Hoje algumas cidades tiveram o segundo turno. Em Porto Velho, a disputa era entre o atual prefeito, aliado do agronegócio, e uma evangélica que defende a Escola sem Partido. Como escolher? Um em cada três eleitores não foi votar. Um terço da população (mais precisamente 34,2%) decidiu não contribuir para a decisão de quem seria o/a prefeito/a em Porto Velho. A esse contingente se somam os votos nulos (5,2%) e brancos (2,7%). Total: mais de 40% da população não contribuiu para a escolha entre a direita do empresariado e a direita ideológica. No final das contas, o número de eleitores que não foi votar foi maior que o número de eleitores que reelegeram o prefeito.
domingo, 29 de novembro de 2020
Abstenções, nulos e brancos
A ciência e a verdade
Daniel Everett foi missionário entre os indígenas em Rondônia e Amazonas e fez parte da SIL, que tem como objetivo a tradução da Bíblia para todas as línguas, independentemente da cultura e religião de quem receber "a palavra". No convívio com os pirahã, Everett virou ateu (lembrando: ateu não é a pessoa que não acredita em Deus, mas a pessoa
que acredita que Deus não existe) e passou a criticar sua própria atitude enquanto missionário – mas se calou em relação aos missionários que seguem convertendo indígenas e à SIL que assumiu a tarefa de inventariar e catalogar as línguas do mundo. O doutorado de Everett foi orientado por Charlotte Galves, notória pesquisadora na Unicamp – no quadro teórico do gerativismo. A recursividade – que Everett não encontrou em pirahã – foi o primeiro (e infinito) embate com Chomsky, porque, para Chomsky, a recursividade é constitutiva da linguagem humana. Esta é a segunda conversão de Everett – dessa vez, de cunho teórico.
Não é preciso passar pelas experiências de Everett para refutar o gerativismo. O formalismo de Chomsky não é a única opção em Linguística (há várias formas de funcionalismo, inclusive diferentes escolas funcionalistas atuando no Brasil). Chomsky não equivale a sintaxe à língua, apenas defende sua centralidade numa concepção modular da linguagem humana. São opções teóricas, tais como encontramos na Física, quando Einstein postula, na Teoria Quântica, que o Universo é estático (sendo que o big-bang seria a refutação disso). Teorias não correspondem “à verdade”, mas recortam, descrevem e explicam fenômenos.
Chomsky e Everett seguiram caminhos distintos, por isso suas hipóteses acerca da linguagem são incompatíveis. Everett não é o primeiro nem o último a criticar os pressupostos do gerativismo, nem o único a inaugurar um modelo teórico próprio. O fazer científico é baseado no diálogo – não na aniquilação ou conversão de “inimigos”.
sexta-feira, 27 de novembro de 2020
Laços
Antes, eu não tinha medo de morrer: tinha pena de quem recebesse a notícia da minha morte.
Quando conheci o amor da minha vida, tive medo que ele morresse. A notícia de sua perda seria só a primeira agulhada da dor infinita e da ausência de sentido. Como sobreviver? Minha existência está ligada à dele. Tua palavra é luz para o meu caminho. Com a luz, veio a sombra.
Nasceu a minha filha e entendi que eu não posso morrer enquanto ela depender de mim. Com tanta morte à volta, é difícil ignorar essa sombra que nos acompanha.
domingo, 22 de novembro de 2020
Mercúrio
Estávamos as duas no carro, voltando do parquinho. Agnes tinha ralado o joelho e estava se sentindo miserável: "Está doendo! E a amiga não estava de máscara! Eu vou pegar o vírus!"
Tentei acalmar: "Quando chegar em casa, você vai tomar banho e papai vai passar mertiolate ou outra coisa."
"O que é mertiolate?"
"Aquela coisa que arde, mas limpa o ferimento. Ou ele vai passar mercúrio."
Aí ela desatou a rir. A risada tomou o lugar da dor: "Mercúrio é um PLANETA, mamãe!"
sexta-feira, 20 de novembro de 2020
O passado e o futuro
| Troche: Bagagem. |
Meu passado caminha com o seu futuro. O que me define, além de caminhar ao teu lado, é o meu passado; o que te define, além de caminhar ao meu lado, é a potencialidade do teu futuro. Foi nisso que pensei quando vi essa imagem no livro Bagagem do uruguaio Troche. Pensei na Agnes e em mim, já que na imagem parece haver uma relação do mesmo tipo (os dois caminhantes são bem parecidos, só que de tamanhos diferentes).
Mas dá pra pensar nos assassinatos de George Floyd e João Alberto Silveira Freitas e seus desdobramentos. Ambos foram homens negros na faixa dos 40 anos de idade asfixiados por policiais. Ambos foram mortos na saída de mercados. A morte de ambos gerou protestos no resto do país. Depois da morte de George Floyd, Trump não se reelegeu. No Brasil, 44% das cadeiras de vereadores nas Câmaras Municipais serão ocupadas por negros.
A morte de João Alberto Silveira Freitas é o assunto do dia da Consciência Negra (20 de novembro). Foi espancado e morto por seguranças terceirizados do Carrefour. Segundo matéria da Folha, a empresa de segurança tinha milicianos na formação de seu pessoal e no topo de sua estrutura hierárquica:
O Grupo Vector, responsável pela segurança terceirizada da loja do Carrefour em Porto Alegre, onde João Alberto Silveira Freitas, 40, foi espancado e morto por dois seguranças na noite desta quinta-feira (19), tem em seu quadro societário dois policiais militares e um policial civil e atende outras varejistas, como Extra, Atacadão e BIG (Walmart).
Outra notícia veiculada na Folha aponta para o problema que isso representa:
A Constituição Federal proíbe funcionários públicos, como policiais, de acumularem cargos remunerados, como a chefia de companhias de segurança privada.
Algumas delas são empresas de formação de seguranças, outras executam o serviço na ponta e podem contratar policiais em seus dias de folga, o que também é ilegal. A fiscalização do setor fica a cargo da Polícia Federal, que tem falhado nessa tarefa.
Esse é o nosso passado acumulado. Que o respeito pela vida do outro seja maior que a defesa do mercado, que a cultura da terceirização mude, que a responsabilidade pelo serviço terceirizado seja incorporada pelo contratante, que homens negros saiam da mira da violência policial e do encarceramento, que Boulos (SP) e Manuela (POA) cresçam no segundo turno: é isso que eu desejo que aconteça no futuro.
quinta-feira, 19 de novembro de 2020
Marcele Reitora!
quarta-feira, 18 de novembro de 2020
Deadline
Ele entrou no projeto sabendo dos prazos e entendeu que precisaria se organizar para cumpri-los. Montou uma equipe, delegou tarefas, compilou dados, agendou e conduziu entrevistas. Na equipe, um montou mapas, outro fez os gráficos, outro transcreveu as entrevistas. O esforço de interpretar os dados era equivalente ao da tese. Um universo inteiro se abria: a vontade de teorizar vinha antes da disposição para analisar os dados coletados.
Pediu que a família compreendesse que precisava de tempo para se dedicar ao projeto. Ficava esgotado depois das reuniões, das entrevistas, de pensar diante da tela. Chegou a se isolar num hotel, mas como tinha levado o celular, as notícias urgentes e cobranças do mundo ao redor logo o alcançaram.
