Foi Luis quem descobriu a costureira ali embaixo num dos passeios a pé que dá no bairro com a Agnes. Já encomendou muitas máscaras com ela. Aí eu resolvi encomendar umas coisas também. Ela fez duas fronhas de almofada de sofá e uma fantasia de dinossauro pra Agnes.
A fantasia de dinossauro que chegou da China tinha ficado um tanto grande na Agnes e ela pisou em cima do rabo. A costureira usou essa como modelo pra fazer outra, em malha. Agnes escolheu o tecido e levou um livro de dinossauros pra costureira saber como é o estegossauro - pra máscara e pras placas nas costas. Só que, pra máscara, a costureira preferiu procurar moldes na internet e achou um tricerátopo. Agnes notou a diferença.
Quando as fronhas e a fantasia ficaram prontas, fomos lá e Agnes experimentou as duas fantasias: a da China ajustada e a nova. Ambas ficaram apertadas e a costureira usou giz pra marcar o lugar onde o fecho devia ficar.
Hoje de tarde começou a ventar e o céu ficou escuro logo depois que a costureira mandou recado avisando que as fantasias estavam prontas. Apesar de serem só duas quadras de distância, Agnes e eu fomos de carro, por causa da chuva iminente. O ateliê de costura é o que deve ter sido a garagem da casa. Pra virar ateliê, imagino que a garagem tenha ganhado uma parede com janela e porta. A janela estava aberta quando chegamos e ela estava sentada à máquina. Cumprimentei. Ao ouvir o segundo oi, a costureira piscou pra mim e disse que tinham levado a fantasia de dinossauro embora, mas que ela tinha feito outra, parecida. Agnes ficou curiosa, bateu na porta e pediu pra ver essa fantasia de que ela falava.
Abriu a porta, Agnes entrou. Vamos testar? Ih, vou ter que mudar o fecho. Sentou de novo na máquina. Agnes já tinha entrado e passou a explorar o ateliê de costura. Achou o molde de tricerátopo que a costureira tinha imprimido. Queria colorir. Pode levar. A costureira levantou pra pegar um carretel de fio azul. Foi cortando o fio na mão e inserindo na máquina. A agulha estava ao contrário. Trocou a agulha.
Começou a jorrar água. Na maior tranquilidade, a costureira tomou nota de que a água tinha voltado e que tinham deixado a torneira aberta. Não levantou da cadeira pra fechar a torneira, porque os joelhos doíam muito. Vai ter que operar.
Ei, por que tem giz no chão?
Porque eu não dou conta de arrumar tudo. Tu não quer sentar?
Eu não: eu não moro aqui!
A costureira terminou de pregar o velcro no lugar certo. Faltava cortar o fio que liga a máquina ao tecido.
Agnes, vê se tu acha uma tesoura por aí. Ontem meu filho levou todas as minhas tesouras pra cortar material de campanha. Ele faz adesivo, essas coisas. Acho que ficou só uma aqui. Onde foi parar?
Achou a tesoura embaixo da outra fantasia da Agnes.
Agnes gritou tchau correndo de braços abertos. Brincava que voava ao vento. E nem choveu.
Duas fantasias, duas experiências: a da China foi comprada por aplicativo. A de estegossauro com máscara de tricerátopo foi manufaturada por uma pessoa que passamos a conhecer.

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