouros, como por exemplo esse jardim de formigas, característico das campinas. As formigas se instalaram num tronco arbóreo e outras plantas (nesse caso, uma suculenta e uma bromélia) se instalaram em cima do formigueiro para formar essa simbiose.
Tirei foto desses coquinhos de palmeira espinhenta e não chamei a atenção de ninguém para a existência da planta. Quando Narcísio viu as minhas fotos, brigou comigo, porque ele queria ter coletado esse exemplar. 
Mata de transição
Muitas palmeiras e pseudo-bananeiras caracterizam a mata de transição. Sabemos que estamos na floresta e não mais na campina ou campinarana ao observarmos o solo, que é fofo. As folhas em decomposição formam um tapete orgânico.
Todos nós: bem menos que da outra vez
Ironicamente, vejo pela janela de casa que estão recapeando o asfalto (recapeando do lado de lá, asfaltando do lado de cá o que a chuva lavou) da rua no momento em que escrevo sobre o mosaico amazônico e mostro imagens de estrada de terra.
Coleta
Quando estávamos prestes a entrar numa campinarana, Narcísio avistou a flor de uma hemiepífita (as folhas se instalam no tronco hospedeiro, as raízes estão no solo) lá no alto (que nem aparece na foto). Ninguém se habilitou a subir na árvore e trazer a flor e folha, então Narcísio subiu. Com o podão (espécie de tesoura de poda na ponta da haste que Lafayette está passando pro Narcísio), conseguiu coletar o que parece ser uma nova espécie.

P.S.: Obrigada pelas correções e especificações, Narcísio!

P.S.2: No caminho, passamos por uma cidade-fantasma: Mutum-Paraná. A não ser pelos caminhos e os pés de jambo, manga, banana e bambu, sumiu tudo. Não há sinais, fora esses, de que ali, na beira da BR, existiu uma cidade. Muito louco, o poder das usinas e do progresso em nome do qual elas vieram...

Um comentário:

Ulla disse...

Spannend und wunderschön. Vielen Dank für den ausführlichen Bericht.
Lb. Grüsse, Ulla