O prazo foi adiado e ele passou dois dias resolvendo pendências acumuladas. Quando retomou o projeto, viu que o tempo concedido era pouco para o que faltava fazer. Havia dois limites que se impunham: o tempo do relógio e o número de páginas. Precisava coordenar o volume de escrita com o tempo que ainda lhe restava. Contagem regressiva no calendário, número de páginas escritas aumentando.
Mudou a rotina de toda uma rede de pessoas. Os membros do grupo passaram a se reunir alta noite, a família passou a sair mais de casa para deixá-los trabalhar. A hora do fim do prazo se aproximava. Não havia texto quando o dia chegou. Havia um esqueleto, uma ideia, uma intenção, um plano. Mas não havia texto.
Pediu mais prazo. Como ele é conhecido e reconhecido na academia, apostaram na qualidade do trabalho e concederam uma semana a mais de prazo. Ele se sentia como quem engana a Morte e posterga a sua hora. Juntou material produzido por um, por outro, escreveu em cima, teorizou e se surpreendeu com a riqueza do material que tinham à disposição. Quando atingiu metade da meta do número de páginas, entendeu que as outras seções não poderiam ser tão extensas. Ao invés de escrever, passou a cortar, reduzir, resumir. E o calendário mostrava que o seu tempo ia minguando.
Perdeu o prazo, que era uma sexta-feira. Com o argumento de que ninguém abre email depois da meia-noite de sexta-feira, teve esperança de conseguir finalizar na madrugada de sexta para sábado. Percebia que o que estava na sua cabeça era toda uma tese articulada de aproximadamente 200 páginas. Lutou para condensar isso tudo em 30 páginas. A cabeça girava, o corpo moído pela cadeira, as pontas dos dedos adormecidas, mas ele tinha sido dominado pelo projeto e precisava entregar um texto respeitável. Sábado passou, entrou domingo e a forma do texto ia ganhando corpo. Na noite de domingo, chegou a cogitar que tinha alcançado a metade do texto. Faltava a outra metade.
Na segunda, o ultimato: aguardamos o texto hoje. Pediu à companheira que revisasse o texto assim que estivesse pronto. As seções estavam definidas, havia texto escrito, mas essa história de escrever um texto a muitas mãos dá um caráter meio esquizofrênico ao todo, já que cada autor tem seu estilo, suas fórmulas, seu tempo de exposição. Um jogava pílulas concentradas - quase enigmáticas, outro se demorava nos passos que levariam à conclusão. Era preciso homogeneizar a escrita. Passou a noite trabalhando. A companheira entrou em ação de madrugada. Enquanto ela revisava a primeira parte, ele lapidava a segunda.
Na manhã de terça, ele declarou que tinha alcançado dois terços do texto. A companheira tinha chegado nas referências bibliográficas e se deu conta de que a ABNT não é universal. Em outras línguas, os sinais de pontuação exercem outras funções ao organizar a informação contida na referência. Faltavam quatro referências que haviam sido citadas no corpo do texto. Ela perguntava se Nascimento e Castro não era o livro que estava no banheiro. Ele respondia que Castro não era a Edna, mas outra pessoa (mas era a Edna Castro). As notas de rodapé se mostraram um problema: numa versão do texto, as notas tinham sido colocadas no rodapé da página, por isso não foram copiadas com o resto do texto. A revisora teve que inserir (e formatar) cada uma das notas na versão final. Quando chegou a segunda metade do texto, ela notou que várias partes da primeira metade estavam marcadas e precisavam ser inseridas na versão final. Ou seja: não se progride por seções cumpridas, mas por assuntos resolvidos por escrito - e isso envolve forma e conteúdo.
Antes de almoçar (depois do meio-dia), todas as seções estavam completas, mapas e gráficos no lugar, notas inseridas, referências citadas e o texto revisado. Poderia ficar melhor, não fossem esses prazos - que são de matar. Quando a pessoa finalmente cruza a linha de chegada, está morta de cansaço.
segunda-feira, 16 de novembro de 2020
Brincar sem brinquedo
Agnes brinca sozinha com brinquedos quando são novidade. Com outra pessoa, ela brinca com brinquedos numa boa, mas o que ela mais gosta é de brincar com outras crianças. E aí não precisa de nada além de espaço.
Em plena ascensão da segunda onda do corona vírus, o parquinho ainda é a melhor opção. Ela corre com Mathias e brinca com os amigos do Mathias - que são todos os frequentadores do parquinho de mais ou menos 1m de altura.
domingo, 15 de novembro de 2020
Como foi o ensino remoto
O ensino remoto foi abreviado. Antes da pandemia, cheguei a dar 4 aulas (encontros de 1 hora e meia). Quando a universidade admitiu que os cursos poderiam seguir de forma remota, tanto alunos como professores puderam escolher se seguiriam no modo remoto. Eu decidi seguir com a disciplina eletiva, Neurolinguística, e abortar a disciplina curricular, Morfologia. O problema era que estávamos decidindo isso em outubro pra começar o ensino remoto em meados de outubro. Foram feitos cálculos em que aulas síncronas e assíncronas foram computadas de maneira desigual: 2 horas de aula presencial para 6 horas de leitura e estudos por conta própria. Pelo cálculo, quem dava disciplinas de 40h, como era o meu caso, só daria 4 aulas e meia (cada uma de 1 hora e meia). Considerando que o curso tinha iniciado em fevereiro e que as aulas ministradas antes da pandemia correspondiam a 25% das aulas do curso (ou seja, 4 aulas presenciais equivalem a 25% do curso), eu tinha que abater uma aula e ministrar 3 aulas e meia no modo remoto (ou seja, 3 aulas e meia corresponde a 75% do curso). Maluco, né?
A turma tem hoje, no sistema, 45 alunos. Alguns deles entraram na turma só durante a pandemia, outros trancaram. Os professores receberam uma lista com email de todos os alunos matriculados no curso. Nessa lista, apenas 4 alunos declararam que não seguiriam pelo modo remoto por não terem condições (tecnológicas) de acompanhar as aulas. Mas... nota e presença só 25 alunos conseguiram alcançar ao fim do curso.
O curso era sobre Neurolinguística, mais especificamente sobre a semiologia das afasias. Falamos de dislexia e de autismo porque choveu de perguntas sobre esses distúrbios, já que as pessoas têm contato com pessoas diagnosticadas. Os seminários estavam previstos no curso presencial e foram mantidos no remoto: editei vídeos de 4 minutos em média que podiam servir de base para estudos de caso de agramatismo, jargonafasia, anomia e estereotipia. Sobre confabulação eu não tinha material audiovisual, mas tinha textos.
Pedi aos alunos que relatassem como foi a experiência do ensino remoto. Todos encararam o seminário como um grande desafio: botar slides a partir do celular, fazer um vídeo rodar e falar com tranquilidade não foi fácil. Todos relataram que o que os motivou mais foi o conteúdo do curso: distúrbios de linguagem era o desconhecido, mesmo que tivessem alguém com algum distúrbio de linguagem na família. Aprender então sobre discurso na esquizofrenia, autismo, anosognosia (como pode alguém não ter consciência das suas dificuldades?), confabulação e memória foi decifrar alguém conhecido. E assim a Neurolinguística entrou na vida cotidiana, no caso concreto.
