quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Deadline

Ele entrou no projeto sabendo dos prazos e entendeu que precisaria se organizar para cumpri-los. Montou uma equipe, delegou tarefas, compilou dados, agendou e conduziu entrevistas. Na equipe, um montou mapas, outro fez os gráficos, outro transcreveu as entrevistas. O esforço de interpretar os dados era equivalente ao da tese. Um universo inteiro se abria: a vontade de teorizar vinha antes da disposição para analisar os dados coletados.

Pediu que a família compreendesse que precisava de tempo para se dedicar ao projeto. Ficava esgotado depois das reuniões, das entrevistas, de pensar diante da tela. Chegou a se isolar num hotel, mas como tinha levado o celular, as notícias urgentes e cobranças do mundo ao redor logo o alcançaram. 

O prazo foi adiado e ele passou dois dias resolvendo pendências acumuladas. Quando retomou o projeto, viu que o tempo concedido era pouco para o que faltava fazer. Havia dois limites que se impunham: o tempo do relógio e o número de páginas. Precisava coordenar o volume de escrita com o tempo que ainda lhe restava. Contagem regressiva no calendário, número de páginas escritas aumentando. 

Mudou a rotina de toda uma rede de pessoas. Os membros do grupo passaram a se reunir alta noite, a família passou a sair mais de casa para deixá-los trabalhar. A hora do fim do prazo se aproximava. Não havia texto quando o dia chegou. Havia um esqueleto, uma ideia, uma intenção, um plano. Mas não havia texto. 

Pediu mais prazo. Como ele é conhecido e reconhecido na academia, apostaram na qualidade do trabalho e concederam uma semana a mais de prazo. Ele se sentia como quem engana a Morte e posterga a sua hora. Juntou material produzido por um, por outro, escreveu em cima, teorizou e se surpreendeu com a riqueza do material que tinham à disposição. Quando atingiu metade da meta do número de páginas, entendeu que as outras seções não poderiam ser tão extensas. Ao invés de escrever, passou a cortar, reduzir, resumir. E o calendário mostrava que o seu tempo ia minguando.

Perdeu o prazo, que era uma sexta-feira. Com o argumento de que ninguém abre email depois da meia-noite de sexta-feira, teve esperança de conseguir finalizar na madrugada de sexta para sábado. Percebia que o que estava na sua cabeça era toda uma tese articulada de aproximadamente 200 páginas. Lutou para condensar isso tudo em 30 páginas. A cabeça girava, o corpo moído pela cadeira, as pontas dos dedos adormecidas, mas ele tinha sido dominado pelo projeto e precisava entregar um texto respeitável. Sábado passou, entrou domingo e a forma do texto ia ganhando corpo. Na noite de domingo, chegou a cogitar que tinha alcançado a metade do texto. Faltava a outra metade.

Na segunda, o ultimato: aguardamos o texto hoje. Pediu à companheira que revisasse o texto assim que estivesse pronto. As seções estavam definidas, havia texto escrito, mas essa história de escrever um texto a muitas mãos dá um caráter meio esquizofrênico ao todo, já que cada autor tem seu estilo, suas fórmulas, seu tempo de exposição. Um jogava pílulas concentradas - quase enigmáticas, outro se demorava nos passos que levariam à conclusão. Era preciso homogeneizar a escrita. Passou a noite trabalhando. A companheira entrou em ação de madrugada. Enquanto ela revisava a primeira parte, ele lapidava a segunda. 

Na manhã de terça, ele declarou que tinha alcançado dois terços do texto. A companheira tinha chegado nas referências bibliográficas e se deu conta de que a ABNT não é universal. Em outras línguas, os sinais de pontuação exercem outras funções ao organizar a informação contida na referência. Faltavam quatro referências que haviam sido citadas no corpo do texto. Ela perguntava se Nascimento e Castro não era o livro que estava no banheiro. Ele respondia que Castro não era a Edna, mas outra pessoa (mas era a Edna Castro). As notas de rodapé se mostraram um problema: numa versão do texto, as notas tinham sido colocadas no rodapé da página, por isso não foram copiadas com o resto do texto. A revisora teve que inserir (e formatar) cada uma das notas na versão final. Quando chegou a segunda metade do texto, ela notou que várias partes da primeira metade estavam marcadas e precisavam ser inseridas na versão final. Ou seja: não se progride por seções cumpridas, mas por assuntos resolvidos por escrito - e isso envolve forma e conteúdo.

Antes de almoçar (depois do meio-dia), todas as seções estavam completas, mapas e gráficos no lugar, notas inseridas, referências citadas e o texto revisado. Poderia ficar melhor, não fossem esses prazos - que são de matar. Quando a pessoa finalmente cruza a linha de chegada, está morta de cansaço.

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