sexta-feira, 28 de setembro de 2007

O botão que desliga

A vida em república, além de todas as coisas boas que oferece, é uma constante prova de tolerância. Não é só o espaço físico que é dividido, são também as coisas, os tempos e os hábitos. Dividir espaço pesa menos no bolso, certamente, mas tem os seus incovenientes, atrelados aos hábitos da pessoa com que se divide o quarto, por exemplo. Enquanto a colega de quarto dorme, não posso trabalhar no quarto. Dividir o único cabo da Internet é um exercício de paciência de todas as partes envolvidas. Esses são exemplos que exigem a tolerância dos moradores da república. Outros exemplos, como a apropriação indevida de bens privados, mal uso alheio de bens privados (a maioria dos bens privados destinados ao uso público é minha), louça suja se acumulando na pia e a TV ligada sem que haja uma alma viva na sala são coisas que me irritam. Deixo a louça suja na pia e o meu medidor Fuca que virou instrumento de percussão de lado para me concentrar no botão que desliga a TV.

Me irrita profundamente que as pessoas têm um certo receio de apertar o botão que desliga a caixinha que projeta imagens e sons. Por que desligar a TV ao sair da sala é um gesto tão definitivo? Por que o vazio se instancia na casa toda quando a TV é desligada? Esse vazio não é interpretado como alívio, mas como abandono. Sem TV, não há companhia. Por que o ser humano é tão carente assim, que tem medo de desligar a TV?

Por que se deixar embalar no sono pela TV? Eu sempre desligo a luz antes de dormir, e creio que a maioria das pessoas também faz isso. Mas quem deita num dos 4 sofás da sala da Oca não se preocupa em desligar a TV antes de adormecer. E o pior é que a pessoa acorda quando eu vou lá, desligar a caixinha falante. O que a TV está substituindo para essas pessoas que não gostam de desligá-la? A mãe que conta estórias de ninar? A/o amiga/o ou companheira/o que conta o que lhe aconteceu durante o dia? A imaginação do que fazer com seu tempo livre?

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