Só que essa turma é de primeiro semestre. Eles ainda nem entenderam o que é Linguística, quais são as disciplinas, como se pronuncia léxico, sintaxe, apraxia e prosódia. Ficaram confusos com as teorias linguísticas assim, no plural (não é uma verdade só? são diferentes teorias?).
E aí eles se sentiram sozinhos, sem foco. A cada leitura de texto, eles precisavam procurar explicações para palavras e conceitos em outros textos. Tiveram que fazer anotações, resumos e fichamentos por conta própria para entender o texto que seria usado no seminário. Tiveram que aprender a pesquisar informação. Uma aluna (talvez ela seja exceção) relatou que leu todos os textos dos seminários. Isso quase nunca acontece: cada aluno lê apenas o texto que vai apresentar e absorve do seminário dos colegas o conteúdo dos outros textos. A carga de leitura foi a mesma que seria no presencial, mas entendi, pelos relatos deles, que eles leram mais no modo remoto que leriam no modo presencial. Leitura não garante aprendizado. Mas é um bom começo.
A grande maioria relatou dificuldades para se adaptar ao modo remoto. Havia barulho na casa, distratores, concentração era um problema, participar das aulas pelo celular foi um desafio, o sinal de internet nem sempre era bom, a conexão caía. Quem tocou nesse assunto, reportou que compreendia o conteúdo melhor no modo presencial. Em alguns casos, o bloqueio parecia não ser só de ordem técnica. Entendi que comunicar não é só falar: os gestos, a postura, as brincadeiras, a polidez que fazem parte da interação face a face não estavam na tela. Uma pessoa relatou que a turma se ajuda bastante - mas que presencialmente, na convivência, as afinidades faziam fluir melhor o estudo e o trabalho colaborativo.
A tese central do documentário Ivory Tower (Torre de marfim) de 2014 é que a universidade oferece 3 coisas: ensino/educação; redes de relações; certificado. As redes de relações são tão importantes quanto o ensino e o certificado. O modo remoto falha ao deixar o aluno sozinho, sem relação com o professor e com os colegas.
Com essa segunda onda de corona vírus, parece que ano que vem continuaremos no modo remoto. Precisamos aprender a interagir com os alunos nessa modalidade - sabendo das dificuldades deles.
sexta-feira, 13 de novembro de 2020
III Congresso Métodos Fronteiriços
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| Marcadores de livro desenhados pela Leidijane Rolim |
Fui convidada pela organização do III Congresso Métodos Fronteiriços a falar sobre "vozes e edições amazônicas" numa mesa com o editor da Revista equatoriana Kipus e moderação do Miguel Nenevé, ele mesmo editor da Revista Igarapé. Duas revistas que publicam estudos culturais, decolonialidade e suas respectivas articulações de conhecimento. E eu, editora da EDUFRO.
A organizadora e eu pensamos juntas o que eu poderia falar nessa mesa e chegamos ao lema da editora: Pensar por escrito. Depois da minha fala, deu vontade de escrever sobre Flusser, o processo de escrita, o produto da escrita, editoras, leitores e tudo junto e misturado: o autor que é leitor e edita seu texto.
Os slides não andaram como eu via na minha tela, Luis tentou me avisar depois que todos tentaram me avisar por escrito (email, celular), mas eu estava tão concentrada na fala, que não consegui ouvir os avisos.
quinta-feira, 12 de novembro de 2020
Menos plástico
| Isto é um brócolis |
Agnes eu eu saímos de casa pra ir na cabeleireira, mas o salão estava fechado. E agora? Tomar sorvete! Fomos lá, tomar sorvete. E agora? Parquinho! Fomos, mas no caminho tinha uma feira. Achei surpreendente uma feira de tarde, tão perto de casa. Descemos do carro e fomos explorar. Vi uma banca com fraldas ecológicas, coisas em bambu e cheguei mais perto. Me interessei por toalhas com cera de abelha que funcionam como filme plástico.
| Isto é um queijo |
Achei tão bacana essa ideia de usar menos plástico, que levei um kit com 3 tamanhos diferentes. A toalha é moldada pelo calor da mão e fica nessa forma na geladeira. Dura um ano e pode ser lavada. Fui procurar isso na internet e achei tutorais que ensinam a fazer esse pano (se não quiser comprar, dá pra fazer - contanto que se tenha cera de abelha).
Agora temos só o desafio de lembrar o que está dentro dos panos de cera ;]
terça-feira, 10 de novembro de 2020
Museu do Parque Ecológico
Os parques foram reabertos há pouco tempo. Agnes e eu fomos no Parque Ecológico e não conseguimos fazer a trilha, porque a manutenção ainda não trocou todas as tábuas apodrecidas. Quando estávamos saindo da trilha, um homem segurando uma haste com um gancho na ponta passou por nós. Entendi que era um funcionário do Parque, mas não saquei logo o que ela aquele bastão.
Sem trilha, sugeri que visitássemos o museu (que eu não conhecia). O cheiro de naftalina foi a primeira impressão que nos saudou no interior do museu, junto com o frio do ar condicionado em modo polar que abraçava nossa pele molhada.
Os animais empalhados na vitrine central e os insetos mortos eu achei normais e Agnes saltava de um olha aqui! pra outro mamãe, vem ver!
Só que daí me dei conta de que TODOS os animais expostos estavam mortos. Com algodão nas órbitas dos olhos. Com ovinhos de naftalina nos cantos. Teriam morrido nas redondezas? Museu taxidermista...
Entramos numa sala em que havia cobras, sapos e peixes em potes de vidro sortidos. Entendi ali que o bastão que o sujeito na trilha segurava era pra pegar cobra.
Lembrei da greve de 2011 na UNIR, quando Carolina Doria dizia pra câmera que ela trabalhava no barracão, todo de madeira e sem um extintor de incêndio, em que toda a coleção de peixes estava guardada em vidros com álcool. Os vidros do museu igualmente parecem ter saído da cozinha.
domingo, 8 de novembro de 2020
Pé-frio
Não lembro exatamente o ano, mas imagino que deve ter sido entre 1995 e 1998. Éramos todos cabeludos e adolescentes, eu viajava com Wernher e Leo para Itatiaia com certa frequência e namorava o Fernando. Wernher e eu frequentávamos a mesma escola (entrei na USP em 1996), mas ele era um ano mais novo que eu. A mãe dele só autorizava as viagens com o Leo porque a Lou ia junto - e a minha mãe só deixava eu ir com eles porque o "Wermi" ia junto. O Leo era estudante de Física na USP, tocava um laboratório de identificação de componentes químicos através de fios de cabelo e escalava. As viagens pra montanha eram pra compensar as horas de escalada em academia (principalmente do Leo). Foi em Itatiaia que conhecemos o Everal (esgrimista) que se juntou ao grupo e me apresentou a Linguística: ele estudava na USP e me convenceu a escolher Linguística ao invés de Português.
| Everal |
Em 2007, quando eu estava fazendo doutorado-sanduíche na Holanda e era bolsista Alßan, fui a Grenoble, apresentar o meu trabalho. Como a Europa é pequena, resolvi aproveitar a saída e conhecer a Itália. Me apaixonei pela língua, me atirei às hipóteses sobre construções e conversei com desconhecidos que riam na minha cara. No final do giro, fiquei hospedada na casa da Manoela, (então) namorada do Everal. No dia da minha partida, uma nova palavra me impôs restrições: sciopero. Greve de aeroportuários por algumas horas e eu tive que voltar de alguns trens e ônibus em muito mais horas que o planejado. Fiquei pensando: será que eu sou pé-frio? Eu viajo e...
