Lembro de uma viagem que fizemos a Minas Gerais em que Agnes foi o centro das atenções na casa da tia do Luis. Lembro da Sonia contando para as irmãs que Agnes tinha descido as escadas contando um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez.
Morando aqui no prédio, Agnes precisou aprender pelo menos o número 7 e o T do elevador. Com o tempo, foi memorizando os números, mas foi um longo processo. No começo da quarentena, brincamos muito de amarelinha: eu colava fita crepe no chão e usava um polvo (cheio de areia) para funcionar como pedra. Ela confundia o 2 com 5, não lembrava do 6 etc.
Passei a jogar Uno com ela. A regra era seguir a cor ou o número. Como eu ficava narrando o jogo, ela apenas identificava os símbolos, mas não dizia os nomes dos números.
Aí a quarentena se estendeu por mais tempo que a minha criatividade para novas brincadeiras permitiu e Agnes passou a querer brincar de esconde-esconde. Ela contava: um, dois, três, quatro, sete, oito, nove, dez! Eu reclamei que eu tinha menos tempo de me esconder, porque ela engolia o cinco e o seis. Anotei todos os números numa fileira e dei pra ela. Nas primeiras vezes, deu certo. Daí ela passou a confundir 6 com 9. Escrevi o nome de cada número abaixo do algarismo, confiante de que ela saberia reconhecer o s de seis e o n de nove. Deu certo, mas ela sempre precisava do papel.
Muitos esconde-esconde depois, o papel tinha sumido e ela voltou a saltar do 4 ao 7. Apostei na rima:
um, dois, três
quatro, cinco, seis,
sete, oito, nove?
Dez!
Agora fixou. Agora ela só conta assim, quase cantando.
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