Para um editor, o autor é aquele que é responsável pelo texto: aquele que escreveu o texto e assina o contrato de cessão de direitos autorais.
Entendo que nem toda pesquisa é realizada por indivíduos isolados e que existem laboratórios, grupos de pesquisa e redes que publicam seus textos em periódicos. Como a lista de autores (nesses casos) é grande, convencionou-se discriminar o papel que cada co-autor teve na elaboração daquela pesquisa realizada em caráter coletivo. A taxonomia CRediT estabelece como alternativas de autoria:
conceitualização (mais no plano das ideias e objetivos da pesquisa)
curadoria de dados (relacionado à anotação de corpora)
análise formal (aplicação de ferramentas estatísticas, matemáticas, computacionais etc.)
captação de recursos (apoio financeiro para a publicação)
investigação (condução de experimentos, composição de corpus)
metodologia (criação de modelos para lidar com os dados)
administração de projeto (planejamento e execução)
recursos (provimento de materiais, cobaias, reagentes, pacientes)
software (desenvolvido para a pesquisa)
supervisão (do projeto todo)
validação (verificação e garantia de reprodutibilidade)
visualização (formatação do material para apresentação)
escrita - primeira versão (preparação da publicação)
escrita - revisão e edição (revisão crítica, comentário)
Trocando em miúdos, parte-se do princípio de que a co-autoria extrapola o trabalho de escrita propriamente dito do texto a ser publicado. E o trabalho de escrita se desdobra no trabalho de escrever e no trabalho de ler o escrito para modificá-lo.
Acho que esses papéis valorizam o trabalho da equipe que se responsabiliza pelo texto publicado. Há critérios para o nome de alguém constar na lista dos co-autores (e não vale mais o apoio emocional, cafeínico etc.) e a contribuição de cada indivíduo é devidamente reconhecida.
Só que esses critérios não valem, a meu ver, para todos os tipos de autoria. Suponhamos uma entrevista. Alguém provocou uma pessoa a falar. Esse alguém organizou um roteiro de perguntas/questões. Esse alguém entrou em contato com a pessoa entrevistada, interagiu com ela, gravou a entrevista. Temos então uma dupla autoria: o entrevistador é responsável pela entrevista e o entrevistado é autor de sua fala. A taxonomia CRediT não prevê "entrevistador" e "entrevistado".
Agora a entrevista, que foi falada, é vertida para o papel. A escrita é uma técnica em que o corpo, tempo e espaço são removidos da cena. O escrito é uma mediação. O escrito permanece para além da existência da pessoa que o escreveu e pode circular em tempos e lugares não imaginados pelo redator.
Existem entrevistas ruins e entrevistas boas, mas isso tem mais a ver
com as perguntas e a empatia entre as pessoas que interagem do que com a
escrita propriamente da fala do entrevistado.
Escrever uma entrevista não é a simples transcrição da fala, mas um trabalho tanto de apagamento de marcas ancoradas no eu-aqui-agora da entrevista face a face como o preenchimento de vazios que tinham ficado entendidos (telepaticamente) durante a interação. Escrever uma entrevista falada é mais próximo de editar do que de ser autor. O tradutor também não se vê como autor do texto que traduz. A taxonomia CRediT não prevê "editor" ou "tradutor" porque o trabalho de pesquisa é de outra natureza.
A contribuição do entrevistado encerra-se na entrevista. O entrevistador é que escreve a entrevista, submete a entrevista numa revista, espera o tempo dos dois avaliadores, ajusta o texto de acordo com os apontamentos dos pareceristas, registra pré-print e submete a versão final.
Se o autor é quem escreveu o texto, então o autor da entrevista é...? O trabalho de escrita recai sobre o entrevistador. O entrevistado falou, não escreveu. Algumas revistas acadêmicas colocam o entrevistado como primeiro autor (a ideia, o conteúdo era dele) e o entrevistador como co-autor. Entendo que, na hierarquia da fama e prestígio, o entrevistado esteja no topo e o entrevistador pode ser um desconhecido. Mas o trabalho de escrita e a responsabilidade pela publicação da entrevista são do...?
Como se aplica a taxonomia CRediT a uma entrevista? Como se atribui co-autoria aos dois envolvidos na entrevista usando esses critérios?