Em novembro de 2008, participei de um Encontro Nacional de Cicloturismo e Aventura que aconteceu em Camboriú, SC. Ficamos a maior parte do tempo no hotel, porque choveu muito: tanto, que a cidade alagou, pessoas foram desalojadas e cedemos camas para cidadãos que vieram procurar abrigo no hotel. O grupo passou por uma experiência de forte união - não pelo pedal, mas pela tragédia em volta. Quando o tempo de hospedagem no hotel acabou, a água começou a baixar, mas ainda havia barreiras nas estradas, de modo que fui com um grupo de pessoas prum apartamento vazio em Balneário Camboriú, onde esperamos a situação regularizar. Pensei: olha eu entrando pro clube de cicloturismo e lá vêm as chuvas catastróficas de Santa Catarina.
Em fevereiro de 2014, Luis e eu retornamos (casados) a Porto Velho, RO, para as nossas vagas na UNIR. Em março foi o pico da cheia histórica do rio Madeira. Fizemos um filme sobre a cheia do Madeira e o vazio de responsabilidade pela tragédia - que venceu prêmio no Fest Cine Amazônia. Fiquei pensando que eu nunca mais poderia mudar de lugar, porque não é seguro para a cidade em que eu for me instalar.
Agnes teve a primeira infância numa casa grande, com um jardim cujos limites eram difíceis de definir. Em 2019, o proprietário decidiu vender a casa e nós não conseguimos comprar. Mudamos para um apartamento e poucos meses depois a pandemia se instalou. Essa não é a primeira mudança de casa em Porto Velho (é a minha sexta moradia nessa cidade desde 2009), mas é associada a outra situação de emergência.Sou eu que sou pé-frio ou é o mundo que gera tragédias (de várias naturezas)? Em tempos em que os americanos sentem necessidade de ir às ruas para comemorar a eleição de um conservador, acho que eu sou irrelevante. Toda a esquerda comemora muito mais a não reeleição de Trump do que a vitória (apertada) de Biden. O discurso dele foi morno, protocolar e cheio de sorrisos tortos. Já o discurso da vice dele, Kamala Harris, foi ponta-firme, anti-Trump. As tragédias que por coincidência acompanhei de perto têm, em alguma medida, relação com o modo como o mundo é conduzido (explorado, revirado e pavimentado).
quinta-feira, 5 de novembro de 2020
Meet all day long
Todos os gestores de órgãos ligados à Reitoria foram convocados a participar de uma reunião virtual de transição que durou o dia inteiro. A equipe que trabalhou na gestão de Ari Ott apresentou seu setor, dificuldades, avanços e legado para a reitora eleita (mas ainda não nomeada e empossada), Marcele Pereira.
A internet oscilava, vieram eletricistas (pra trocar lâmpadas!) que desligaram a chave geral do apartamento todo, fiquei sem internet no computador e sem energia pra carregar o celular, desci pro saguão do prédio, botei o celular na tomada, o barulho na avenida invadia a reunião, vi os eletricistas indo embora, subi de novo, voltei ao computador, apresentei a EDUFRO, passou do meio-dia e os trabalhos da manhã foram encerrados. Quando saí da reunião, não tinha ninguém em casa. Luis e Agnes tinham saído e o almoço estava pronto.
Entrei uma hora atrasada na reunião da tarde porque almoço, louça e roupa no varal me tomaram esse tempo. Depois que Agnes acordou da soneca da tarde, levamos o Luis pro hotel, porque ele precisa se isolar pra terminar um projeto. E a reunião seguia pelo celular. Quando Agnes e eu chegamos em casa, a reunião seguiu pelo computador.
Adivinha o que tem na programação de hoje. Reunião de Departamento pelo Meet. Provavelmente a manhã inteira.
Home office que é mais home do que office.
domingo, 1 de novembro de 2020
Letra U de fantasma
Ouvi os gritos finos e assustados da Agnes vindo do quarto. A soneca da tarde tinha acabado. Depositei o livro na mesa, o marca-texto em cima, tirei os óculos e entrei no quarto.
Breu profundo, exceto por uma luzinha verde. Agnes segurava um monstrinho (que tem luz na barriga) como se fosse um farol. Deitei do lado dela e ela deu a ideia de desenharmos letras no ar com a luz. Adivinhou umas, fez outras e quando a luz voltou para a minha mão, ela pediu que eu fizesse a letra U de fantasma.
Ela não viu a minha cara de interrogação porque estava escuro demais, mas entendeu minhas reticências e explicou: o barulhinho que o fantasma faz: UUUUUU
sábado, 31 de outubro de 2020
Galeria Agnes
quinta-feira, 29 de outubro de 2020
terça-feira, 27 de outubro de 2020
Agora eu uso óculos (pra ler)
2 anos atrás eu fui no oftalmologista reclamando que o celular me dava tontura, mal-estar, que a minha visão embaçava e que - especialmente de noite - eu não conseguia ler. O diagnóstico foi elaborado com base em elementos externos à minha visão: minha idade, vista cansada. Quando ele examinou meus olhos, disse que eu não precisava de óculos, mas deveria ajustar o celular para melhor acessibilidade (aumentar a letra, fundo escuro etc.).
Voltei no mesmo oftalmologista agora, porque não conseguia mais cortar as unhas sem sentir a agonia da imprecisão ou ler sentindo o foco sumir e voltar. Ler no papel para escrever no computador representava um esforço de ajuste de tamanho de fonte que me dava dor de cabeça. Como editora, sou leitora profissional. Como ler com a vista cansada?
Passei a usar os óculos de farmácia que o Luis tem espalhados pela casa - e o incrível é que a visão melhorava. Mas como eu desconfiava da qualidade dos óculos de farmácia (não precisa, eles são basicamente lupas), fui no oftalmologista que me encaminhou para a ótica onde encomendei um par de óculos na cor, peso e tamanho certos.
sábado, 24 de outubro de 2020
Linguística Românica
No meu Departamento, temos dois professores que sabem latim: Valdir e Cristina (ambos ex-orientandos do Jean-Pierre Angenot). Oswaldo dava aula de latim, mas já aposentou. Há anos o Valdir anuncia que agora é idoso e já faz inúmeras reuniões que Cristina anuncia sua aposentadoria.
Eu fiz a minha graduação na USP e tive aulas de Latim (1 ano com Chellini), Linguística Histórica (1 semestre) e Filologia Românica (1 ano com Bruno Bassetto). Não estudei nenhuma das línguas românicas (mas acompanhei 4 aulas de romeno com o Mário Viaro e não me lembro por que parei). Apesar dessa formação (distante no tempo), não me considero apta a dar o curso de Filologia Românica.
A Escola de Verão do GEL estava oferecendo cursos no formato à distância. Me inscrevi no curso sobre sinais de pontuação (porque é isso que me ocupa agora) e no curso de Linguística Românica com o Ilari - pra medir o tamanho de uma possível disciplina de Filologia na UNIR. Antes de começarmos o curso, Ilari enviou tarefas: um questionário que avançava em páginas e complicava e que mostrou que o meu desempenho assim, a frio, era de 60% de respostas corretas.
Aí começou o curso e Ilari falava em latim, francês, espanhol, alemão, sueco, italiano e piemontês. Aí eu fui vendo que, por mais que eu leia o livro dele, assumir essa disciplina seria um projeto de vida. Assim que der, vou fazer ainda a segunda tarefa do curso, que consiste em escolher (e responder) 2 questões de uma lista de 52 questões relacionadas ao livro do Ilari.
terça-feira, 20 de outubro de 2020
Na costureira
Foi Luis quem descobriu a costureira ali embaixo num dos passeios a pé que dá no bairro com a Agnes. Já encomendou muitas máscaras com ela. Aí eu resolvi encomendar umas coisas também. Ela fez duas fronhas de almofada de sofá e uma fantasia de dinossauro pra Agnes.
A fantasia de dinossauro que chegou da China tinha ficado um tanto grande na Agnes e ela pisou em cima do rabo. A costureira usou essa como modelo pra fazer outra, em malha. Agnes escolheu o tecido e levou um livro de dinossauros pra costureira saber como é o estegossauro - pra máscara e pras placas nas costas. Só que, pra máscara, a costureira preferiu procurar moldes na internet e achou um tricerátopo. Agnes notou a diferença.
Quando as fronhas e a fantasia ficaram prontas, fomos lá e Agnes experimentou as duas fantasias: a da China ajustada e a nova. Ambas ficaram apertadas e a costureira usou giz pra marcar o lugar onde o fecho devia ficar.
Hoje de tarde começou a ventar e o céu ficou escuro logo depois que a costureira mandou recado avisando que as fantasias estavam prontas. Apesar de serem só duas quadras de distância, Agnes e eu fomos de carro, por causa da chuva iminente. O ateliê de costura é o que deve ter sido a garagem da casa. Pra virar ateliê, imagino que a garagem tenha ganhado uma parede com janela e porta. A janela estava aberta quando chegamos e ela estava sentada à máquina. Cumprimentei. Ao ouvir o segundo oi, a costureira piscou pra mim e disse que tinham levado a fantasia de dinossauro embora, mas que ela tinha feito outra, parecida. Agnes ficou curiosa, bateu na porta e pediu pra ver essa fantasia de que ela falava.
Abriu a porta, Agnes entrou. Vamos testar? Ih, vou ter que mudar o fecho. Sentou de novo na máquina. Agnes já tinha entrado e passou a explorar o ateliê de costura. Achou o molde de tricerátopo que a costureira tinha imprimido. Queria colorir. Pode levar. A costureira levantou pra pegar um carretel de fio azul. Foi cortando o fio na mão e inserindo na máquina. A agulha estava ao contrário. Trocou a agulha.
Começou a jorrar água. Na maior tranquilidade, a costureira tomou nota de que a água tinha voltado e que tinham deixado a torneira aberta. Não levantou da cadeira pra fechar a torneira, porque os joelhos doíam muito. Vai ter que operar.
Ei, por que tem giz no chão?
Porque eu não dou conta de arrumar tudo. Tu não quer sentar?
Eu não: eu não moro aqui!
A costureira terminou de pregar o velcro no lugar certo. Faltava cortar o fio que liga a máquina ao tecido.
Agnes, vê se tu acha uma tesoura por aí. Ontem meu filho levou todas as minhas tesouras pra cortar material de campanha. Ele faz adesivo, essas coisas. Acho que ficou só uma aqui. Onde foi parar?
Achou a tesoura embaixo da outra fantasia da Agnes.
Agnes gritou tchau correndo de braços abertos. Brincava que voava ao vento. E nem choveu.
Duas fantasias, duas experiências: a da China foi comprada por aplicativo. A de estegossauro com máscara de tricerátopo foi manufaturada por uma pessoa que passamos a conhecer.
quarta-feira, 14 de outubro de 2020
Schlappen
Eu falo muito pouco alemão com a Agnes. Aí a comunicação em alemão não é natural, é só não-português, não-minha-língua. Ela entende bastante coisa, só não entende por que eu insisto em falar alemão com ela.
Ela tem tido, até agora, duas posturas em relação a isso: ou adivinhar o que eu estou querendo dizer (você falou que é pra eu pular na cama?) levando as coisas um pouco pro absurdo; ou respondendo numa língua inventada.
Ontem, pela primeira vez, ela me respondeu em alemão.
Eu: Agnes, du bist barfuß. Zieh dir was an die Füße. Schlappen oder Socken.
Ela: Schlappen.
Ela entendeu que eu falei alguma coisa relacionada a pés. Ela entendeu que eu estava brava e que ela tinha que fazer alguma coisa. Por fim, ela entendeu que eu ofereci uma opção a ela: chinelos ou meias. E ela respondeu em alemão. A língua virou instrumento de comunicação, não apenas objeto de conhecimento.
segunda-feira, 12 de outubro de 2020
Negação
- Agnes, qual é o contrário de colorir? (Eu esperava 'descolorir' como resposta)
- Não colorir.
- Qual é o contrário de feliz? (Eu esperava 'infeliz' como resposta)
- Triste.
Me parece que os prefixos ainda não são muito produtivos na linguagem da Agnes. Entendo que sejam deveras abstratos, já que estabelecem uma relação de negação (que tem várias facetas) com o radical.
Em 1984 (George Orwell), no capítulo 5, Winston conversa com o dicionarista do regime autoritário. Syme explica que a atividade lexicográfica dele consiste em destruir palavras. A ideia central é que com poucas palavras, poucos pensamentos são possíveis. Restringir o vocabulário equivaleria a restringir a capacidade de pensamento. Quando há duas palavras com sentidos opostos, escolhe-se uma e aplica-se a ela um prefixo que expressa o seu contrário, eliminando assim a segunda palavra. Exemplo: bom e mau são duas palavras. Se ao invés de mau for usado um prefixo negativo com bom, como em imbom, a palavra mau pode ser eliminada.
- O que você achou disso, menina?
- Isso é nem acreditável!
quinta-feira, 8 de outubro de 2020
Informação
Glauco era um dedicado bibliotecário. Gostava mais de trabalhar no atendimento, auxiliando as pessoas a encontrarem o que buscavam. Todos buscavam informação, mas cada um tinha um jeito de perguntar, explicar o que queria, anotar e pesquisar. Depois de anos pensando sobre a informação, Glauco se deu conta de que ela não está simplesmente lá: ela proporciona a interação da pessoa com as ferramentas de busca, da pessoa com outra pessoa, da pessoa com o espaço. A palavra informação carregava, então, mais informação que se encontra no dicionário. Intuitivamente, entendeu que informação podia ser um conceito.
Decidiu retomar os estudos e ingressar no mestrado. Como tinha experiência profissional na área, participava com gosto das discussões em sala de aula e ficava maravilhado com o que os autores afirmavam sobre o que ele conhecia na prática. Ficou espantado com o fato dos filósofos gregos já terem pensado sobre os mesmos problemas que lhe interessavam agora.
Chegou a hora de escrever o seu texto. Buscou informação, copiou trechos e os ordenou meticulosamente. Cada frase que escrevia era acompanhada, no final, por parênteses que continham o nome do autor e o ano da obra de onde Glauco tinha extraído a informação. As páginas iniciais ficaram povoadas de (ARISTÓTELES, 2003), porque a edição que Glauco encontrou na biblioteca era da Martin Claret (editora que ganhou fama por plagiar textos). Para Glauco, Aristóteles não era Aristóteles. Para Glauco, Aristóteles só existia naquele livro de 2003.
Glauco até escrevia com suas próprias palavras, não era tudo citação, não, mas ele não pensava nada daquilo, só reproduzia. Ele conseguia resumir e articular diferentes autores, mas não conseguia se distanciar deles, perceber que eles lidavam com conceitos, não com coisas; e que conceituar é uma forma de entender um problema, não necessariamente "a verdade" sobre aquilo. Se cinco autores elencavam categorias diferentes para o mesmo objeto, Glauco copiava todas e citava a fonte. Não importava que houvesse sobreposição nas categorias, não importava que uns autores avançavam a partir do pensamento de outros. Glauco reproduzia fielmente o que cada um tinha escrito.
O orientador elogiou o trabalho de coleta de informações no extenso trabalho de Glauco, percebeu a técnica de escrita dele, exaltou o volume de fontes consultadas, mas não percebeu que nem metade dos autores citados no texto constavam nas referências bibliográficas. Os membros da banca não leram a dissertação com olhos de revisor, nem exigiram que Glauco fosse original ou desenvolvesse pensamento próprio. Consideraram que a dissertação era um ótimo catálogo sobre informação.
O primeiro leitor da dissertação do Glauco não conseguiu localizar, na biblioteca, nem metade dos autores que Glauco usou no texto (e não informou nas referências). Não conseguiu entender o que Glauco aprendeu sobre informação nesse processo de fichamento - era isso que parecia a dissertação.
quarta-feira, 7 de outubro de 2020
Fotografia
Agnes adora fotografar, mas grande parte do que ela captura é repetido. Ela grava inúmeros vídeos de si e tira zilhões de fotos do chão, da cama, da parede. Um dia eu reclamei dessa legião de fotos pra imobiliária e mostrei pro Luis uma longa sequência de fotos que Agnes fez de mim (sem que eu percebesse).
Quando chegou nessa foto, ela comentou: aqui você está presa.
Entendi, nesse momento, que ela entendeu que fotografia vai além do registro.
terça-feira, 6 de outubro de 2020
quarta-feira, 30 de setembro de 2020
Livro pronto
Autor submete livro em editora e recebe os pareceres. Frio na barriga: será criticado. Demora a ler os pareceres, mas não consegue deixar de especular sobre o seu conteúdo. Abre o email. Baixa o arquivo. Começa a ler. Voa sobre a parte elogiosa, mas na parte das cobranças e sugestões, as letras se embaralham. O coração acelera, é difícil aceitar, concordar, entender. Mas o parecerista reservou tempo e esforço mental para o seu manuscrito. O parecerista merece uma resposta, merece ao menos o esforço de uma resposta. O autor modifica seu texto; e conforme a escrita desenrola, desenvolve, progride, o pensamento avança e o entendimento do próprio texto fica mais claro. O que era labirinto, fica pequeno.
Organizador submete livro em editora. Ele tinha um tema e muitos alunos que pesquisam assuntos que podem ser arranjados em torno desse tema. Pediu a esses alunos os seus trabalhos de conclusão de curso, escreveu uma apresentação descritiva de cada capítulo e chamou isso de coletânea. Chegam os pareceres. Um é elogioso, mas sem detalhes: parece até que o parecerista nem leu o livro. O segundo parecer é de um especialista respeitado na área, que não admite que os autores não alcancem uma visão crítica sobre o assunto de que tratam. Esse parecer é cheio de ideias, propostas e posição. Esse parecer pretende explorar mais o potencial dos autores e dos textos do que apontar falhas ou faltas. Quem recebe os dois pareceres é o organizador. Ele rumina se os alunos entenderão aquilo tudo, se serão capazes de atender às expectativas do parecerista. Pensa em escrever uma apresentação que responda ao parecerista exigente - e manter os capítulos como estão. Percebe que o resultado seria esquizofrênico. Mas os alunos precisariam amadurecer muito para chegar onde o parecerista os quer ver. Pensa: o bebê nasceu, e mesmo os pais não gostando da fisionomia, não tem como trocar os gens da criança! Informa à editora que os autores não querem nem têm condições de fazer as alterações sugeridas. Depois de ouvir sobre a função dos pareceristas, sobre a aventura da escrita, sobre o resultado do processo, decide conversar com os autores de cada capítulo. Organiza uma planilha de reuniões, iniciando pelo capítulo 1.
Autor e organizador submetem versão final à editora, aguardando imediata publicação. Revisora devolve o texto todo marcado de vermelho, cheio de perguntas e sugestões. Fez mudanças incompatíveis com os manuais de redação consagrados e explica que são normas da editora. Autor e organizador dedicam mais tempo e paciência a esse livro que deveria estar pronto desde a primeira vez que o entregaram. Já não é mais o mesmo texto. Diagramador formata o texto de acordo com o padrão dos outros livros da editora. Deixa páginas em branco. Editor pede ISBN, bibliotecário faz a ficha catalográfica e algum técnico da universidade ligado aos periódicos pede DOI. O técnico da gráfica, que reconhece a gramatura do papel ao simples toque, imprime os livros. Guilhotina, costura, cola quente, acerta a capa. A secretária contrata uma transportadora que leva os livros à editora. Editor confere se está tudo em ordem. Não está. Quando lê no papel, percebe erros que ninguém tinha captado, porque os leitores leram a palavra como um todo, não como uma sequência de letras que precisa ser lida na ordem certa. Letras trocadas na lombada, que coisa! Recado para o diagramador que acerta a ordem e manda imprimir de novo.
Enquanto autores elaboram o texto, outros atores entram em cena para confeccionar o livro. Os autores concentram sua expectativa de publicação no tempo da escrita. Os outros atores percebem o tempo do trabalho artesanal. Publicar um livro demanda tempo e atenção de muitos olhos e mãos.
domingo, 27 de setembro de 2020
Música como instrumento de opressão
Passei parte da quarentena lendo Gonçalo Tavares, o que não é fácil nesses tempos difíceis. Na tetralogia O Reino, estamos diante de um mosaico de guerra, força, espera, loucura e esforço de entendimento da violência. Um homem: Klaus Klump talvez seja o mais brutal de todos os romances que compõem o Reino, porque é escrito de maneira tão caleidoscópica e fragmentária. O cenário de fundo é a guerra e as cenas mais brutais são, a rigor, lacunas no texto - mas suficientemente bem preenchidas na imaginação do leitor.
Me chamaram atenção duas passagens em que a música se torna instrumento de opressão:
"Um dia, Johana regressava da mercearia com três maçãs caríssimas, e escutou uma orquestra que no meio da rua interrompida [um cavalo morto ocupava a via] e quase vazia de pessoas, tocava músicas que ela não conhecia. Não havia palavras, mas a música não era do seu país. Esta música não é daqui, pensou Johana, e começou a correr muito, em direção a casa, e enquanto corria, chorou.
A música é um sinal forte de humilhação. Se quem chegou impõe a sua música é porque o mundo mudou, e amanhã serás estrangeiro no sítio que antes era a tua casa. Ocupam a tua casa quando põem outra música." (p. 20)
Mais adiante:
"Uma orquestra militar ascende pelo edifício central e a música desce como os aviões que querem atacar. Transformaram a música numa peste, numa forma de doença que vem pelo ar.
As mulheres e as crianças ganharam medo da música. Esta música anuncia-os." (p. 26)
Parêntese: eu me sinto assim, invadida e violada toda vez que o brega (cabaré, zona) lá embaixo bota a música (brega) no volume lá em cima.
Por fim, a música nativa, conhecida, familiar, é tábua de salvação:
"De repente Klaus viu o que parecia ser uma claridade intrusa na sua noite individual; mas não. Era um som. Era o som de Alof [companheiro] a tocar [flauta]. No meio da massa negra. Terá a música luz, perguntou-se Klaus. Não uma luz de eletricidade, não uma luz de máquina, mas uma luz orgânica: como certos animais deitam luzinhas nas ancas: os pirilampos, certos peixes: terá a música uma luz orgânica?" (p. 76)
Concordo com Adorno: gostar de música é reconhecer essa música. Por isso a música que interrompe o silêncio, a música indesejada e desconhecida agride.
quinta-feira, 24 de setembro de 2020
Marginalia
Depois que ela se foi, ele dedicou muito tempo a descobrir quem ela era. Meditava sobre cada objeto dela, tentava encontrar ordem no guarda-roupa, nas fotos, nos livros. Folheando os livros, percebeu que ela tinha o hábito de fazer anotações nas margens das páginas. Em outras páginas, sublinhava trechos, dobrava a pontinha da página, desenhava símbolos obscuros. Começou a ler os livros e as intervenções dela na esperança de refazer o caminho dos pensamentos dela enquanto ela explorava o livro. Examinou cada marca inserida por ela, procurou na memória da vivência com ela por passagens semelhantes, tentou concatenar as anotações da leitora com o que conhecia dela. Entendeu que algumas vezes ela traduzia partes do texto, outras vezes se espantava com as exclamações que ela posicionava ao lado do que ele considerava óbvio e aborrecido. No entanto, a maior parte das anotações, marcas e intervenções dela nos livros permaneceu para ele um grande mistério.
*
A nova namorada já se permitia a esquecer objetos na casa dele. Na mesa da sala, ela tinha deixado um livro. Pela capa, parecia um romance. Ele não lia romances, apenas livros técnicos que o ajudassem a adquirir conhecimento. Na verdade, ele não lia: ele estudava através dos livros. O título do livro não lhe despertou a imaginação. Seguiu para a contracapa, onde esperava encontrar uma espécie de sinopse da trama. Lendo duas linhas ao mesmo tempo, percebeu o tema. Abriu o livro depois das páginas iniciais e se deparou com um trecho sublinhado a lápis. Foi fisgado. Sentou, lendo. Mais tarde, precisou acender as lâmpadas. As anotações que ela fazia nas margens do livro dialogavam com o texto, davam brilho à ideia, saltavam para a vida dela. Quando ele entendeu que ultrapassava o ponto em que ela tinha parado a leitura, decidiu marcar passagens para comunicar com ela. Ele, que jamais escrevia nos seus livros, ousou comunicar com a leitora deste livro através de suas anotações nas margens.
terça-feira, 22 de setembro de 2020
Aprender a contar
Lembro de uma viagem que fizemos a Minas Gerais em que Agnes foi o centro das atenções na casa da tia do Luis. Lembro da Sonia contando para as irmãs que Agnes tinha descido as escadas contando um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez.
Morando aqui no prédio, Agnes precisou aprender pelo menos o número 7 e o T do elevador. Com o tempo, foi memorizando os números, mas foi um longo processo. No começo da quarentena, brincamos muito de amarelinha: eu colava fita crepe no chão e usava um polvo (cheio de areia) para funcionar como pedra. Ela confundia o 2 com 5, não lembrava do 6 etc.
Passei a jogar Uno com ela. A regra era seguir a cor ou o número. Como eu ficava narrando o jogo, ela apenas identificava os símbolos, mas não dizia os nomes dos números.
Aí a quarentena se estendeu por mais tempo que a minha criatividade para novas brincadeiras permitiu e Agnes passou a querer brincar de esconde-esconde. Ela contava: um, dois, três, quatro, sete, oito, nove, dez! Eu reclamei que eu tinha menos tempo de me esconder, porque ela engolia o cinco e o seis. Anotei todos os números numa fileira e dei pra ela. Nas primeiras vezes, deu certo. Daí ela passou a confundir 6 com 9. Escrevi o nome de cada número abaixo do algarismo, confiante de que ela saberia reconhecer o s de seis e o n de nove. Deu certo, mas ela sempre precisava do papel.
Muitos esconde-esconde depois, o papel tinha sumido e ela voltou a saltar do 4 ao 7. Apostei na rima:
um, dois, três
quatro, cinco, seis,
sete, oito, nove?
Dez!
Agora fixou. Agora ela só conta assim, quase cantando.
domingo, 20 de setembro de 2020
Cobertor de fumaça
sábado, 19 de setembro de 2020
Serviço cancelado
Durante a pandemia, ninguém entrou na nossa casa: nem os amigos, nem os consertadores. E assim passamos longos meses com uma privada inativa, porque a válvula de descarga disparava e uma cachoeira passava pelo vaso e até alagava o chão, porque o vaso estava solto. Aí a Rose voltou a limpar a casa e paralelamente o pessoal do prédio ficou decifrando enigmas hidráulicos. Semana passada descobriram uma garrafa pet dentro de um cano, veja só. Nesse dia, veio o encanador que cuida de todos os vazamentos do prédio. Como eu sabia que ele vinha e nós tínhamos previsão de passar o dia fora de casa, pedi a ele que consertasse a válvula disparada e fixasse o vaso no chão.
A válvula ele consertou sem dificuldade, o vaso ele disse que não afixou porque nem daria pra testar, já que naquele dia o prédio todo ficou sem água. Entendi que ele me cobraria mais uma visita se retornasse para resolver o que não tinha feito na primeira vez e lembrei que temos seguro residencial que oferece assistência. Liguei na seguradora que agendou um prestador de serviço para terça-feira, entre 14h e 16h. O prestador (provavelmente terceirizado) tinha essa janela de 2 horas para chegar. Mandariam um link através do qual eu podia acompanhar o pedido e a localização do prestador de serviço.
No dia e hora marcada, o link não funcionava. Liguei na seguradora e a atendente informou que o prestador estava terminando outro serviço e que seguiria para cá. Extrapolou o horário, eu liguei de novo na seguradora. Entendo, senhora, sei perfeitamente como é frustrante perder a tarde esperando por alguém que não vem. Tentei ligar para ele, mas ele não está atendendo. Vou cancelar e agendar outro. É outro prestador que vai na sua residência, ok?
Só que o prestador de serviço não foi informado de que tinha sido cancelado. Veio uma hora depois de expirada a janela de tempo. Luis olhou pela janela e viu um carro muito velho, amassado, sujo e cheio de peças fazendo manobras agressivas enquanto o escapamento explodia combustão.
O segundo prestador estava agendado para o dia seguinte, entre 8h e 10h. Faltando 5 minutos para encerrar a janela, o prestador apareceu, fez o serviço, limpou tudo (!) e foi embora. A seguradora me pediu que eu avaliasse o serviço dele e eu dei o assunto por encerrado. Ao meio-dia o porteiro ligou, dizendo que o rapaz da seguradora estava aqui para consertar a privada. Opa, o serviço já foi feito. Olhei pela janela e observei um Uno quadrado e velho todo batido, cheio de sucata dentro soltando explosões pelo escapamento e fazendo manobras imprudentes. Liguei na seguradora e avisei que o prestador que teve o serviço cancelado tinha voltado.
A outra história começou antes, se arrastou por mais tempo e só teve desenlace agora. Era junho, terceiro ou quarto mês de pandemia. Luis tinha pedido mais canais de TV na assinatura e mais megas de internet também. Uma semana depois, o dia já escurecendo, o porteiro ligou dizendo que um técnico da Oi estava aqui, querendo instalar um ponto adicional. Não estávamos mais no horário comercial, não tínhamos pedido ponto adicional e ficamos escandalizados com a ousadia de um técnico querer entrar em nossa casa em plena quarentena. Foi uma longa negociação com o técnico via interfone e no final ele foi embora.
Luis ligou na Oi reclamando que um técnico queria instalar ponto, quando o que ele tinha pedido se resolve via sistema. Deram prazo de 10 dias e o plano voltou ao básico (perdemos vários canais). Luis reclamou, deram outro prazo, mas nada mais aconteceu.
Paralelamente a isso, Luis tentou fazer downgrade na Claro (celular), porque como não saímos de casa, não faz sentido ter um pacote de dados de internet tão grande se tem wifi em casa. Não conseguiu. A Claro continuou cobrando o mesmo valor e oferecendo um produto obsoleto na pandemia. Luis cancelou a Claro e pediu um chip da Oi. Já chegaram 3 chips da Oi aqui e nenhum deles é ativado, porque Luis está com o contrato bloqueado na Oi. Foi uma longa jornada de ligações, com atendentes diferentes (provavelmente terceirizadas) que viam telas diferentes e diziam coisas desencontradas. Conversando com a Ouvidoria, ele sentia mais firmeza, mas todas davam prazo de 10 dias e nada acontecia.
Quando ele perdeu a paciência, mandou cancelar tudo. Mas senhor, todos os seus pedidos já estão cancelados. Parece que o seu contrato foi bloqueado. Quem bloqueou o meu contrato, já que estou há meses ouvindo de vocês que em 10 dias tudo será resolvido? Não dá pra saber quem bloqueou. Técnico consegue bloquear? Isso tá parecendo vingança do técnico que veio aqui e não conseguiu instalar o ponto que eu não pedi. Sim, é possível.
quinta-feira, 10 de setembro de 2020
Olhar de diagramador
Quando eu assumi a EDUFRO, Leidijane era a diagramadora. Eu me espantava com o olhar que ela tinha do texto. Ela via a mancha textual, enquanto eu lia as palavras. Eu não sei olhar para um texto sem ler as palavras. Ela reclamava quando tinha que ler as palavras (porque isso é função do revisor).
Agora que a EDUFRO terceirizou a produção de seus livros, percebo claramente o valor do trabalho do revisor e do diagramador. O revisor recebe um valor mais alto: negocia com os autores, argumenta para defender as alterações feitas. O diagramador recebe um valor mais baixo, porque, em essência, a função dele é transportar o texto de um programa (Word) para outro (InDesign). As reclamações que o diagramador recebe concernem espaços, organização de elementos gráficos.
Nesse processo de editoração em que estamos envolvidos, 18 livros estão sendo feitos pela mesma empresa. Cada etapa (revisão, diagramação e impressão) prevê 3 provas. Por exemplo: revisor apresenta primeira prova, autores avaliam, fazem ajustes. Revisor corrige, apresenta segunda prova. Autores percebem outros erros que tinham passado, fazem emendas, revisor corrige e apresenta a terceira e última prova. Aí entra o diagramador. Só que quando o texto é apresentado em PDF, com 33 linhas por página, no formato já do livro, os autores percebem mais "gralhas" e o diagramador precisa resolver essas demandas.
O meu contato com a empresa terceirizada se dá através do diagramador. É para ele que eu repasso os livros, as capas, as demandas. O diagramador, que recebe o menor valor de todos, acompanha todo o processo de confecção do livro (ele até precisa entender de impressão). Só que o modo como ele lê o texto é ou macro (mancha textual) ou micro (resolver gralha). Num livro, por exemplo, os autores sugeriram que uma vírgula numa frase fosse convertida em ponto final. O diagramador fez isso. Vírgula virou ponto. Mas o que vinha depois do ponto permaneceu em letras minúsculas, porque o olhar micro não foi além do ponto.
domingo, 6 de setembro de 2020
Telepatia
Cena: Marido e mulher na cozinha, reclamando do calor e da sede que não sacia. Homem tira polpa de cupuaçu (de 1kg) do congelador e deposita na pia. Criança demanda atenção, dispersam.
Mulher volta à cozinha depois de um tempo e pensa: "Puxa, ele deixou a polpa aqui na pia e não fez suco. Se derreter, vai estragar. Vou devolver ao congelador."
Marido retorna à cozinha depois de mais tempo ainda, procura pelo suco de cupuaçu na geladeira e pensa: "Ela não fez o suco! Pôxa, eu deixei a polpa bem aqui pra ela fazer..."
Além dos pensamentos serem desencontrados, as expectativas em relação ao outro também são.
sábado, 5 de setembro de 2020
quinta-feira, 3 de setembro de 2020
domingo, 30 de agosto de 2020
Trilha paralela à usina
Vivas pra Agnes que caminhou a trilha inteira com os próprios pés! Era uma trilha desconhecida, cheia de altos e baixos, caminhos de água e bifurcações.
Quando achávamos que toparíamos com o muro da usina (o som das máquinas era mais alto que os sons da floresta), vimos esse lago cheio de árvores mortas. Deve ser consequência do reservatório.
Um pouco mais adiante, o linhão apareceu, a vegetação mudou, apareceram pedras no caminho e decidimos voltar antes de sermos vistos.
































